Ás vezes era melhor ser rápido

Ás vezes era melhor ser rápido

O momento em que se arranca um penso rápido da pele tem aquele momento dúbio: na guita ou devagarinho? Depressa, só dói uma vez. Devagar demora horas, mas a gente pensa que se prepara, até que o maldito canto está mais colado do que um cientista ao tecto.

Entre o mistério Macron, que toca piano e fala francês, que tem educação jesuíta e diz que não é “nem de esquerda nem de direita” mas que diz que não é “socialista”, entre ele e a LePen, venha um gaulês e escolha.

Num arremedo catastrófico, preferiria que LePen ganhasse já, que fizesse já figura de ursa, qual Trump, e que se acabasse com o populismo definitivamente. Era rápido e, sem apoio na Assembleia Nacional, acabava-se o fantasma dos LePen, como a esperança Trump se esfuma devagar nos EUA.

Macron, uma pálida sombra de Merkel e dos males todos que andam na Europa, liberalizou o mais que pôde, até ser corrido por indecente e má figura de um governo liderado por um centrista.

Hollande, que se fosse a votos tinha menos de seis por cento, pode juntar-se aos PS desta Europa toda: aqueles que desistiram de ser socialistas, porque a palavra até parece um insulto nestes dias.

A Esquerda morre porque não é de Esquerda. Deixou-se seduzir pelo “centro” que é o lugar mais desinteressante que pode haver. Se em Portugal, hoje, já nem se sabe quem é oposição e quem suporta o poder, tal o caos em que se anda e as alianças estranhas que se fazem (vide Rui Moreira), no coração do continente é ainda mais rara a ideia de oposição.

No fundo, a oposição, mesmo oposição, vem do lado populista e demagogo. Esse, começa nos vários “Podemos” e acaba na senhora LePen.

Em suma, o “abre-olhos” só um choque anafilático pode ajudar a reposicionar a sociedade e os seus cidadãos. Aconteceu milhares de vezes na História. Estamos a abrandar a catástrofe e acabamos sempre a tirar o penso devagar. Era melhor tirá-lo à bruta, antes que estes carneiros e coelhos, com lobos debaixo, tomem poder quando tenham mesmo poder e a sociedade democrática tenha desaparecido.

 

 

Balzaquianas de Torremolinos, uni-vos!

Balzaquianas de Torremolinos, uni-vos!

Algo de errado se passa na viagem de finalistas em que são TVs a acabar nas banheiras. A falta de sexo desta gente, de genitália, é assustadora.

No tempo em que me convidavam para viagens de finalistas, a que nunca fui porque detesto rebanhos e até costumava soltar ovelhas ao meu avô, como me pai soltou prisioneiros, nesse tempo nunca me apeteceu engrossar o sorriso dos pastores.

Curiosamente não era o álcool que levava a malta a excitar-se. Esse existia na Zarolha, bela tasca de bancos feitos de botijas de gás, a um minuto do portão da escola. O grande enigma a ser descoberto era “como se porá fim a esta virgindade que parece uma epidemia”, para o grosso da coluna.

Os argumentos, no entanto, nunca passaram pelo “anda lá que deitamos uma televisão à banheira, uma cena do carago”. Não. Eram mais “anda, que sacas a Carla e ainda vais para a cama com ela”, o que me parecia medonho. Não pela Carla (ou Sandra, ou Ana Maria, ou Carlos, sabe-se lá, não ma lembro), mas esta ideia de que estaria a praticar acto solicitado pela populaça. E bem publicitado. “O Almeida vai tentar sacar a Teresa ohoooo ohhhhhhh”.

Este domingo uma senhora qualquer da confederação das federações das associações de pais (ufa) veio para a televisão defender que teen will be teen, e que não se pode esperar que os adolescentes e adultos jovens se portem em grupelho da mesma forma que se portam em casa.

Curioso.

Eu esperava que aos 19 as pessoas tivessem uma personalidade e que essa não mudasse muito, já que têm idade para liderar exércitos. Mas, ao que parece, a maioria dos pais aceita que os filhos tenham distorções da persona, adoram vê-los a beber gin espanhol e, acima de tudo, a dar murros na parede em vez de beijos na Carla. E apalpões na Carla. E a Carla a dar-lhes apalpões. Melhor bêbados que pecadores. Melhor assim do que ter de lhes impor uns preservativos e uns gel espermicidas.

Há anos, lembro-me de ter proposto, sem sucesso, que a viagem de finalistas fosse a Berlim Leste – sim, foi assim há tanto tempo. Hoje, já que querem cenas radicais, fossem todos para o deserto. A ver se, sozinhos e com a imaginação que têm, se entretinham.

Haja paciência.

 

Carne Assad

Carne Assad

Do Iraque fez-se Síria, com os maus e os bons a trocar pouco de papéis. Os oleodutos e os gasodutos detestam pessoas e os manga de alpaca adejam para o alto que soprar o guito. A desinformação é absoluta. Putin diz que foi a ISIS a queimar crianças, os americanos dizem que foi Assad, a comunidade internacional nem sabe onde fica a Síria.

A destruição massiva de países, desde o Afeganistão das barragens e das misses americanas a vender armas aos proto-Taliban até ao homem cor-de-laranja a dar com mísseis em prédios, é uma peça de teatro perigosa porque mata.

O planeta não tem culpa de uma espécie tão estúpida a massacrá-lo. É que nada faz sentido, já. Damasco teve umas manifestações da apagada “primavera árabe” que deu no que deu, com o beneplácito das capitais mercantis das energias viscosas do centro da Terra. Arrependidos estão, decerto, os dinossauros e deusnossosenhor, de tanta coisa que deitaram à terra ignara e egoísta.

Se desde mil oitocentos e troca o passo que andamos nisto, malditos netos da Rainha Vitória, pouco se espera que o povo possa, para além das parangonas, compreender. A informação custa muito a encontrar – agora temos de perder dois dias e consultar dez sites, trinta contas de twitter, cem posts de Facebook, mil imagens de Instagram, uma mão cheia de blogues para, pelo menos, recolher tudo o que é dito. A seguir, ainda falta comparar, analisar, ver o que bate certo e errado e, só depois, começar a perceber que há muito por explicar.

Com o jornalismo falecido – que tinha esta função social da triagem-, é fácil dar-se com mísseis no cimento e clamar guerra ao terrorismo. Por muito que seja mentira. Tanto como Assad viver permanentemente em Damasco ou Putin ser a reencarnação de Átila. E vice-versa. Que serve a todos. Até aos nossos exemplares de exportação em altos cargos.

Petrogrado, enquanto nova

Petrogrado, enquanto nova

A poética tendência dos beijos de judas das bombas, de tantas e banalizadas, parecem querer-nos no lugar dos adormecidos à morte alheia. A cidade fundada a 27 de Maio por Pedro, o Grande, viu ontem morrer 11 pessoas à bomba. Cuidadoso, o Czar e os seus bolcheviques não se querem queixar de terrorismo porque, sabem, é perigoso para um todo poderoso abrir essa ferida no urso enorme. Mas nem Misha compreende o que lhe aconteceu e nós, como ele, já desconfiamos quando aparece como suspeito um homem que nos lembra, levemente, o Adriano Correia de Oliveira.

Tudo é medo e tudo é banal. Pumba em Londres, pimba em Petrogrado, arrefinfa-lhe em Tbilisi, catrapum em Mossul. O louco de Washington escreve cartas sem selo ao Ine-y-Yang da Coreia do Norte, prometendo-lhe a ogiva de vitriol e, sem se perceber bem, todos nos acostumámos a desconfiar do ISIS, essa sigla conveniente para todo o terrorismo sem ideia.

Ontem, ao jantar, perguntei à canalha quem, em 1141, era considerado um terrorista em Lisboa. Responderam o lógico: aquele tal de Afonso Henriques, que andava a matar os nossos nas terras nortenhas. Lá viajámos até 2001 com uma breve e mal amanhada História do terrorismo, até que um deles exclamou: “Mas este terrorismo não quer nada…”.

Pois não. Porque não é terrorismo, é brutalidade e crime. A gente e o Misha começa a desconfiar que tudo isto é preparado em gabinetes e não em cavernas, que os autores são pessoas de gravata e especialistas em “ciências” de mediatismos, em vez de homens sem bigode mas com patilhas, a querer fazer califado de Leningrado.

Tudo se torna pouco sério e, à noite, os ecrãs dos canais de documentários insistem que os extraterrestres vêm de fora da Terra. A obviedade grassa tanto que nos custa muito a perda de vidas de uns para ganhos políticos e mediáticos de outros.

Da Sorbonne já pouco resta e o Al Vent é expressão tão desconhecida que nem se trauteia coisa nenhuma em lado algum – finou-se a campanha planetária de que restam os hippies Jorge Mario e António Manuel. Mas a esses já poucos ligam.

Ras-ras-rasputine!

O padre e o maestro

O padre e o maestro

Em Castanheira de Pêra, desde que o maestro não ande aos beijos na rua com o namorado, não há mal, dizem os populares. O padre, irado, fugiu e não dá missa por causa dos sodomitas e a missa passou para Coentrão (deus é grande com o vocabulário) enquanto os homens que comem homens, os da Vidigueira, não desaparecerem do coro.

O maestro, com cabelo à Lurdes e ar de sonso, diz que nada se importará se se tiver de “humilhar” para poder voltar ao coro e ao templo. “Errar todos erramos”, afirma a ovelha, que “se assumiu” como gay, como se fosse um criminoso vulgar e entrasse na GNR potestativo, sem que o mar lhe perguntasse coisa nenhuma.

Diz-se que os crentes vão à missa vestidos de preto e nada dizem quando é anunciada a salvação. Estão em greve de zelo aos améns, que a palavra de deus não será a de “vai-te embora mariconço”, como fez o prelado.

Cheira-me a ciumeira, mas isso sou eu que tenho uma cabeça torta. Mas não consigo deixar de olhar para o pobre maestro a dizer que se humilha com facilidade e que todos cometem erros. Ora, que diabo será humilhar-se quando, e apenas só, o seu erro não é erro e a sua humilhação é a penas formal, nada sentida?

O jovem maestro teme ao padre mais do que teme a deus? E não é claro que até Francis The Pope já estipulou, há tempos, nos céus – ia dentro de um avião -, que isso da homossexualidade é coisa banal e aos homens não cabe julgar o que deus determinou? Seja feita sua vontade.

Castanheira de Pera é igual a Portugal. Melhor que Medina e Meca, pior que o reino unido por pouco, mas uma hipocrisia pegada.

O maestro não tem nada que se humilhar, o padre se não aguenta o “amor entre os homens” que vá para a serra perseguir as ovelhas e aliviar-se e, por fim, cristo que venha cá abaixo ver isto, na versão profética que desejar.

O troglodismo mantém-se e só me lembro dos Diabo na Cruz:

Os trilhos estão cruzados
A fome aí à espera
O tio veio ao casório para insultar o irmão

Os padres comem putos
Os putos comem ratos
Na igreja de São Torpes hoje há bacanal

Os loucos estão certos
É preciso ouvi-los
Foram avisados não nos querem mal

Interrogatório a José S. (deceased)

Interrogatório a José S. (deceased)

O senhor Procurador tem a palavra:

– O senhor engenheiro…

– Não. Desculpe que lhe diga, mas está enganado.

–  O senhor…

– Desculpe, mas permita-me que o corrija.

– Que foi agora?

– Ó Rosário (interrompe o Juiz), ande lá com isso.

– Mas eu só disse ‘o senhor’, meritíssimo

– Vá.

– Vou recomeçar, então. O senhor José

(João A. interrompe):

– Assim é impossível, V. Ex.a, o procurador Rosário insiste em acusar o meu cliente logo no início deste esclarecimento.

(Rosário está baralhado, olha para Carlos que está a ver se a transferência dos dez mil já foi devolvida no homebanking da Caixa e não liga nenhuma. José S. aproveita)

– Como é claro pelo que disse, o Senhor Procurador não tem provas materiais do que diz.

– Eu nem sequer fiz pergunta nenhuma – desculpa-se Rosário. Responde João A:

– Como é seu hábito, já sabemos. Estes esclarecimentos anunciados no vosso jornal são para gáudio da populaça e não servem  a justiça. O que o senhor vem aqui fazer é uma manobra dilatória a ver se consegue mais um mês para inventar acusações que nem os pastorinhos de fátima acreditam.

(O Juiz confirma que já devolveu o dinheiro ao amigo e sente-se com uma ética impoluta, por isso dispara:)

– Diga lá, Rosário, que o homenzinho está aí há meia hora e você ainda não disse nada.

– Peço desculpa, meritíssimo, mas não consigo sequer fazer uma pergunta.

– O que é normal, homem, estamos nisto há anos e não sabemos sequer o que fez o arguido. Por falar nisso, que dia é hoje?

José S. aproveita:

– Segunda-feira, Meritíssimo.

– Não, homem, do mês?

– Isso é coacção. O senhor dr. Juiz não especificou, não aclarou a pergunta e é com estes expedientes que levaram o meu cliente à cadeia – riposta, interrompendo, João A.

–  Dia 13, meritíssimo – aproveita Rosário, para ser simpático.

– Mas alguém lhe perguntou alguma coisa?! – diz, irritado, o já transaccionado Juiz.

Selfisti anonimi, pelos dois

Selfisti anonimi, pelos dois

Só os convertidos ao dogmas anti-pós-Millennium se incomodam com a belíssima “Amar pelo dois” de Luísa e Salvador Sobral – ou pior, desdenham o concurso da canção nacional. A atitude opositora é típica dos pimbas e dos laboriosos que fazem luto pelo povo e se julgam intelectuais.

Não fosse o Artur Silva e a RTP a querer dar ao Festival dignidade, lá teríamos a grande algazarra dos lá lá land, que se espraiam nos comentários internetológicos do DN e d’outros jornais, a dizer que mandamos um andrajoso para perder.

É difícil que o Salvador se safe da crítica de que é genuíno, como é quase impossível aceitar que a geração que vai do Vasco Pulido Valente ao C4 Pedro aceite não ser apenas uma tulha de azedo preconceito. Para esses, o Festival, o italiano, tem lá um Salvador deles que embaraça o nosso na concorrência mas explica a marosca intelectual:

Essere o dover essere
Il dubbio amletico
Contemporaneo come l’uomo del neolitico
Nella tua gabbia 2×3 mettiti comodo
Intellettuali nei caffè
Internettologi
Soci onorari al gruppo dei selfisti anonimi
L’intelligenza è démodé
Risposte facili
Dilemmi inutili.

Soberano, o gosto impõe-se conforme a vida e o gira discos e o mp3 disponível. A negação do macaco nu faz-se alegrando o cais dos comboios, do metro, das paragens com as tipologias simples de imitantes de estrelas de novela e gravatas cheias do ópio dos pobres.

A estética já conta batatas e a curiosidade, fúnebre memória do tempo em que se inquietava o Variações ou o Caetano, soçobra ao buliçoso não levantes ondas se não sabes onde.

Os tampões nos olhos são auto-infligidos e o cansaço um convencimento que nos deram à nascença, para que não haja prece ouvida. Gostava de conhecer Nova Iorque, mas fui ao Colombo gastar numa televisão que custa a volta ao mundo.

Luísa explica:

Eu sei, que não se ama sozinho
Talvez devagarinho, possas voltar a aprender

Mas a companha tem sido a da desilusão à lá Syriza e não há pão para a fome que não se sente. Resta-nos o Álvaro:

“Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes”