Interrogatório a José S. (deceased)

Interrogatório a José S. (deceased)

O senhor Procurador tem a palavra:

– O senhor engenheiro…

– Não. Desculpe que lhe diga, mas está enganado.

–  O senhor…

– Desculpe, mas permita-me que o corrija.

– Que foi agora?

– Ó Rosário (interrompe o Juiz), ande lá com isso.

– Mas eu só disse ‘o senhor’, meritíssimo

– Vá.

– Vou recomeçar, então. O senhor José

(João A. interrompe):

– Assim é impossível, V. Ex.a, o procurador Rosário insiste em acusar o meu cliente logo no início deste esclarecimento.

(Rosário está baralhado, olha para Carlos que está a ver se a transferência dos dez mil já foi devolvida no homebanking da Caixa e não liga nenhuma. José S. aproveita)

– Como é claro pelo que disse, o Senhor Procurador não tem provas materiais do que diz.

– Eu nem sequer fiz pergunta nenhuma – desculpa-se Rosário. Responde João A:

– Como é seu hábito, já sabemos. Estes esclarecimentos anunciados no vosso jornal são para gáudio da populaça e não servem  a justiça. O que o senhor vem aqui fazer é uma manobra dilatória a ver se consegue mais um mês para inventar acusações que nem os pastorinhos de fátima acreditam.

(O Juiz confirma que já devolveu o dinheiro ao amigo e sente-se com uma ética impoluta, por isso dispara:)

– Diga lá, Rosário, que o homenzinho está aí há meia hora e você ainda não disse nada.

– Peço desculpa, meritíssimo, mas não consigo sequer fazer uma pergunta.

– O que é normal, homem, estamos nisto há anos e não sabemos sequer o que fez o arguido. Por falar nisso, que dia é hoje?

José S. aproveita:

– Segunda-feira, Meritíssimo.

– Não, homem, do mês?

– Isso é coacção. O senhor dr. Juiz não especificou, não aclarou a pergunta e é com estes expedientes que levaram o meu cliente à cadeia – riposta, interrompendo, João A.

–  Dia 13, meritíssimo – aproveita Rosário, para ser simpático.

– Mas alguém lhe perguntou alguma coisa?! – diz, irritado, o já transaccionado Juiz.

Selfisti anonimi, pelos dois

Selfisti anonimi, pelos dois

Só os convertidos ao dogmas anti-pós-Millennium se incomodam com a belíssima “Amar pelo dois” de Luísa e Salvador Sobral – ou pior, desdenham o concurso da canção nacional. A atitude opositora é típica dos pimbas e dos laboriosos que fazem luto pelo povo e se julgam intelectuais.

Não fosse o Artur Silva e a RTP a querer dar ao Festival dignidade, lá teríamos a grande algazarra dos lá lá land, que se espraiam nos comentários internetológicos do DN e d’outros jornais, a dizer que mandamos um andrajoso para perder.

É difícil que o Salvador se safe da crítica de que é genuíno, como é quase impossível aceitar que a geração que vai do Vasco Pulido Valente ao C4 Pedro aceite não ser apenas uma tulha de azedo preconceito. Para esses, o Festival, o italiano, tem lá um Salvador deles que embaraça o nosso na concorrência mas explica a marosca intelectual:

Essere o dover essere
Il dubbio amletico
Contemporaneo come l’uomo del neolitico
Nella tua gabbia 2×3 mettiti comodo
Intellettuali nei caffè
Internettologi
Soci onorari al gruppo dei selfisti anonimi
L’intelligenza è démodé
Risposte facili
Dilemmi inutili.

Soberano, o gosto impõe-se conforme a vida e o gira discos e o mp3 disponível. A negação do macaco nu faz-se alegrando o cais dos comboios, do metro, das paragens com as tipologias simples de imitantes de estrelas de novela e gravatas cheias do ópio dos pobres.

A estética já conta batatas e a curiosidade, fúnebre memória do tempo em que se inquietava o Variações ou o Caetano, soçobra ao buliçoso não levantes ondas se não sabes onde.

Os tampões nos olhos são auto-infligidos e o cansaço um convencimento que nos deram à nascença, para que não haja prece ouvida. Gostava de conhecer Nova Iorque, mas fui ao Colombo gastar numa televisão que custa a volta ao mundo.

Luísa explica:

Eu sei, que não se ama sozinho
Talvez devagarinho, possas voltar a aprender

Mas a companha tem sido a da desilusão à lá Syriza e não há pão para a fome que não se sente. Resta-nos o Álvaro:

“Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes”

50 Sombras de D. Adelina (proposta)

50 Sombras de D. Adelina (proposta)

Exterior – Dia – Entrada da Igreja dos Mártires

D. Adelina soluça com saudades de África e das plantações que o papá perdeu no 25 do A. Um ambliope que ali passa, com phones nos ouvidos e a cana a farejar o caminho, dá-lhe um encontrão valente. D. Adelina, lenço com o anagrama do papá, insulta-o, enquanto se desequilibra em movimento lento. Toni, o sacristão e cantor do Inda’há Noite, que tinha estado a mudar as lâmpadas que fazem de velas nas caixas das alminhas, acorre à queda. Apanha D. Adelina antes que chegue ao chão. Mas, sem querer, tropeça no próprio paramento, dá pirueta e cai em decúbito dorsal, com D. Adelina a encaixar-se-lhe no corpo, como se fosse corpo cansado em colchão de penas.

Interior – Dia – Junto ao altar do Senhor dos Passos

D. Adelina, preocupada, limpa com o lenço a escoriação de Toni, ali mesmo na mão esquerda. Toni pensa na falta que a articulação fará ao Dó. Ela faz-lhe festinha – aliás, o devoto podia ser seu filho. Toni estremece, o Senhor dos Passos olha desconfiado. Adelina ganha força e sopra-lhe: “Deixe lá, são todos iguais esses criados”, ao que Toni responde “deus todos ama”. Ouvindo, D. Adelina retorque. “E o Toni, também?”, desenrolando a echarpe, mostrando um pescoço limpo a vapor e adivinhando o decote da blusa comprada na Paris em Lisboa. Toni atrapalhado, que apenas ajudara o pároco com os putos, não sabe tratar de mais velhos. O Senhor dos Passos pousa a cruz, solta um “arre, as costas”, chama o Toni e diz-lhe: “Segura aqui nisto”. Desce do altar e, mão na mão com D. Adelina, segue para a sacristia.

Interior – Noite Americana – Sacristia da Igreja dos Mártires

O Senhor veste-se, D. Adelina ainda está atrasada nisso – as coullote postas a meia perna mas a cinta desarrumada em cima do relicário para restauro. “Porque não travou a descolonização, Senhor?”, atira. Mas já lá vai o homem de veste roxa, que apenas lhe diz “Depois na confissão, tenha tento”. D. Adelina, em desamor, volta a pegar no lenço com o anagrama “F.D.S.”, seu pai Fernnando Dutterte Salles, e vê as sombras do soluçar na parede leste da pequena salinha de Toni.

Exterior – Calçada – Noite

Toni vai para casa mas leva a cruz, não a vá pedir o Cónego Gouveia amanhã, mas às onze da noite canta Zeca Afonso e ainda tem de passar por casa para comer uma bucha. Ouve as portadas da casa do Senhor bater e um grito que apenas berra: “Estúpido!”.

Cai o pano, na melhor nódoa.

 

Isto não anda bem

Isto não anda bem

Enquanto Marcelo fizer patinagem artística e o PSD não tiver líder, parece que estamos porreiros. Mas a coisa não anda bem.

A ministra da Presidência, em entrevista este sábado, sulfurava: “O que é um precário? O que é?”, depois de afiançar que um estagiário não o era, que uma pessoa “a prazo” não o era. Maria Leitão Marques estava surpreendida que achassem um estágio uma precaridade. “Está a estagiar, está a aprender”, soltou com o ar das tias idosas que desculpam o menino de ter levado a criada para o quarto.

Em Lisboa, alarma-se, os transportes públicos fenecem. O PCP faz alarde com a passagem da Carris para o domínio de Medina e quer coordenar todos os transportes a partir da Metrópole associativa. Se as empresas que restam fossem públicas, teria jeito. Mas são privadas e querem lá saber da espera e do custo. Ao metro, chamam-lhe pouco, por ter três buracos: o financeiro, o vazio das carruagens que faltam e o da frequência dos horários. Não tivessem tomado por anos o túnel como escoador de dinheiro nosso, já a linha rosa ia em Santarém.

A Eutanásia não-sei-quê e a única opinião séria na discussão é da voz de Paul McCartney: live and let die. A filosofia de Bond serve – ‘mudemos de assunto, sim?’.

Perante isto, há um deserto de futuro. José Zola Sócrates disse “J’accuse”, a gente percebeu a piada – e prontos. De resto, futebol, homicídio e muito Trump a acompanhar, bordado de LePen, manifs na Roménia e umas fotos de guerra, para desenjoar.

Portugal está a precisar de qualquer coisa boa e nova, que não sejam apenas start-ups e bicicletas. A regionalização de Costa, que ao contrário da de Guterres não cria nada a não ser passagem de poder e dinheiro para as autarquias, pensa que todas as câmaras são a de Lisboa. Não são. Cuidado.

Por fim, a única notícia que ainda nos anima é a Lena d’Água voltar ao festival com uma música de Pedro Silva Martins (Deolinda). Mesmo que não ganhemos o concurso vamos ganhar uma música, decerto.

E precisamos de umas vitórias culturais na via do meio, que isto anda dominado pelos populistas e pelos intelectuais, que são dois extremos que se admiram mutuamente mas de pouco valem. Estamos em La La Land e o fim, enfim…

Trump

Trump

“Vocês têm um bando de bad hombres aí”, disse Trump ao presidente mexicano Pena Nieto, e ameaçou: “Penso que os vossos militares estão assustados, os nossos militares não. Posso enviar os nossos para tratar do assunto”.A Associated Press relata que assim acabou o telefonema entre os líderes dos dois países.

No mesmo dia, Trump desligou o telefone ao primeiro-ministro da Austrália, segundo o Washington Post. Meia hora adentro da conversa, Trump passou-se e disse que não ia receber refugiados que Obama aceitara acolher porque “seria um suicídio político”. E desligou.

O mundo não está a lidar com Trump, está a namorar com ele. É um gajo ressabiado e mimado que, por estarmos bêbados (já lá vamos), acabámos por beijar num baile rasca e, agora, não nos larga.

Trump acaba por ter razão com a Austrália e, até, com o México. E isto é surpreendente, levando em conta a sua imbecilidade e o seu narcisismo. Não há razão para Canberra enfiar num barco 1250 pessoas e descartá-las em Plymouth Rock. É tão mau como o acordo canalha que nós, Europinha, temos com a Turquia. Afastamos as nossas responsabilidades e pagamos por isso aos que, sabemos bem, tratam abaixo de cão os desfavorecidos. Mas tal como a Susaninha de Quino, o melhor é escondê-los.

O México é, agora menos mas ainda, um narco-país. O norte, principalmente, mantém uma plataforma de tráfico e exploração, quase escravagista. As autoridades nacionais não entram em determinados territórios e parte da sua economia paralela, que dá de comer a pessoas sem qualquer ligação ao negócio da droga, vem destes expedientes criminosos. Numa análise pura, sem paixão, Trump tem razão: se o nosso vizinho dos dá cabo da casa porque os filhos estão a bater com um martelo na nossa parede e a fazem cair aos pedaços, podemos perfeitamente falar-lhe e ameaçar: “Se o senhor não trata deles, trato eu”.

Ora, o problema é que Trump não tem razão no modo, na forma, no comportamento e na indisciplina do cérebro que ainda possui. Os problemas não se resolvem no Estado como ele está habituado a resolver na sua falida e endividada empresa. Há uma diferença entre o comportamento ditatorial de um patrão e do feitor democrático, eleito, subjugado às leis e aos princípios éticos do Estado.

Trump, como grande parte dos populistas à direita e à esquerda, nunca se deram bem com a incapacidade de não poder mandar como lhes apetece. O que Trump fará na Casa Branca será sempre do ponto de vista do patrão, nunca do estadista que se reclama de um líder nacional. Porque Trump não sabe liderar sem ter poder efectivo – dinheiro, armas, lambe-botas e idiotas, todos no bolso.

Trump nunca seria um líder comunitário ou associativo. Para isso há que gerir boas vontades e bom senso, entusiasmos e desilusões.

Trump, de cinco anos mal educados, é um perigo, porque não sabe.