Perdão, mas já chega de fogo.

FeaturedPerdão, mas já chega de fogo.

Entendamo-nos: nenhum governo pode estar descansado e falar de Economia quando o país arde como arde. Basta olhar para o mapa, para a televisão, para os sites oficiais para perceber um gravíssimo problema em Portugal.

Um problema que se chama desordenamento do território. Por cima deste, milhões de outros, mas que derivam apenas de um só: Portugal não é pensado, provavelmente nunca o foi e, infelizmente, a ver pelos exemplos dos políticos que nos prometem, nunca será.

Incêndios activos Ibéria - 30 dias
Incêndios activos Ibéria – 30 dias

Não é normal termos mais área ardida do que os países do sul da Europa que, como nós, têm floresta e culturas semelhantes. Não é normal suspirar quando chegam os bombeiros espanhóis, que fazem contra-fogo sem olhar à lei portuguesa. E ainda bem.

A lei, de 2009, é tão estúpida, hierárquica e burocrática que é preciso um papel e carimbo de uma repartição e duas autoridades para se poder fazer algo que salva vidas, floresta e casas.

Não acredita? Excerto do Diário de Notícias: “O documento define que a utilização do fogo em acções de combate tem de ser autorizada pela estrutura de comando da ANPC. E que tem de ser feita sob orientação e responsabilidade de um técnico credenciado pela AFN.” (clique no texto para ver original)

O ordenamento do território é uma falácia, uma palhaça, uma piadola. As leis e portarias e demandas legais, mais nacionais ou menos municipais, são pintadas da cor do vento. Ora subsídio para avestruzes na Serra da Estrela (procurem, é verdade) ou um Alqueva que é para o windsurf e casas de turismo rural. Regadio, viste-o.

Um território com uma faixa atlântica carregada de gente e um interior sem uma auto-estrada da raia ou linhas de comboio que funcionem. A Europa avançava na mobilidade ferroviária clássica, a gente sonhava com TGVs entre a OTA e a base lunar.

Área ardida e severidade do Fogo
Área ardida e severidade do Fogo – COPERNICUS
Emergency Management Service

Um território onde em ano de autárquicas nenhum presidente de Câmara vai multar um voto (i.E., uma pessoa) se não limpar a mata, o terreno, o pasto. Deus dá a manta conforme o frio e o fogo não há-de chegar. E quando chegar, dirá o cacique mal formado, deus queira que a TV cá venha, que lhes faço já o ponto de situação e ganho aqui tempo de antena que nunca mais se acaba.

Claro, nem todos os autarcas são assim. Não será a maioria, sequer.

Mas um território desordenado é o que deixa e se deixa arder. Os bombeiros do Cacém sabem lá por onde começar o combate quando estão nas Fontes e olham para o mato cerrado e nem uma estrada de acesso àquela salada russa de pinheiros, carvalhos, mimosas, eucaliptos, aloendros e duas casas de pedra com colmo e barro em cima. Coitados dos bombeiros do Cacém e de Matosinhos, do Beato e de Cedofeita. Uns heróis, é o que são, sapadores e, acima de tudo, voluntários, que nas televisões atiram água para cima das chamas em vez de atacar as bases porque os fundos para a formação sabe nosso senhor onde andarão…

Território em risco de Incêndio 15/Ago
Território em risco de Incêndio 15/Ago

Não, não é normal esta quantidade de pirómanos, num país que gosta de peixe e adora praia. Não, não é normal o risco de incêndio em Castela, Leão, Extremadura, na Mancha ser maior do que nas Beiras e arderem as nossas como se fossem um parque de diversões dos meliantes.

Não, não é normal ainda andarmos a falar de um sistema de comunicações que se chama RAISPARTA e que o homem que o encomendou agora diga que usa Vodafone ou Nos  e, em vez de resolver o problema porque os incêndios são hoje, adie para as calendas parlamentares a solução que pode salvar vidas.

Não, não é normal que não se corte imediatamente a entrada aos madeireiros aos terrenos ardidos e que não se trave o comércio do aglomerado e da usura, quando os homens de gravata ou camisa aberta – já os vi, uma vez negociei com eles e subia-me à boca o azedume do mau azeite -, esses “amigos” da hora certa a dar dez tostões por mel coado.

Não, não é normal que se contabilizem as vítimas mortais apenas naquelas que perderam a vida, porque os campos alimentam as pessoas e o dinheiro não chega. Os campos têm alhos e batatas, cebolas e gado, pasto para este e é a carteira viva, a pensão complementar para quem, já avós, ajudam filhos a criar netos – apesar do milagre do emprego que apareceu na azinheira do INE. É a velha expressão de que alguns acabaram “ainda mais deitados / o coveiro que o diga”.

Tal como não é normal que se atirem pedras aos jornalistas que mostram o que está a acontecer, a aflição real dos seus concidadãos, a destruição verdadeira. Se os moradores das avenidas das cidades se incomodam são eles, também, a mecha que faz deste tempo um triste tempo.

E não, não é normal que não haja um ponto final nesta desgraça, como não haverá nas cheias das águas invernais, na erosão da costa e das arribas que matam, no crescimento pomposo e confuso das cidades.

Um dia, talvez um dia, os romanos queiram voltar. Temo que apenas confirmem o que uma vez disseram.

 

O tonto ódio ao Turista

O tonto ódio ao Turista

Já cá faltava o “orgulhosamente nós”. As cidades que nunca se habituaram ao novo têm população que agora quer descartar um produto de exportação que lhes dá emprego e vida. Mas mesmo assim, culpamos os outros, os turistas, como se fôssemos santos.

Anda aí uma onda de ódio ao turista. Ele é porque a Baixa não é a mesma. Porque andam a deitar idosos fora em prédios antigos para fazer pensões modernas. Porque empatam as cidades naquelas motoretas horrorosas a que chamaram tuque-tuque.

O turismo não faz mal a ninguém. No nosso caso, a mentalidade bacoca e a ganância é que fazem mal ao turismo. Vamos por partes.

Primeiro, não há nem houve planeamento algum para que as cidades suportassem o turismo. Apesar da previsível opção por países mais calmos, depois dos atentados a eito, Portugal não se preparou devidamente para receber quem lhe compra o grande produto de exportação. Os assuntos são discutidos em cima do joelho quando os problemas estão a acontecer.

Ninguém ordenou a mobilidade dos turistas, essencial, e vai daí toca a apitar contra o tuque-tuque. As autarquias e os Governos deviam ter pensado, há anos, quando a primeira motoreta chegou importada das Índias, que devia haver espaço para todos. Em vez das ciclovias, das faixas Bus e Turísticas, da regulação do trânsito dentro das cidades e do estrangulamento legal da circulação automóvel selvagem,  que era prioridade para habitantes e visitantes,  nada feito. Nada pensado, tudo atabalhoado e mal resolvido, em cima do joelho, com cada cidade a ditar sua sentença. Culpa do turista? Que mal fez o Sr. Sommer no planeamento da mobilidade? Que culpa tem a senhora Dawkins? Ou a menina Kim?

O domínio do espaço hoteleiro era dividido entre uma mão cheia de grandes grupos e umas senhoras, todas do pregão “chambre, zimmer”, ensinado na Escola Profissional do Engate da Nazaré. Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro não se prepararam para a chegada mais do que previsível dos Bed&Breakfast, as pensões modernas e armadas ao pingarelho. Anda agora o Parlamento a tentar legislar uma coisa chamada “Alojamento Local” (AL), como se houvesse Alojamento Exterior ou Alojamento de Algures. A ganância dos proprietários Patos Bravos tem demonstrado a sua ferocidade quando até pedem a donos dos prédios vizinhos que “fiquem com os velhos” já que não querem transformar os seus prédio da Baixa em AL. Despejam pessoas à cata de coreanos e japoneses, alemães e suecos, o dólar o dólar. Os que querem fazer bem, lixam-se, sem capital para tanto imposto e falta de advogado e cunha. Culpa do turista, esta voragem?

Ai, a Tradição

Outra queixa é a grande “descaracterização” dos centros da cidade e das zonas históricas. Aqui, só nos podemos rir. “A Baixa está impossível”. Por quê?, pergunta o incauto? Está abandonada e com prédios a cair? As lojas estão todas a fechar? Às oito da noite aquilo é um antro de vendedores de louro e noz de cola? Os transportes públicos cheiram a urina e acabam às dez?

Ou, por causa do turismo, as Baixas deste país retomaram vida, abriram novas lojas, estão pujantes?

Há, claro, um problema, mas não é do turista. É da ganância. As novas vidas das Baixas fazem-se com preços elevadíssimos e com a usura habitual dos locais, que qual Zézé Camarinha da restauração e do recuerdo, tentam sacar 40 euros por uma posta de bacalhau mal cozido e um azeite tão misturado com óleo que dava para 100 quilómetros num Renault 5.

Dizem: “A grande vantagem do turismo em Portugal são as pessoas, o seu povo afável e acolhedor”. Até pode ser. Mas também somos um povo subserviente e que, à primeira dificuldade na nossa augusta e escondida manha de enganar o estranja, querê-lo-emos de cá para fora.

A culpa não é do turista. É da nossa falta de visão e do nosso entranhado orgulhosamente sós, gananciosamente nós.

 

 

 

 

De um amor que passámos

De um amor que passámos

Nunca to disse porque pensei que me dirias qualquer coisa de final. Um aspecto estranho e ficaria cheio de acabrunhados medos e sensibilidades. Pensei até no meio da frase em que ia acabar. Podia ser “e se não quiseres, não faz mal”.

Ontem, era quinta-feira.

Pouco importa, agora que te meteste no Mini, dos novos, todo fandango e senhorio, eu a pé ou de metro ou, pior, vê, à boleia, uns adultos aqui metidos que ainda nos fazem órbitas e eu a pensar que a meio da frase ganhava coragem e dizia mais qualquer coisa, mas tu estavas longe e eu fiquei.

Ontem, quinta-feira, mandei uma mensagem e tu respondeste, e eu disse logo que ia ter contigo apesar das centenas de quilómetros (não faço ideia do que sejam centenas, nem quilómetros, mas disseste que sim) e logo fiz a máquina andar para poder estar aí.

Hoje é sexta.

Estivemos duas horas a ver se os anos que nos separaram tinham deixado dano. Primeiro, fizeste aquele ar de sempre, o que me deixou mais inquieto, mas depois eras mesmo tu. Eu desenformado, com cada músculo a contrariar o cérebro, tu a fazer de conta que foi ontem, eu a ver-te ainda loirinha com a maquineta dos diabetes e a correr para ti, “estás bem?”,tu nada a não ser com os olhos, eu à espera que não subisse dos 200 e tu a passar a mão pelo meu braço.

Tínhamos oito, somados 16, mas nem agora temos 16 sozinhos.

Quando te vi, nem nunca te direi isto a não ser que cases comigo e eu contigo, quando te vi não mudaste e eu não mudei, era a mesma coisa, O teu casaco cor-de-rosa, apesar de estares com manga-curta. A tua mochila pesada, apesar de teres apenas uma bola de futebol e um sorriso de quem deseja.

Sabes, por estes dias percebi que afinal eras aquilo que nunca percebi.

E hoje, por ser sexta-feira, dia em que nos despedíamos para o fim-de-semana e que hoje, sexta-feira, lá te disse adeus para sempre porque vais para longe, hoje dormirei a pensar no que fosse, ou fora, ou mesmo no que será. Dou-te um beijo, demoro-me a deixar-te com a tua mãe e os teus avós.

Amanhã é domingo, vê tu.

Líderes de balneário dominam planeta

Líderes de balneário dominam planeta

Faltava-nos viver este período em que os presidentes dos países mais poderosos estão no balneário a tirar a toalha e a comparar os tamanhos. Chegou-nos a uberdade da juventude palerma dos homens adultos armados em adolescentes, conforme a origem, para nos deixar inquietos. Dantes, compravam carros de elevada potência. Ou montavam cavalos. Ou dedicavam-se a torneios militares. Hoje, brincam ás imagens de poder.

Maduro decidiu mentir, tal como o ocidente decidiu mentir sobre Maduro. Inventou uma eleição fantasma para mudar a Constituição que lhe dará como destino a inglória passagem medíocre para a História. Morta a democracia uma centena de venezuelanos, o homem que ouviu Chávez num “pajarito” não tem a noção de que são os militares a dominá-lo, não Bolivar ou a Esquerda. Aliás, a Esquerda nada tem com Maduro nem com os seus opositores. A Goldman Sachs tanto gosta de uns como de outros, desde que deite mão ao petróleo.

Mais acima o Trump prossegue, mostrando-se rapaz dos seus 12 anos, mal educado e mimado, contra um sistema que ainda vai travando a sua lei mas não o seu desconchavo. Irritado por ter mãos pequenas, decidiu irritar os moderados da sua equipa e tirar a toalha da cintura para mostrar as armas aos russos, chineses e, enfim, à mascote da equipa adversária, a Coreia do Norte.

Putin, o capitão russo, não tira a toalha, monta búfalo dentro do ginásio e promete arrasar o terreno de jogo quando lhe apetecer, só porque sim. Uma amiga alemã tem deitado água nesta fervura, com medo de perder a banquinha onde vende automóveis e baterias, ferros e medicamentos, sangue humano e computadores.

Os chineses, liderados pelo urso Pooh, já censurado, fazem demonstrações militares e um aviãozinho deita uma bomba ao ar, sem terra onde ir parar, ao lado dos amigos Russos. Uma manobra de balneário durante o duche que decidem tomar a dois, para que o resto dos rapazes vejam bem quão fortes são.

Nas Filipinas o violador-mor desculpa a morte dos seus cidadãos, até aos eleitos, uma vez que o seu combate moral, contra as drogas, tudo justifica.

Em Espanha o presidente do governo e o melhor marcador vão a tribunal; em França a Juventude Gaulesa quer ficar de bem com todos; na velha Albion ninguém sabe se sai ou fica; no Brasil joga-se às escondidas com Moro e outros justiceiros; no Paquistão muda-se de líder e no Afeganistão dá-se cada vez mais liberdade aos que querem matá-la. Em Angola ninguém sabe onde pára o poder nem o que vai acontecer dentro de meses. Em Cuba espera-se que o americano não prevarique.

Tudo isto se resolve com a saída destes rapazes do balneário. Há que telefonar aos pais para os virem buscar, que o planeta precisa de ir trabalhar.

Abril, sempre!

Abril, sempre!

A minha geração inteira só via a primeira mulher nua na enciclopédia Verbo de saúde, era desenhada e tinha ao lado um homem nu. Convenientemente, era tudo a duas ou três cores, pálidas, sem sombra de pecado.

A segunda mulher nua pode ter sido cousa incauta, mas a verdadeira, aos que se davam ao luxo de ver cinema e reparar em pormenores, foi Abril, Victoria Abril. Era quase no fim, quando o Mário “Henrique” Viegas se dispunha a enfrentar o velório e a entregar-se.

Devíamos ter todos escrito uma carta a Victoria Abril, ao som de Gulty, a dizer-lhe que mais do que o peito, era o vestido e o salto alto da Anahory e da Julieta Santos que nos deixava num estado catatónico, à beira do salto no Guincho.

Houve muitas Amelie, o Fonseca e Costa até nos tentou dar uma serena, mas a excitação moraria sempre em Abril, sabe-se lá porquê, pequeno-burgueses mal habituados, alentados a palpitações do Largo da Graça – um dia hei-de conseguir num velório, como o David escreveu.

Não era só o peito, nem o olhar, nem sequer o menear das ancas, éramos nós que estávamos à mercê do telefonema enganado, da limitação absoluta da nossa falta de confiança para qualquer enamoramento. Andávamos com o Alberoni e pouco mais. Só depois do pulo apareceu o Machado Vaz a dizer que aquilo era normal, mas era tudo menos normal estarmos excitados, assim mesmo, excitados por Abril com nome e voz de Maria.

Estes dias, o segundo canal passa de enfiada a obra do mestre e ontem, ainda ontem, era 1984 e Portugal não tinha perdido com a França, a Gina custava 80$00 às escondidas na velha do quiosque, em segunda mão –  e ouvia-se gritar nas ruas e paredes que não se tinha “cumprido Abril”.

Secretamente, sem saber do que falavam, concordámos. E esperámos salientes mas mofados até ver as portas que Abril abriu.

Até que foi um poema e filme e dança e, em tanto caso, velório. Mas Abril. Abril, sempre!

Já não se pode com tanta virgem, cigana, ano(r)mal

Já não se pode com tanta virgem, cigana, ano(r)mal

Um gajo é um gajo, uma gaja é uma gaja, uma mata suja tem palha, um cigano é um cigano, um porco com um buraquinho em cima é um mealheiro.

Um alentejano é um alentejano, um candidato do PSD a Loures é uma besta mas um cigano é um cigano e não há cigano que não tenha orgulho em sê-lo. O Gentil Martins é um médico e não é por isso que não pode ser uma besta, ninguém lhe pediu comentários sobre os costumes ou que legislasse sobre os valores. Separava pessoas que não queriam estar juntas e mudava peças de forma brilhante.

O Ronaldo é uma estrela e o que as estrelas fazem serve de modelo a muita gente que não pensa pela própria cabeça. A Georgina está grávida e isso é bom para ela. As marchas de orgulho gay são tão estúpidas como as marchas de Lisboa, mas nem os gays nem os lisboetas são obrigados, por lei, a gostar de ambas e a identificarem-se com tal.

Um gajo pode querer ser gaja e uma gaja pode querer ser gajo. Eu defendo há muito que o casamento não devia ser regulado pelo Estado, que nada tem com os sentimentos das pessoas. O Estado também não deve ignorar a base biológica dos cromossomas embutidos. Homem que é homem tem o Y e contra isso, batatas, talvez um dia possa mudar a estrutura toda, deixe a genética.

O preconceito e as visões de costume serôdias precisam sempre de combates desequilibrados. Os movimentos sindicais e sufragistas, os republicanos e os anti-esclavagistas tiveram de, por décadas, gritar mais alto do que era preciso, para que vencessem os seus bons valores. Recorrer à bomba e ao tiro foi preciso. A sociedade move-se, assim mesmo, por causa dos botas de elástico. É a consequência de quem tem medo que as coisas mudem.

O candidato Ventura é um populista demagogo, à caça do voto fácil, que diz coisas aparentemente populares. O médico Martins não gosta de pessoas do mesmo sexo que gostam umas das outras. Estão no seu direito e podem dizer o que querem. O problema é haver ainda tanto tonto a dar-lhes de comer.

Repito: um gajo é um gajo, um cigano é um cigano, um cachimbo porém nem sempre é um cachimbo, e é a arte de não se ser cachimbo sendo-se cachimbo que nos transporta ao polegar oponível e à pequena glória que fez o cérebro sapien sapiens.

Eu quero que o politicamente correcto morra, que me maça depois ouvir o outro lado dizer que Ricardo Quaresma é um exemplo de um cigano de sucesso. Ou que os gays “também amam”. Arre gaita para a sociedade que ainda tem de dizer o óbvio.

Um mês depois de arder Pedrógão as matas continuam cheia de palha e pasto seco e a arder com alegria. Uma incúria é uma incúria. Cinco militares demitidos regressam do degredo. Uma palermice é uma palermice. A Vodafone e a Nos já usam a frase de Costa no telemarketing.

Está calor.

Tancos: ninguém se salva

Tancos: ninguém se salva

Os militares portugueses que o são devem andar cheios de vergonha dos outros que tal se dizem e só rebaixam a classe. Marcelo devia ter deixado acontecer a manif das espadas, recolhê-las e mandar exonerar todos os que ali aparecessem. Os militares indignados com o poder político deviam vir mostrar todos, mas todos, os relatórios onde escreveram que havia um buraco na rede e que a video vigilância estava avariada.

Contas por alto, se algum sargento cumpriu a sua função, haverá pelo menos 1400 relatórios onde está isto escrito: dois por dia, assinados por militares responsáveis, que não se compadecem com a falta de meios e a forma como as Forças Armadas são tratadas.

Mas, ao que parece, parte dos nossos militares são, afinal, e passe o estereótipo que aqui vai só para moer, da Companhia de Bailado das Guerras. Sentem-se “ofendidos” quando alguém lhes diz que a responsabilidade de guardar o que é deles, é deles.

Cabe na cabeça de alguém que o ministro da Saúde tenha de saber se há gaze no Hospital de Portalegre? Ou que o ministro da Cultura saiba que há erros de português no programa do S. Carlos? Só sabem se alguém lhes disser. São ministros, não são inspectores gerais. Cabe-lhes a política, não o economato nem a logística.

Ao que querem fazer crer gamaram armas de um paiol que só com camião se transportavam. A Procuradoria, alarmista e tablóide, aponta pistas para todos os gostos: tráfico, terrorismo, tensões territoriais, tudo o que comece por Tê. Acusa-se em público os tipos de Engenharia que têm a caserna em frente ao paiol, porque foram para a Líbia umas vezes e podem lá ter feito “contactos”. Então a dignidade dos nossos militares é assim tão baixa que, mal põem os pés no estrangeiro, desatam a vender gás pimenta e pistolins?

De cabeça perdida, o Presidente da República foi a Tancos mandar calar toda a gente, mas tenho que soube de coisas que preferia não saber. Especulo, sem prova, que não houve gamanço nenhum com camiões e homens a caminhar quilómetros, 500 metros de cada vez, com C4 nos braços. Se fossem ladrões, não eram loucos. Se fossem loucos, não tinham gamado nada, porque é tudo mais barato no Quirguistão ou no sul dessas Líbias perdidas.

Sorumbático, lá penso que nunca houve roubo. Ou foi havendo, durante meses, ou aquilo eram armas no papel que ajudaram a sobre-dimensionar um orçamento qualquer.

A tristeza enorme ao ver alguns dos nossos militares e alguns dos nossos políticos a fazer disto uma patranha securitária até dá arrepios. Ao menos, sabemos que podemos confiar no jornal online do Pedro Jota para nos contar tudo o que a PGR e a PJ militar portuguesa quer. Não podem ser sempre os mesmos a dar notícias.

Agora, ide para dentro e contai a verdade.