O PS precisa de férias

O PS precisa de férias

A ideia peregrina de dar ao Porto um prémio de consolação com o Infarmed é descabida. Nem vale a pena uma pessoa sã alongar-se no assunto. Rui Moreira não é um bom Abraracourcix, mas apenas um líder de claque, manhoso e pequeno. Não merece a aldeia que tem.

A ideia de vir dizer que “A ilusão de que é possível tudo para todos, já – não existe isso” é um apelo ao levantamento popular. A iniquidade anda de mãos dadas com esta frase, que até pontuei com alguma simpatia. Costa torna-se Passos se se mantiver publicamente assim. Esta é uma frase para a CGTP, para o PCP e BE, dentro de portas, com o afável e emigrante Centeno cheio de papéis a demonstrar porque não há guito!

Mas há mais. A seca demonstra que o grande plano é usar autotanques e não prevenir coisa nenhuma. A reforma do Estado de Portas tinha uma dúzia de páginas a corpo 18. A de Costa tem meia página e uma palavra: “Reage”.

Costa é mau? Não. O PS não presta? Não.

O que se passa é mais simples: nunca o PS teve de lidar com oposição externa dentro de casa. Isto é: andar à pancada com camaradas como Alegre, Zenha, Constâncio ou Guterres é o pão-nosso do partido. Mal por mal, acaba-se na FIL a bater palmas, sinceras ou não, mas todos com a mão erguida.

Agora, lidar com o PCP é outra fruta. Os comunistas, bem, abominam as meias-tintas dos socialistas. Detestam a ambiguidade do “sim” dito agora que, daqui a 15 dias, é “nim”. O erro de Costa é dizer “sim” quando devia dizer “não”. O PS tem tiques de estereótipo de gaja de romances de cordel. É o Sir Humphrey Appleby da política, no que toca ao diálogo com o PCP. O que irrita profundamente os comunistas.

E tenhamo-nos aqui, que o BE está morto e sem imaginação e o PSD ainda não nasceu. A D. Assunção só diz banalidades e o resto é paisagem.

Por isso, o PS e Costa precisam rapidamente de férias. De um retiro com livros de História. O maior erro de Costa foi não se ter demitido com Pedrógão: agora tinha maioria. O segundo maior erro de Costa foi chamar os amigos para o Governo, em vez de chamar pessoas inteligentes, sagazes, profissionais, desinteressadas. Não. Foi buscar a guarda pretoriana muito antes de haver punhais das escadarias.

O melhor que lhe pode acontecer – a ele e a nós – é que o PSD acorde, para o PCP compreender que a exigência tem de ter adesão ao real. O Marx explica isso tudo. Mas para que tal aconteça, o PS tem de estar mais sólido. Não está. E isso abre a porta ao primeiro-ministro Santana.

Como, aliás, o mesmo tipo de estratégia deu azo ao Presidente Trump ou ao Presidente Rajoy ou ao Presidente Macron.

É com Costa, agora.

 

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Os Professores, aberratio ictus

Os Professores, aberratio ictus

Salve professores, abastardados mestres do regime, lamentável alma a vossa massacrada ao nível de qualquer funcionário menor, sem dignidade na carreira e no trabalho. Salve, professores, aturantes de más-educações, sem armas para combater a tirania da iniquidade e dos ignaros.

Salve, professores, transeuntes do quotidiano extremo, inculcados nas salas onde reina a mensagem em wahtsapp onde d’antes havia papelinhos visíveis.

Salve, docentes, horas da madrugada a imprimir a custas próprias exercícios e testes, milhares de tempos administrativos, salários cortados e coartados, tempo de vida perdido em tempo de espera.

Salve, professores, que ainda amais alunos e a escola, o meio e a família, a curiosidade e a descoberta, que percebeis de onde vem aluno, alumni, aqueles que de vós recebem a luz.

Abaixo, professores, sem uma manifestação pela qualidade do ensino, das cantinas, das liberdades – mas sempre, sempre, agarrados ao federalismo sindical pelo vil metal e folgas e férias.

Abaixo, professores, que recorreis a vídeos do Youtube para dar aulas e a cópias de testes da net, a que mudais cabeçalho, dizendo que foi trabalho vosso.

Abaixo, professores, que pondes alunos à porta da escola e chamais o 112 para que a escola onde estais não seja alvo de inquérito por causa de auto-mutilação juvenil.

Ide-vos, professores, que vos escondeis na lei e nos directores de turma para não falardes com os pais e encarregados de educação. Abaixo, abaixo e mais abaixo professores, que vos recusais a debater o mundo quando os alunos vos provocam com as notícias do dia, sobre o bairro ou a cidade e respondeis: isso não é da matéria.

Salve, professores, que além de instrução tendes de dar educação a tantos e tantas, deslumbrados com estrelas de tv e de cinema, idiotas kardashianos insuportáveis, ronaldos de pacotilha, insalubre gente.

Abaixo, professores, que escolheis funk de ostentação para as festas e depois vos queixais da violência no namoro.

Pobre professor, magnífico professor.

100 anos de comunismo e não

100 anos de comunismo e não

Um sogro inteligente disse-me: “Se o comunismo fosse mau para os trabalhadores, os patrões eram todos comunistas”. Este sogro, que não é comunista, resumiu numa frase a importância do comunismo, a sua força e a sua ideia.

O planeta tem a mania de confundir o Comunismo com os partidos comunistas. Percebe-se. Mas falha-se. Marx nunca conheceu Lenine, Estaline ou Trotski. Engels nunca andou no Outubro a desfilar.

A diferença entre a ideia e a organização partidária tem muito da diferença entre religião e igreja. Acima de ambas está a crença, ou a ideologia.

É a ideologia, que começa antes de Marx mas que este sabe fixar, nascida na soturna Manchester, que se deve comemorar. A ideia de liberdade e igualdade. A ideia da coisa comum.

Não há regime sem senão. Os que hoje apontam ao comunismo como tendo matado milhões são os mesmos que batem no peito com a desgraça dos “descobrimentos”. Putin, o czar da coisa nova que é a Rússia oligárquica, faz o que Estaline fez: aproveita-se dos mecanismos de controlo que qualquer poder dá e aplica-os de forma desumana.

O catecismo partidário-comunista é igualmente aterrador. Qualquer catecismo o é. Impedir o livre pensamento e a pergunta quando se tenta passar uma ideia que se baseava, ainda, em Hegel, é a mesma coisa que ensinar a desfazer bolos de arroz ou bacalhau à Gomes de Sá: é fazer ao contrário.

O comunismo não é o que dele fizeram os partidos que se disseram comunistas. É uma teoria geral progressista, atenta à exploração do homem pelo homem, a caminho de uma liberdade individual que se exprime, depois, no mérito de cada um perante e entre o colectivo. É uma teoria da esperança para os que pouco ou nada têm. É a resposta capaz no tempo em que se dormia nas fábricas, se faziam filhos nas fábricas e para as fábricas. Onde o “personalismo”, essa coisa mal interpretada, era respeitado na condição comum do que cada um pode e deve ser perante o meio, a sociedade, o outro.

Hoje, 100 anos e um dia depois, não se comemora 1867, data de edição d’”O Capital”. Nem tampouco Sartre, a Simone ou Dawkins, já para esquecer Feuerbach. Mas devia. O pensamento destes e de tantos outros, os romances de Manuel da Fonseca ou de Manuel Tiago [Álvaro Cunhal], o que nos deixou Soeiro, devia ter um lugar central na sociedade que se diz agarrada ao progresso.

As máquinas que substituem as pessoas no trabalho não pagam segurança social.

A segurança social é um peso na cabeça da maioria – mal, mas é.

O povo não é quem mais ordena, é quem mais definha – mas agora, nesta “terra de maravilha e aguarelas”, definha feliz, consumista e deprimido. Parece contraditório, mas não é. É apenas a base da gratificação imediata, a tal que o comunismo sempre execrou, que está em Pavlov e em Maslow.

Sempre me pensei comunista, sempre  me pensei longe dos partidos ditos comunistas. E mais ainda dos que brincam ao comunismo e fazem de Ché e Trotski uns santos de capela. A boina do Ché, então, é uma das mais mercantis manobras atrevidas.

Mas comove-me este Outubro, a esperança nos olhos e nos braços dos russos coevos e dos europeus que olhavam com o coração à espera de uma terra sem amos.

Quando sanarmos a questão da organização, num partido que não precisa de paredes de vidro porque nunca ninguém desconfia de ninguém, quando a civilização lá chegar, ficarei ainda mais feliz.

Dirão: isso é Kropotkin. Se calhar, é.

Viva a liberdade.

Água de Puig

Água de Puig

Os sinais eram clarinhos: “Puig” quer dizer “colina isolada”, proveniente do latino podium [pódio]. Já “demont” é “do monte”. Um gajo isolado, a pensar-se no pódio, ainda por cima “do monte” não ia dar coisa que se visse.

A fuga dos cágados catalães para a Bélgica, onde se foram apoiar nos nacionalistas flamengos locais, deixa claro que a urdidura tinha dois lados. O da fama, protagonizado pela cabra montesa, e o da vontade, com a esquerda republicana a acreditar que, dia algum, os da direita se tivessem como gente de convicção suficiente para não fugir.

Sim, lamento, mas a verdade é que a esquerda, quer a radical, quer a extrema, quer mesmo a estúpida, ficou em Barcelona, à espera do que lhe acontecesse, como as nêsperas.

A cabra montesa, segunda escolha do Mas de má memória, reunia três defeitos: jornalista, boy e político direitista sem convicções. Mais ainda, titubeante e incapaz de um prato de botifarra amb seques numa só garfada, a cabra montesa fez destesar toda a legítima identidade catalã com a fuga e consequente  pieguice.

A questão catalã fica assim arrimada ao olvido. Em Castela batem-se palmas ao gigante Rajoy, que até o Júlio Iglésias do Podemos lhe reconhece mérito e lhe chama “audaz”.

Há um problema escondido, que a cabra montesa soube bem ignorar: a “União” europeia. As nações da velha Europa não são as que estão no mapa. Tirando, provavelmente, Portugal e a velha Albion, todas as outras têm defeitos de fabrico pós-século XIX. As guerras não ajudaram e os povos ainda não estão para as curvas. A Occitânia lá anda, a Córsega lá anda, os flamengos lá andam, os bávaros lá andam. Mas na verdade, muita gente se sente fora de casa.

A “União” europeia, consequência política da NATO, apenas serve para tapar o vapor que sai destas gentes, que não se reconhecem em países e capitais estranhas. São gentes de língua própria, costumes e cultura velhas, legítimos defensores de mátrias e pátrias antigas e tradicionais.

Quando chega a ser a esquerda a defender, com coragem, estes valores, não o faz por nacionalismos bacocos. Oriol Junqueras, que foi vice-presidente do governo da cabra montesa, historiador e professor universitário, lidera a Esquerda Republicana, que desde 1931 se opõe à opressão cultural, defende valores do socialismo democrático e teve papel importante na transição do “franquismo” para a democracia.

Oriol, como tantos outros, pendem para o federalismo espanhol, com Estados dentro do Estado, dando largas à Galiza, à Andaluzia, ao País Basco e à Catalunha, em pé de igualdade com a maculada e inventada (e belíssima, conceda-se) Madrid.

Mas a cabra montesa conseguiu, titubeante, destruir para décadas vindouras, o sonho de uma Catalunha mais livre. Por causa do dinheiro. Soçobrou ao abuso de poder de Rajoy e às leis de canalha que este fez aprovar para a fuga das empresas. Não legislou com manha, para tornar a Catalunha um paraíso fiscal – a única linguagem que o capital entende.

Enfim, o de Puig nem água de colónia leva na fuga. Deixa a esquerda a envergonhar-se e a aprender, mais uma vez, a dura lição de que nunca se pode confiar da direita baixa, em que poluem o ar os jornalistas, boys e políticos de ocasião, com méritos obscuros e o grande capital como medida para tudo.

Mas isso já nós sabíamos. Ficámos à espera que não fosse assim, mas a culpa é de acreditarmos no menino do monte.

 

 

Mulher adúltera a mim não me convém…

Mulher adúltera a mim não me convém…

Homem que é homem não aceita que Marlene ou Soraia, com quem casou depois de namorar dez anos, desde o 9º ano, e a quem tratou como serviço de limpezas, catering e limpa vómito se desdenhe dele e vá à procura de romance. Homem que é homem, para o neto de moura, se dá tabefe, canelada e com uma porra no lombo da Andreia, sua escrava, tem desculpa.

Aquilo era demais para o homem que é homem: que importa se ele não lhe deu um beijo nos últimos seis anos e se conhecia melhor os dramas da musa da casa de strip do que da Floribela com que casou. Mal por mal, ela foi ao altar de grinalda e vestidinho branco, jurar fidelidade para todo o sempre.

Ele, coitadinho, tanto trabalho, ele, suspirava ela às poucas amigas – que homem que é homem anda sempre com radar a ver se há amigos e logo os proíbe – nem um olá, um obrigado Cátia Sofia, nada. Mas a mãe bem lhe disse

os homens são assim, filha.

E os homens como são “assim”, não topam que elas como eles, e vai daí quando lhes entra um Adónis de Cedofeita na vida, a desfolhar-lhe a trigueirinha que se tinha por certa, salta-lhes a tampa. “Mas tua mãe não te disse que os homens são ‘assim’, Sãozinha?”. E vai de desenhar-lhes na cara o arquipélago dos Açores a costas de mão cheia.

Mas a culpa é delas, assegura o neto da moura, que assevera que essa balzaquiana que despreza o senhor padre e nosso senhor é ” falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral. Enfim, carece de probidade moral“.

Não nos incomodemos nem espantemos.

O neto da moura é a voz popular do que somos.

Desconheço se nos passeios pelo largo de S. Paulo alguma vez o magistrado subiu ao segundo andar de um prédio que lá havia e a seguir se confessou, mãozinhas postas e escroto cansado. Provavelmente nunca pensou na net para a masturbação e anda a ajudar o Carlinhos Alexandre à missa.

Ou nada disto.

Mas para citar livros de ficção nas sentenças, que escolhesse o Al Berto ou o Eugénio de Andrade, só para confundir. A ser-se versado em cornadura, valia-lhe mais Bocage ou mesmo o velho e bom cancioneiro.

A sociedade ri-se quando elas lhes batem e demora-se em gravidade quando eles lhes dão. Há um duplo critério, uma discriminação positiva que ainda faz sentido enquanto houver:

  1. netos de moura;
  2. piadolas sobre quando o Benfica perde.

Mas espero que o namorado do neto da andaluz nunca lhe pise o ventre com tacão de flamenco, ou pelo menos que nunca o faça para que ele goste.

Juiz católico a mim não me convém, como não me convém a enorme palhaçada da maioria dos casamentos “pela igreja” em que ambos nubentes nem sabem quem é deusnossenhor. A hipocrisia, que Descartes nunca percebeu estar acima do bom senso no negócio da distribuição e partilha, leva-os de fato e a elas de branco. A hipocrisia está, ainda mais, em existir essa coisa chamada

casamento

que é uma espécie de invasão da privacidade por parte do Estado – que apenas herda, nos netos de moura polvilhados pelo planeta, a estúpida ideia de que a sociedade deve sancionar quem se ama.

Eram coisas que já acabavam: a pancadaria, os netos de moura e o casamento. E, citar a bíblia, devia estar reservado a teólogos e ateus. São dos poucos que a entenderam.

Porque o mourisco descendente podia ter ido mais longe: é que as mulheres que lavavam o cabelo para ficarem mais belas acabavam invariavelmente no inferno, penduradas pelas melenas. Mas como isto está no apocalipse de S. Pedro, livro rejeitado, o neto não conhece.

A morte era melhor que Portugal, dizem 43 almas

A morte era melhor que Portugal, dizem 43 almas

Isto não é num sábado que se muda. E esta falta de crença, fé, esperança e futuro no que é o Estado, no que somos todos nós, é a mais grave, profunda e trágica revelação dos incêndios.

Como morrem 43 pessoas, dispersas no tempo e no espaço, em apenas 12 horas, por causa de incêndios? Se o tema é a vida, que absurdo aconteceu para 43 almas perderem a vida, da Guarda a Vouzela?

Sejamos claros: das 63 vítimas de Pedrogão, 47 faleceram na famosa “estrada da morte”, um infortúnio dramático. Mas se estes retirarmos, pela excepcionalidade dos seus excepcionais falecimentos, restam 16 vítimas, a maioria das quais localizadas e explicadas pelo cerco a uma aldeia.

Agora temos 43 mortes espalhadas e isto é mais grave, mais preocupante, menos compreensível.

As pessoas não sabem do perigo de um fogo?

As pessoas estavam a dormir e foram consumidas pelas chamas durante o agonizante sono?

As pessoas não obedeceram a alguma ordem de evacuação? Ou não houve sequer aviso?

As pessoas, de tanto desacreditarem no Estado – que os esbulha no Fisco, que lhes cobra na saúde, que os engana no desemprego -, já são insensíveis a bombeiros, GNR e fazem delas mesmas os seus chefes de Estado, que são elas mesmas?

As pessoas estão deseducadas e não comprendem que um balde não é um auto-tanque?

As pessoas foram intencionalmente mortas por incendiários, que as rodearam de chamas, de forma tão pérfida, que não havia para elas salvação?

As pessoas desesperaram sem rede de telemóvel e telefone e morreram agarradas a agonizantes pedidos de socorro para um 112 que não funcionava?

As pessoas tentaram fugir e fugir e fugir e tolheu-se-lhes o juízo e embarcaram na sua própria morte?

Este sábado vão organizar tudo e mudar tudo. Mas por decreto não se muda nem se percebe porque morrem dois irmãos a salvar galinhas e vacas.

Paulo e João, 29 e 33 anos, morreram carbonizados em Vila Pouca da Beira porque sem as vacas, as galinhas, não viam para si futuro algum. Preocupados com o avô, que lhes dava sabedoria e andava desaparecido nas chamas, não viam para si futuro algum.

Paulo e João, 29 e 33 anos, preferiram o preço das chamas a acreditar que o país, todos nós, estaríamos com eles depois de tudo arder.

Portugal é uma farsa nos nossos inconscientes e subconscientes. E talvez por isso muitos, sentido-se tão sós, sem presente nem futuro, olvidados pelas cidades, denegridos pelos start-uppers e burlados pelos opinion makers, enganados pelos políticos celestiais bruxelenses e terreirenses, talvez por isso os meus concidadãos se tenham afoitado demais.

Sem história, nem passado nem memória, sem vinco nem horizonte, talvez por isso a labareda.

 

 

(Foto JFS/Global Imagens)

 

 

Nem Pilatos Rebelo de Sousa nem Trapalhada Costa. Assim, não.

Nem Pilatos Rebelo de Sousa nem Trapalhada Costa. Assim, não.

Assim não.  Nem a mata da chamusca nem a faca nas costas espetada por Constança Urbano de Sousa nem, sequer, o miserável discurso de Marcelo Pilatos de Sousa, a meter-se na vida dos partidos e do Governo. Nenhum sai bem, todos mostram a falta de sentido de Estado, de oportunidade, de civismo político e de humanismo.

Vamos por partes, que não é simples.

A crer que Constança Urbano de Sousa pediu demissão e que Costa não aceitou, o primeiro-ministro, sem querer, tem de explicar porque aceita agora a demissão desta forma, 12 horas depois de um puxão de orelhas inaceitável do Chefe de Estado. Costa soçobra, com ele a ministra e o secretário de Estado, a um dos mais manhosos e diletantes golpes que um Presidente já fez.

O que Costa tem de fazer, imediatamente, é convencer o Bloco e o PCP a absterem-se na Moção Cristas e cair, enquanto é tempo – para ir às urnas limpar o ar. Mas ao aceitar o tau-tau infantil de Marcelo, fica provado uma coisa: Costa é esperto e manhoso, mas Marcelo é esperto, manhoso e inteligente – por isso vencedor popular da contenda, ad eternum. Só com pensamento político sólido e estratégia clara é que o PS pode safar-se desta fase com a dignidade que tinha em Maio deste ano.

O PS deve forçar eleições. O momento é o ideal: o Orçamento pendurado prejudica os trabalhadores todos, Marcelo fica responsável pela queda e PCP e Bloco estarão em campanha sem ter tido tempo de se afastar do Governo que apoiaram.

Mas, temo, não há no PS esta densidade política.

Depois, Marcelo.

O discurso populista e demagogo do Chefe de Estado é indigno. O que faz Marcelo indignar-se aos 100 mortos que não o fez indignar-se aos 63? Ou aos 30? Ou aos 10? Há um número na cabeça de Marcelo a partir do qual é inadmissível o que quer que seja?

Na sua inteligência e genialidade literária, Marcelo condicionou o Governo, mas preferiu ir a Oliveira do Hospital do que usar as armas presidenciais. Foi ao velório da vítima apelar à turba que linchassem o homicida. Errado, quer do ponto de vista ético, quer do ponto de vista da correcção política.

Marcelo podia e devia ter enviado mensagem à Assembleia da República, podia e devia ter estado no Conselho de Ministros de Sábado, podia e devia ter reunido o Conselho de Estado – que ele banalizou como sala de visitas de dignitários estrangeiros e não como órgão de consulta do Presidente.

Isto é: Marcelo puxou à lágrima mas depois espetou a faca no cadáver. O professor de direito e constitucionalista eminente virou as costas à lei fundamental e fez o que quis do cargo que a população lhe deu, dado o seu estrelato televisivo. E fê-lo bem, do ponto de vista cénico.

Uma indignidade política, porém.

Por fim, as armas de Tancos. É tão inverosímil a historieta de que a GNR de Loulé (!) e a PJ Militar tenha encontrado 44 G3 na mata da Chamusca, logo esta quarta-feira, que o Governo tem de pintar-se com tintas de camuflados para fugir à galhofa geral.

A necessidade de se proteger de Marcelo, evitando segundo ataque do PR ao melhor estilo Teresa Guilherme, sobre Tancos, terá aconselhado os spin doctors do Governo a lançar a notícia meia hora depois da demissão de Constança Urbano de Sousa.

Uma trapalhada tão estúpida, quer política quer de comunicação, que volta a cair em cima de Costa o gume da falta de estratégia inteligente.

A esta hora nenhum português acredita que havia armas na mata da Chamusca. Nenhum português valida positivamente a demissão da ministra que, de saída, dispara contra Costa. E poucos portugueses perceberam que Marcelo se meteu onde não era chamado, pisando até os riscos vermelhos da CRP, muito mais suave mas grave que a inutilidade Silva, o anterior ocupante do palácio.

O trabalho deste governo e desta maioria parlamentar é bom. É sólido. É conseguido.

Será pena, por ingenuidade política, teimosia pessoal e falta de densidade estratégica que vá tudo para o lixo, na mata da Chamusca.

 

(imagem: Lusa)