Alcochete: dois textos de quem gosta de futebol

Alcochete: dois textos de quem gosta de futebol

Reproduzo, com agradecimento antecipado, dois textos, de dois apreciadores de futebol, sobre os hediondos e inenarráveis acontecimentos de 15 de Maio na Academia de Futebol do Sporting Clube de Portugal, em Alcochete. Recorde-se que um grupo de criminosos, encapuzado e disfarçado com equipamentos do clube lisboeta, invadiram as instalações e agrediram dezenas de profissionais de futebol. JVA


“Não, diz por aí muita gente…

por Paulo Barreto

“Não, diz por aí muita gente…

Que esta maltinha faz falta para apoiar a sua equipa, são eles que dão corpo e alma ao adepto que apoia o seu clube – chova ou faça sol, de noite ou de dia, joguem fora ou em casa!!!
Que são assim mais facilmente controláveis, advogam dirigentes e autoridades policiais!!!
Legalizar a existência desta escumalha é o mesmo que fazer um pacto com a violência e a criminalidade. Não legalizar vai dar ao mesmo, visto que o apoio dado é igual e a tentativa de eliminação de comportamentos criminosos é, em ambos os casos, pouco ou nada efectiva, antes pelo contrário. Este episódio é só a repetição de um semelhante já passado em Guimarães. Depois de mortos nos estádios, depois de adeptos de clubes rivais que combinam batalhas antes do jogos e que de madrugada acabam com morte, depois de claques que atiram petardos, tochas, e tudo o mais que lhes apeteça para cima de outros, depois de insultos de índole racista e a instigar violência dentro de estádios e pavilhões, depois de estádios incendiados, depois de centro de treino de árbitros invadido por claque, depois de ameaças e destruição de restaurante de familiares de árbitro, depois de insultos e cadeiras a voar em assembleia geral de clube, depois de confrontos entre adeptos que não estão de acordo no que à direcção de clube diz respeito, depois de dezenas e dezenas de estações de serviço assaltadas, por criminosos perfeitamente identificáveis, a caminho dos jogos, depois de milhares de horas de filmagens de agressões entre adeptos – será que o são? – e de autenticas batalhas entre estes e a policia, depois de milhões de euros gastos pelo estado para a policia guardar estes marmanjos que vão á bola, depois… depois… depois…

Acham que esta escumalha ainda pode tirar a outros o direito de usufruir de um espectáculo desportivo? É que são muito mais os que não vão a um estádio ou pavilhão assistir a um jogo por causa destes meninos – as pessoas não estão para se incomodar nem para ver cenas tristes – do que, em comparação, o ridículo numero de meliantes que compõem estes grupelhos de criminosos que se escudam no apoio aos clubes. Não percebem isto os dirigentes? O mínimo que têm a fazer é identificar então quem mal se comporta e EXPULSÁ-LOS de associado do clube proibindo-os de entrar nas instalações. As autoridades façam também o seu papel e este bando de marginais desaparecerá num instante.
Se a tudo isto juntarmos ainda dirigentes que instigam a turba a tais comportamentos está tudo dito. Ontem, na tv e em directo, um gordo boçal achou que a melhor maneira de pedir justificações a um arruaceiro que o acabava de insultar era levantar-se e ir encostar-lhe a pança na orelha!!! Continuem assim com este tipo de pornografia televisiva que o resultado está á vista.
Sim!
Acabar com esta cambada de energúmenos e colocá-los a todos numa jaula, mas não dentro dos estádios. Adepto que tenha que estar dentro de uma caixa de segurança ou que tenha que ser guardado pela policia para estar ou ir ao estádio, deve é ir ver a bola na esquadra. Todos os estádios/pavilhões têm capacidade audiovisual para identificar os espectadores, deixem-se as autoridades e os dirigentes de paninhos quentes e de assobiar para o lado. Dirigentes que pactuem com cenas destas devem ser exemplarmente punidos. Comentadores com comportamentos fanáticos e programas pornográficos em que se discute tudo menos o jogo e só instigam, também eles, o imbecil á violência, não fazem falta nenhuma nas televisões.
Isto tudo porque sou do tempo em que ia á bola e no meio de 120, 130 ou 140 mil, antes de um Benfica-Porto a malta estava toda misturada e horas antes o estádio estava já cheio e no meio do convívio petiscavam-se umas tripas que vinham lá de cima, uns pasteis de bacalhau, uns panados… e uns belos garrafões de tinto ou umas jolas. Ah mas isso era uma bimbalhice do pior, já me esquecia!”

Paulo Barreto é benfiquista e publicou este texto no Facebook, que se reproduz com vénia.


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“O dia mais negro

por André Julião

“Sou do Sporting CP desde que me conheço. Não faço questão de o esconder, nem por conveniência nem por falsa imparcialidade. Sou “leão” e pronto, goste quem gostar! Não porque fosse o clube com mais campeonatos ou que ganhasse mais vezes. Simplesmente porque era um clube diferente, com os valores da justiça, da correção, de que não vale tudo para ganhar. Esta diferença sempre me deixou orgulhoso, dissessem lá os outros o que quisessem. Os nossos títulos sempre valeram e valeriam por cem dos dos nossos rivais. 


Passei e passarei os valores do verdadeiro sportinguismo aos meus filhos. O mais velho já ia a Alvalade com pouco mais de 3 primaveras. Herdou daí o sentido de justiça, o fair-play e a correcção. E bem! 


Estive no estádio nos célebres 3-6 de Carlos Queiroz, estive no jogo em que morreram 2 adeptos, caídos de um varandim do antigo José de Alvalade, e estive na final da Taça UEFA de 2005.


Mas o dia 15 de maio será, sem dúvida, o dia mais negro da história do nosso grande clube. Sempre nos pautámos pelo respeito, tanto pelos adversários, como mais ainda pelos nossos: jogadores, treinadores, funcionários, atletas. O que 50 arruaceiros criminosos fizeram esta tarde em Alcochete não tem perdão. É essencial tirar ilações e fazer mudanças radicais:

1- prender e proibir a entrada em qualquer recinto desportivo, para sempre, dos autores das bárbaras agressões de hoje, expulsando aqueles que eventualmente sejam sócios;

2 – demitir os órgãos sociais do clube, que têm sido coniventes e atiçado o ódio que hoje impera no SCP;

3 – tentar a todo o custo minimizar os prejuízos morais e financeiros que este ato de vandalismo possa ter tido no futebol profissional;

4 – marcar eleições antecipadas e escolher uma direção que represente os nossos valores e nos encha de orgulho. 


Voltar a ser um clube diferente, melhor, muito melhor do que todos os outros. Porque, para ganhar, não vale tudo!”

André Julião é sportinguista e publicou este texto no Facebook, que se reproduz com igual vénia.


Imagem: montagem COFINA/ Jornal Record

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Quando a vida nos diz: “Nada!”

Quando a vida nos diz: “Nada!”

Perguntei há dias, na papelaria onde comprava os livros de BD, se sabiam da minha professora de Português, Maria Adelaide, que vivia no 1 Esquerdo.

Sabiam.

Morreu.

Não vos sei dizer como, mas todo o sonho que tive naquela aula em que decidi escrever para a vida, foi-se. Aquela aula, de manhã cedo, em que entrávamos por número e a poesia era dada como música, a narrativa como pasteis de nata, a reportagem como um filme de acção.

Maria Adelaide, não sabeis, mas era baixinha e tinha uma cara deliciosa, bonita de tanta ruga de sorriso. Um dia, incauto, um condutor atropelou um marco dos Correios e este caiu em cima dela. Operações e recuperações, tormentos malévolos e aí estava ela a recomeçar. Deu força a Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada para arrancarem com a aventura de “Uma Aventura”. Fez programas de Português sem fastio de Sophia. Sabia do Mundo. Era uma lutadora. Um dia, fez uma pergunta à turma sobre a escrita e o jornalismo. Pus o braço no ar, e ela nada. E mais punha e mais ela perguntava a outros – e os outros falhavam com redundâncias e palermices. No fim, seca, atirou: “João” e eu, pimba! E nesse momento, tinha 11 anos, meteu-se-me na tola que queria era escrever – fosse para onde e como fosse.

A ida de Maria Adelaide é um golpe baixo que não aceito. Quero ter uns apontamentos dela, gostava de lhe ter dado um beijo e dizer “Amo-a porque sem si não seria feliz”.

Vanda Caleça era minha professora de português. Minha e de tanta gente boa. Quando nos apareceu à frente, franzina e de voz melíflua, duvidámos, do alto dos 15 anos, que aquilo era para abater com uma revolta à anos 80. Mas, não.

Vanda envolveu-nos. Disse-nos do surrealismo o que apenas sabíamos, mal, da parvoíce. Esteve ao nosso lado todos os dias, aceitou um trabalho sobre o Eça que era intitulado “A Importância da Ausência de Prefácio nos Maias”, onde uns debitavam colados ao tecto (vero) coisas mais ou menos académicas e outro, meu fraterno Rui, lia passagens do “Anticristo” de Nietzsche, precisamente por causa do incesto. Ou da falta de pecado.

Vanda acreditava em coisas que eu não acreditava. Fizemos um pacto: o primeiro a morrer apareceria ao outro, em forma de espírito, fantasma, fosse o que fosse. Estou há espera, quase há 15 anos, que a Vanda me entre pela casa dentro, de dia ou de noite, a mostrar-me o livro que leu, o LP que comprou, com aquele ar sempre insatisfeito por não termos nascido todos num mundo bem mais belo.

O Fernando, felizmente, ainda nos bate. A mim e ao grupo que, nunca desfeito, o teve como luz, farol, verdugo e amigo. Não se percebia bem o que era uma aula de Psicologia até se conhecer Fernando Pinto. Ele entrava, era imponente e sensível. Para nós, em segredo, acreditávamos que ele era o nosso David Bowie privativo. E, nessa viagem, tanto nos transformou em Major Tom como em reles banais, common people, para que nunca perdêssemos a noção do mundo. Ainda hoje. Ainda bem.

Júlia Queiroz, que também teve a veleidade de se ir embora sem nos dizer nada, conseguiu que quase nos matássemos à machadada quando, um dia, nos avisou que dali a duas horas tínhamos que apresentar o trabalho grupal (o grupo, como os vossos, era sempre o mesmo, ou quase) sobre a “Morte na Idade Média”.

Bonito serviço.

Ninguém tinha feito patavina. Nem o agora Historiador, nem o agora Jornalista, nem o agora Director de Produção da Rádio Pública, nem o agora Director de Comunicação, nem os outros… Meia hora ganha a mandar toda a gente para uma sala de teatro e, nesse tempo, umas fotocópias mal amanhadas do índice do Lefevre na parede. Cada cena, um título de capítulo, sem nenhum ter lido pevide. O Historiador ia matando o Director de Comunicação com um machado (onde se terá arranjado a maldita arma não me lembro). Deu 18, em 20, a brincadeira.

Em suma: a Maria, a Vanda, o Fernando e a Júlia. Quatro, únicos e eternos, que moldaram centenas de vidas com a sua luciferiana paixão pelo conhecimento, pela curiosidade, pelos desafios de nos ver cair e levantar.

É deles que precisamos. Todos. Sempre.

Porque a vida às vezes nos diz “nada!” ou “não!” ou nos coloca uma parede. E eles, os nossos quatro cavaleiros, deram-nos as armas e as bagagens. Nós somos apenas os passageiros.

Viva o 16 de Fevereiro! Cobranças nunca mais!

Viva o 16 de Fevereiro! Cobranças nunca mais!

Porque até 19 de Julho do ano seguinte o país se tornou civil, sem absolutismos e, pela primeira vez, nenhum militar ocupava cargos e funções de soberania.

É nesse dia que, finalmente, Portugal se livra, definitivamente de Salazar e Marcelo e dos normais mas conturbados anos pós-revolução de 1974. É nesse dia 16 de Fevereiro que, pela primeira vez, o país respira sem paternalismos serôdios ou figuras tutelares.

A 19 de Julho do ano seguinte viria a primeira maioria absoluta de um só partido e, de novo, a ideia de ter a pata em cima regressou, por mais penosos anos do que seria necessário.

A geração das mulheres e homens de Esquerda que viveram e fizeram o 25 de Abril de 1974 terão sempre alguma dificuldade, compreensível, em compreender o que vos digo. É que a minha geração estava de fraldas, de berço, no líquido amniótico quando Otelo, Salgueiro Maia e seus camaradas fizeram a revolução. Por isso, Abril é para nós uma ideia mais do que um dia real.

Por tanto, para nós, o dia da libertação final nem sequer é aquele da eleição do primeiro Chefe de Estado civil. É o dia 1 de Outubro de 1995, quando a minha geração tinha a mesma idade dos que viveram intensamente 1974, quando acabou a podridão absoluta do Gengis Khan de pacotilha saído do poço de Boliqueime – aquele que nos mandou bater, que nos impôs silêncios, que nos menosprezou enquanto movimento estudantil. Esse novo “pater” insuportável, contra quem lutámos, a quem mostrámos o rabo, a quem insultámos, a quem impedimos, ouvindo os novos cantores na revolta, como Pedro Abrunhosa, no caminho da libertação absoluta do que era absoluto.

A minha geração agradece a quem fez, activa ou passivamente, mas fez, o 25 de Abril de 1974. Para nós o PREC é um período histórico natural. O fim do Conselho da Revolução um momento fundamental e, finalmente, por enorme simpatia que se tenha a Eanes e grande discordância que se possa ter com Soares, é o dia da eleição deste último que marca, enfim, 12 anos depois, o princípio de toda a vida plena social, política, democrática, activa. Sentimos isso movidos por todas as músicas do Zeca, do Godinho, do Zé Mário, do Fausto, mas também do B Fachada, dos Diabo na Cruz, dos Essa Entente e tantos outros.

Não andámos nos telhados contra o PCP ou contra o PS, não atirámos baldes de água com sabão aos cavalos da GNR como a UDP ou o MRPP.

Não tivemos ódios decorrentes do 25 de Novembro – estávamos a farinha maizena, se a houvesse. Lembramo-nos de ir para a bicha da UCAL à espera de uma saco de leite, que não havia senão racionado.

Abominamos os paternalismos revolucionários, ainda existentes e felizmente em extinção, que nos dizem que a nossa Esquerda e a nossa luta tem menos valor por não ser maniqueísta como a 18, 20 ou 29 de Agosto de 1975.

Para nós, o Duran Clemente é um vídeo com piada, a Alameda uma festa e o Avante! o lugar onde aprendemos a estar todos juntos.

Recusamos que não nos entreguem o testemunho como se faz nas corridas de estafetas. E essa recusa em entregar o testemunho aos que acreditam e sonham e querem e lutam e têm por Abril de 1974 um respeito que se transforma em energia, essa recusa afastou milhares, senão milhões de pessoas nascidas desde 1969 até ontem à tarde, da luta justa, socialista, democrática, irreverente, categória e dinâmica.

Não, não estávamos cá, ou não podíamos estar como vós. Não sabemos responder à pergunta “Onde estávas no 25 de Abril ?” – pergunta que começou como uma piada mas se tornou um anexim contra quem não podia estar ali a fazer o que se fez.

Estamos hoje. Socialistas, comunistas, anarcas, obreiros, libertários, revolucionários, democratas, bailadores ou baladeiros, do funk e do clash royale, da selfie à broa de Avintes: cheios de força. Já nos basta o outro lado a dizer que “Abril falhou”, quando mais que nos digam que nós “falhámos Abril”.

Cumpramos apenas aquilo que vem de um tempo em que nenhum estava vivo:

como Proletários, Unamo-nos!

The Sócrates Keyhole Show

The Sócrates Keyhole Show

As imagens de Sócrates a berrar a um Procurador da República são deliciosas e assustadoras, além de pura manipulação da opinião pública.

Deliciosas porque Sócrates não finge. Este é o José verdadeiro, que berra e se irrita e esganiça a voz. Terá ainda mais razão se for inocente. Nada nos deve assustar naquelas reacções: imagine-se na situação, sendo inocente e levando com meses de prisão e, depois, umas vagas insinuações sobre comportamentos que, sendo eticamente questionáveis, não são ilegais… Ai que a maioria se dava ao trabalho de berrar, isso dava.

Assustadoras porque a publicação de imagens de um inquérito protegido pelo segredo de Justiça só confirma como este segredo é uma treta e, mais, nenhum de nós está seguro. Todo o MP, e foi o MP que filmou, devia cair de cima-abaixo, com a cara pintada de vergonha por ter deixado sair o cartão de memória com estas gravações. É impossível um Estado tratar assim um cidadão – ou todos. Os comportamentos pessoais quando pensamos estar protegidos pelo sistema judicial não pode ter estes buracos. Estamos todos em causa, na nossa reserva da vida pessoal. Qual Facebook perigoso… o Facebook não julga pessoas nem as manda prender. Isto sim é surpeendente e um risco.

Por fim, as imagens são pura manipulação da opinião pública. São editadas e contextualizadas conforme os jornalistas julgam melhor, mas não sabemos se este trabalho foi feito com acesso ao bruto completo das imagens. Isto é, seria melhor, tendo as imagens, passar tudo, as horas e horas infinitas. Seria mais justo, embora criminoso, passar tudo para compreendermos tudo. Umas frases avulsas e umas histerias de quando em vez não demonstram nada. Aliás, bem vista a reportagem, Sócrates sai a ganhar e o procurador e o senhor do Fisco parecem uns atrasados mentais. O animal feroz confirma-se, as dúvidas sobre a acusação mantêm-se.

Não há interesse público aqui. Haveria se todos os depoimentos, sem montagem, fossem deitados à net. Todos: em directo, ao vivo, numa espécie de grande orgia popular, com ecrãs gigantes em todas as cidades e vilas.

O que isto dá é um profundo desconforto perante a Justiça. temos razão para estar receosos. Muito. Muito mais do que com os Facebooks da vida. Se o Estado não acautela a nossa privacidade quando estamos mais frágeis, a Constituição está a ser violada e o cidadão atacado tem toda a razão para destruir o processo, por falta de…

…esperem lá…

…que bela ideia esta das imagens. Vale ao MP, com uma acusação fraca e vale ao José, que assim passa a vítima, outra vez.

Esqueçam tudo. Pipocas! Preparem as pipocas. Vem aí mais uma bela temporada de spin. Quem dera que Soares ainda fosse vivo.

 

Hoje, vai ser outro dia

Hoje, vai ser outro dia

Lula, camarada, quero acreditar que não vou acreditar em nada. Tirar milhões à pobreza e distribuir favores para que isso aconteça é política. Viajar e ser pago para falar é profissão de político, depois do cargo. Receber triplexes ou luvas (propina) por causa disso é crime, mas a gente não sabe se é verdade o que é verdade nem mentira o que é verdade.

Curitiba, ainda que linda, é e sempre foi o poiso dos bandeirantes à procura do ouro entre pinheiros e porcos. Tornou-se na grande cidade educada, com a estranha ligação de alemães e italianos, igual ao eixo, hoje famosa pelos 15 metros quadrados que te estão destinados.

Mas há coisas que a nós, portugueses, nos fazem tanta confusão. Contra Temer há tudo e o processo não anda. Contra ti há pouco, mas daqui ouvem-se coisas tão confusas como a ligação que tens à Olderbrecht, essa empresa empreiteira que namora com o nosso Grupo Lena, esse que namora com a nossa operação Marquês, este que se liga ao José que se ligava ao Vara, dos Robalos, que se liga assim:

Já a Camargo Corrêa é controlada pelo grupo Camargo Corrêa que, através da sua participada InterceCement, controla mais de 90% da Cimpor (Cimentos de Portugal), e teve como Presidente do Conselho de Administração para África o executivo Armando Vara, detido em Portugal no âmbito da Operação Marquês”.

Lula, camarada, o que podes fazer é acabar hoje com tudo: delação premiada sem culpa, se é que isto existe. Pela última vez, os meios podem justificar maoisticamente os fins. Vai, usa a cela e o juiz Moro, que se benze, e entrega o Brasil corrupto e indecente, o Brasil Globo e o Brasil Bolsonaro, o Brasil que está a menos de dez minutos de Lisboa, menos de cinco, que é quanto duram as músicas e as letras que nos unem.

Lula, a gente quer mesmo que o que o Kevin escreveu do Ché (que nunca mereceu) se aplique a ti:

Todos se dejan la barba y el pelo como él
Pero no son como él
Todos declaran y hablan en nombre de él
Como si fueran él
Yo me pregunto que estará pensando él
Si pudiera ver
Cómo se llenan de plata hablando de él
Sin saber nada de él
Todos se compran la remerita del Che
Sin saber quien fue”

Camarada e presidente Lula, a esquerda está diluída e triste, irritada e indignada. Por isso, ou temos a certeza de que acabas a tua missão de vida – defender e limpar o Brasil -, ou ficaremos para sempre sem saber se a verdade é verdade ou era mentira.

Sem camisa, sem coberta, estamos no tapete atrás da porta. Murmuramos baixinho “Lula, por favor”.

É ser estúpido, estúpido

É ser estúpido, estúpido

A civilidade. Implica isto um procedimento comum na comunicação código e referências para que se entendam dois ou mais sapiens sapiens.

Esta manhã passa um tipo com uma T-Shirt estampada com focinhos de gatos em silhuetas dos Blues Brothers. Cinzento, preto, branco. Pergunto-me se o rapaz, que não passará dos 18 ou 20 anos, saberá a história do Belushi. Se viu o filme. Se dança.

Mais à frente: o jovem pivot assegura que lula foi condenado em segunda instância. Erro. Pergunto-me se o repórter percebe alguma coisa do que diz. Não o pivot, que lê, mas o que escreveu. A peça é ainda pior: ontem os Ministros, ou conselheiros, debateram â exaustão em que momento se prova a culpa – se quando a sentença transita em julgado ou se quando o MP apresenta as provas. Ou mesmo se só depois de todos os recursos, uma vez que a partir da 2ª instância, o que se aprecia é matéria de direito. Nada disto na peça, nada disto nos jornais, com raríssimas excepções.

O sapiens sapiens tem um intestino formatado para a carne e comida cozinhada. São centenas de milhares de anos com o ADN a adaptar-se a esta vantagem étnica e de espécie: o domínio do fogo. Logo, abrem mais e mais restaurantes vegetarianos e vegan, com imensas e imensas opções cruas, sushis e sashimi.

Top das 20 músicas mais ouvidas, escolha-se o canal: RFM, Comercial, Youtube, Shazaam, Spotify: as duas portuguesas que lá andam não se entendem. Mostram rabos, mamas, pois está bem, armas e BMWs, pois vale, gajos com bigodes e barbichas que não cantam – mas pelo preciso estão assim bem.

A rainha à frente da rainha é a única coisa que faz sentido. A rainha move-se para todos os lados sem limitações. O rei anda. mal, uma casa, apoiado sempre na bengala. Os bispos sumiram-se na diagonal para as sacristias e a única torre espanhola de quem se fala foi regar a embaixada portuguesa com álcool, bêbado, a dizer que na Lusitânia se traficavam pessoas – e com razão.

Os manifestantes anti-Lula gostam do polvo. Os manifestantes pró-Lula fincam-se à porta do triplex “prenda”. O dono do Facebook diz que vai demorar anos a mudar umas linhas de código.

São os estúpidos: são os estúpidos que aceitam. São os estúpidos que aceitam o dinheiro da cultura e calam-se, em vez de fincar o pé e exigir outra coisa, uma atitude real do Estado sobre a cultura. Mas a esmola faz-me estúpido. E calado.

O desemprego, segundo o INE, mede-se pelas pessoas que já nem sequer ligam ao INE e ao IEFP, que de tão trastes se sentirem não respondem às cartas que perguntam “quer continuar desempregado?”.

Hoje, joga-se futebol. Com bicicletas, agora, segundo percebi.

 

 

 

Usa o esperma, finalista!

Usa o esperma, finalista!

Há sete mil (!) portugueses com menos de 20 anos numa aldeia espanhola, metidos numa sopa de massa, aos saltos, em calção de banho e biquini, contentes (?) por estarem numa piscina coberta a ouvir péssima música e vigiados por 150 polícias, que não os deixam fumar charros nem dar quecas à vontade. A isto, os sete mil, chamam liberdade. “A semana mais louca das nossas vidas”, alega uma pobre mocinha de Guilharapos. “Vamos dar tudo até ao fim”, diz um portador de média de 9 a Português. “Isto é a loucura total, sem ninguém para nos controlar”, afirma, naturalmente enganado, o Fábio Rúben, de Gaia.

Ao olhar para as belas imagens que chegam de lupanares moralistas em Espanha, tem-se o enorme desejo que estes pobres rapazes e raparigas se comecem a despir na piscina e saltem para cima uns dos outros, numa caligulada de fazer inveja aos imperador. Adorava ver os GNR e os da Guardia Civil, mais os “promotores” das viagens a tentar desacoitar a Carina do Martim, a Soraia da Vanessa, a Bruna do Rubim que, entretanto, já estava agarrado ao Sebastião.

Ao cassetete e com tiros para o ar, as forças da ordem desesperadas, uniformes molhados até às axilas, a gritar “larga, larga”, enquanto uns fugiam com os charros apagados e outros se desviavam das bolhas de sémen e de hímens que flutuavam à solta nas águas cálidas de marina del mar.

Controlada a coisa, os sete mil (!) saiam para as ruas e ocupavam as talhas de vinhad’alhos, metiam-se lá dentro e alegavam beber à Baco e comer como um homeopata que receita alho para as infecções.

Durante dias, estes sete mil tentam as asas de Ícaro, a passarola de Bartolomeu, a destreza do Coloni de Pedro Matos Chaves. Um deles, o que ficou no hotel doente durante a grande libertação da piscina, leu! E leu uma frase inspiradora numa pastilha elástica que dizia “Vive até ao limite”.

Oriundos da grande sociedade do vazio, os sete mil(!) chegam-se à primeira arriba e lançam-se convencidos que são pássaros, depois de ouvirem no refeitório onde comem das manjedouras ovos com salsichas o “I’m like a bird”, os GNR e os PSP e os da Guardia cá em baixo a tentar apanhar as gordas primeiro, porque nunca ninguém lhes explicou aquilo da Física e há dez polícias mortos e um estudante que conseguiu voar.