100 anos de comunismo e não

100 anos de comunismo e não

Um sogro inteligente disse-me: “Se o comunismo fosse mau para os trabalhadores, os patrões eram todos comunistas”. Este sogro, que não é comunista, resumiu numa frase a importância do comunismo, a sua força e a sua ideia.

O planeta tem a mania de confundir o Comunismo com os partidos comunistas. Percebe-se. Mas falha-se. Marx nunca conheceu Lenine, Estaline ou Trotski. Engels nunca andou no Outubro a desfilar.

A diferença entre a ideia e a organização partidária tem muito da diferença entre religião e igreja. Acima de ambas está a crença, ou a ideologia.

É a ideologia, que começa antes de Marx mas que este sabe fixar, nascida na soturna Manchester, que se deve comemorar. A ideia de liberdade e igualdade. A ideia da coisa comum.

Não há regime sem senão. Os que hoje apontam ao comunismo como tendo matado milhões são os mesmos que batem no peito com a desgraça dos “descobrimentos”. Putin, o czar da coisa nova que é a Rússia oligárquica, faz o que Estaline fez: aproveita-se dos mecanismos de controlo que qualquer poder dá e aplica-os de forma desumana.

O catecismo partidário-comunista é igualmente aterrador. Qualquer catecismo o é. Impedir o livre pensamento e a pergunta quando se tenta passar uma ideia que se baseava, ainda, em Hegel, é a mesma coisa que ensinar a desfazer bolos de arroz ou bacalhau à Gomes de Sá: é fazer ao contrário.

O comunismo não é o que dele fizeram os partidos que se disseram comunistas. É uma teoria geral progressista, atenta à exploração do homem pelo homem, a caminho de uma liberdade individual que se exprime, depois, no mérito de cada um perante e entre o colectivo. É uma teoria da esperança para os que pouco ou nada têm. É a resposta capaz no tempo em que se dormia nas fábricas, se faziam filhos nas fábricas e para as fábricas. Onde o “personalismo”, essa coisa mal interpretada, era respeitado na condição comum do que cada um pode e deve ser perante o meio, a sociedade, o outro.

Hoje, 100 anos e um dia depois, não se comemora 1867, data de edição d’”O Capital”. Nem tampouco Sartre, a Simone ou Dawkins, já para esquecer Feuerbach. Mas devia. O pensamento destes e de tantos outros, os romances de Manuel da Fonseca ou de Manuel Tiago [Álvaro Cunhal], o que nos deixou Soeiro, devia ter um lugar central na sociedade que se diz agarrada ao progresso.

As máquinas que substituem as pessoas no trabalho não pagam segurança social.

A segurança social é um peso na cabeça da maioria – mal, mas é.

O povo não é quem mais ordena, é quem mais definha – mas agora, nesta “terra de maravilha e aguarelas”, definha feliz, consumista e deprimido. Parece contraditório, mas não é. É apenas a base da gratificação imediata, a tal que o comunismo sempre execrou, que está em Pavlov e em Maslow.

Sempre me pensei comunista, sempre  me pensei longe dos partidos ditos comunistas. E mais ainda dos que brincam ao comunismo e fazem de Ché e Trotski uns santos de capela. A boina do Ché, então, é uma das mais mercantis manobras atrevidas.

Mas comove-me este Outubro, a esperança nos olhos e nos braços dos russos coevos e dos europeus que olhavam com o coração à espera de uma terra sem amos.

Quando sanarmos a questão da organização, num partido que não precisa de paredes de vidro porque nunca ninguém desconfia de ninguém, quando a civilização lá chegar, ficarei ainda mais feliz.

Dirão: isso é Kropotkin. Se calhar, é.

Viva a liberdade.

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Mulher adúltera a mim não me convém…

Mulher adúltera a mim não me convém…

Homem que é homem não aceita que Marlene ou Soraia, com quem casou depois de namorar dez anos, desde o 9º ano, e a quem tratou como serviço de limpezas, catering e limpa vómito se desdenhe dele e vá à procura de romance. Homem que é homem, para o neto de moura, se dá tabefe, canelada e com uma porra no lombo da Andreia, sua escrava, tem desculpa.

Aquilo era demais para o homem que é homem: que importa se ele não lhe deu um beijo nos últimos seis anos e se conhecia melhor os dramas da musa da casa de strip do que da Floribela com que casou. Mal por mal, ela foi ao altar de grinalda e vestidinho branco, jurar fidelidade para todo o sempre.

Ele, coitadinho, tanto trabalho, ele, suspirava ela às poucas amigas – que homem que é homem anda sempre com radar a ver se há amigos e logo os proíbe – nem um olá, um obrigado Cátia Sofia, nada. Mas a mãe bem lhe disse

os homens são assim, filha.

E os homens como são “assim”, não topam que elas como eles, e vai daí quando lhes entra um Adónis de Cedofeita na vida, a desfolhar-lhe a trigueirinha que se tinha por certa, salta-lhes a tampa. “Mas tua mãe não te disse que os homens são ‘assim’, Sãozinha?”. E vai de desenhar-lhes na cara o arquipélago dos Açores a costas de mão cheia.

Mas a culpa é delas, assegura o neto da moura, que assevera que essa balzaquiana que despreza o senhor padre e nosso senhor é ” falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral. Enfim, carece de probidade moral“.

Não nos incomodemos nem espantemos.

O neto da moura é a voz popular do que somos.

Desconheço se nos passeios pelo largo de S. Paulo alguma vez o magistrado subiu ao segundo andar de um prédio que lá havia e a seguir se confessou, mãozinhas postas e escroto cansado. Provavelmente nunca pensou na net para a masturbação e anda a ajudar o Carlinhos Alexandre à missa.

Ou nada disto.

Mas para citar livros de ficção nas sentenças, que escolhesse o Al Berto ou o Eugénio de Andrade, só para confundir. A ser-se versado em cornadura, valia-lhe mais Bocage ou mesmo o velho e bom cancioneiro.

A sociedade ri-se quando elas lhes batem e demora-se em gravidade quando eles lhes dão. Há um duplo critério, uma discriminação positiva que ainda faz sentido enquanto houver:

  1. netos de moura;
  2. piadolas sobre quando o Benfica perde.

Mas espero que o namorado do neto da andaluz nunca lhe pise o ventre com tacão de flamenco, ou pelo menos que nunca o faça para que ele goste.

Juiz católico a mim não me convém, como não me convém a enorme palhaçada da maioria dos casamentos “pela igreja” em que ambos nubentes nem sabem quem é deusnossenhor. A hipocrisia, que Descartes nunca percebeu estar acima do bom senso no negócio da distribuição e partilha, leva-os de fato e a elas de branco. A hipocrisia está, ainda mais, em existir essa coisa chamada

casamento

que é uma espécie de invasão da privacidade por parte do Estado – que apenas herda, nos netos de moura polvilhados pelo planeta, a estúpida ideia de que a sociedade deve sancionar quem se ama.

Eram coisas que já acabavam: a pancadaria, os netos de moura e o casamento. E, citar a bíblia, devia estar reservado a teólogos e ateus. São dos poucos que a entenderam.

Porque o mourisco descendente podia ter ido mais longe: é que as mulheres que lavavam o cabelo para ficarem mais belas acabavam invariavelmente no inferno, penduradas pelas melenas. Mas como isto está no apocalipse de S. Pedro, livro rejeitado, o neto não conhece.

Nem Pilatos Rebelo de Sousa nem Trapalhada Costa. Assim, não.

Nem Pilatos Rebelo de Sousa nem Trapalhada Costa. Assim, não.

Assim não.  Nem a mata da chamusca nem a faca nas costas espetada por Constança Urbano de Sousa nem, sequer, o miserável discurso de Marcelo Pilatos de Sousa, a meter-se na vida dos partidos e do Governo. Nenhum sai bem, todos mostram a falta de sentido de Estado, de oportunidade, de civismo político e de humanismo.

Vamos por partes, que não é simples.

A crer que Constança Urbano de Sousa pediu demissão e que Costa não aceitou, o primeiro-ministro, sem querer, tem de explicar porque aceita agora a demissão desta forma, 12 horas depois de um puxão de orelhas inaceitável do Chefe de Estado. Costa soçobra, com ele a ministra e o secretário de Estado, a um dos mais manhosos e diletantes golpes que um Presidente já fez.

O que Costa tem de fazer, imediatamente, é convencer o Bloco e o PCP a absterem-se na Moção Cristas e cair, enquanto é tempo – para ir às urnas limpar o ar. Mas ao aceitar o tau-tau infantil de Marcelo, fica provado uma coisa: Costa é esperto e manhoso, mas Marcelo é esperto, manhoso e inteligente – por isso vencedor popular da contenda, ad eternum. Só com pensamento político sólido e estratégia clara é que o PS pode safar-se desta fase com a dignidade que tinha em Maio deste ano.

O PS deve forçar eleições. O momento é o ideal: o Orçamento pendurado prejudica os trabalhadores todos, Marcelo fica responsável pela queda e PCP e Bloco estarão em campanha sem ter tido tempo de se afastar do Governo que apoiaram.

Mas, temo, não há no PS esta densidade política.

Depois, Marcelo.

O discurso populista e demagogo do Chefe de Estado é indigno. O que faz Marcelo indignar-se aos 100 mortos que não o fez indignar-se aos 63? Ou aos 30? Ou aos 10? Há um número na cabeça de Marcelo a partir do qual é inadmissível o que quer que seja?

Na sua inteligência e genialidade literária, Marcelo condicionou o Governo, mas preferiu ir a Oliveira do Hospital do que usar as armas presidenciais. Foi ao velório da vítima apelar à turba que linchassem o homicida. Errado, quer do ponto de vista ético, quer do ponto de vista da correcção política.

Marcelo podia e devia ter enviado mensagem à Assembleia da República, podia e devia ter estado no Conselho de Ministros de Sábado, podia e devia ter reunido o Conselho de Estado – que ele banalizou como sala de visitas de dignitários estrangeiros e não como órgão de consulta do Presidente.

Isto é: Marcelo puxou à lágrima mas depois espetou a faca no cadáver. O professor de direito e constitucionalista eminente virou as costas à lei fundamental e fez o que quis do cargo que a população lhe deu, dado o seu estrelato televisivo. E fê-lo bem, do ponto de vista cénico.

Uma indignidade política, porém.

Por fim, as armas de Tancos. É tão inverosímil a historieta de que a GNR de Loulé (!) e a PJ Militar tenha encontrado 44 G3 na mata da Chamusca, logo esta quarta-feira, que o Governo tem de pintar-se com tintas de camuflados para fugir à galhofa geral.

A necessidade de se proteger de Marcelo, evitando segundo ataque do PR ao melhor estilo Teresa Guilherme, sobre Tancos, terá aconselhado os spin doctors do Governo a lançar a notícia meia hora depois da demissão de Constança Urbano de Sousa.

Uma trapalhada tão estúpida, quer política quer de comunicação, que volta a cair em cima de Costa o gume da falta de estratégia inteligente.

A esta hora nenhum português acredita que havia armas na mata da Chamusca. Nenhum português valida positivamente a demissão da ministra que, de saída, dispara contra Costa. E poucos portugueses perceberam que Marcelo se meteu onde não era chamado, pisando até os riscos vermelhos da CRP, muito mais suave mas grave que a inutilidade Silva, o anterior ocupante do palácio.

O trabalho deste governo e desta maioria parlamentar é bom. É sólido. É conseguido.

Será pena, por ingenuidade política, teimosia pessoal e falta de densidade estratégica que vá tudo para o lixo, na mata da Chamusca.

 

(imagem: Lusa)

 

 

Para restaurar a sanidade

Para restaurar a sanidade

Um gajo não se lembra de uma, uma coisa que o Rui Rio tenha feito, a não ser uma história de um jaguar – que já não se sabe se o matou ou o comprou ou o vendeu.

O desejo de Santana é fazer tudo outra vez, mas agora bem, uma vez que foi quase tudo o que queria ser mas, como os maus namorados, perdeu a chance.

O Sócrates não tem a noção de auto-piedade e do ridículo e aqueles juízes e magistrados parecem saídos de um romance do Dennis McShade – são os gajos que vêm no Opel Record Olympia a perseguir o meliante mas que o perdem sempre que há uma esquina.

D. Cavaco I, O Inútil, nunca topou nada do BPN nem do BES, um santo de Boliquei-me, o homem que errou como outrora o Sepúlveda, uma perda de tempo que quilhou esta coisa pantanosa ainda mais.

O Orçamento de Estado é negociado como se enganavam os putos nas mercearias: o troco é em rebuçados de mentol e caricas da bola, que saltaram para o chão quando se atendeu o resto da clientela.

Os patafúrdios catalães sabem lá o que querem – não há revolucionários em Barcelona, só peseteros, como um dia chamaram ao homem que adoraram e odiaram. Filipe VI é uma Letízia a mais, viva a música espanhola e as letras e a pintura e a não nos irritem agora.

A Naomi Klein tem um livro novo.

Não há direita, dizem os gajos de direita. Até eles têm vergonha e isso é mau – também começa a não haver esquerda e daqui nada não há tempo, quanto mais dimensões.

O governo dos EUA é um perigo para o mundo. O de Pequim também. O de Paris é uma anedota. O de Londres é irrelevante. O de Ancara está à solta. O de Tel Avive tem um amigo novo. Deve estar-se bem na Horta, nas Flores, no Corvo, em Plasencia.

Não chove e estão 30 graus e é Outubro e nada, mas nada do que está aqui é normal ou bom.

Stop. Façamos stop e recuperemos a sanidade.

A Kim Kardashian padece de dismorfia. Não sei o que é.

 

 

 

Opereta política mal amanhada

Opereta política mal amanhada

Marcelo mergulha, Arménio exige, Catarina seduz, Joana esparvoa, Costa dissipa, Cristas demarca-se, Passos enquista-se, Jerónimo rediz, Arnaldo enlouquece, Carmelinda numa Chueca esconde-se de cansada, Pinto Coelho insiste-se, os assassinos do costume planeiam os melhores cartazes, a música é de bombo e sanfona.

Ainda hoje uma arruada, que é o nome que se dá a pessoas desunidas e juntas a descer a rua, fazia algazarra e banzé, gritando sob o adejar de um punho semi-morto, depois de passar a foice romba, a seta murcha, o centro relativo, o homem em pontas e bola de cabeça.

No correio todos prometem o mesmo – porque sabem que o mesmo é preciso. Nenhum me afiança criar um porto espacial no meio da freguesia para viajar a Marte. Nenhum se dá ao luxo do humor, da criação de um parque de caça para ideias loucas, de uma revolta sobre os contos fantásticos ou a dissecação de Poe e Natália ao som do morangueiro.

Ambos os sete são certos e sérios. Nenhum se arrisca. Estão impedidos pela regra de serem carteiros de Neruda ou exploradores de Alfa Centauro. Nenhum se distingue pela jardinagem nas luas de Saturno, piratas honrados. Nenhum promete “Eu Enganarei”. Nenhum ouviu Sílvio e se tramita no unicórnio azul.

À falta de melhor, “há hortas, avenidas e ruas tortas“. Todos me prometem recolher o lixo à hora certa e mais centros de centros de centros, para idosos e jovens, para precários e seguros, monetários dependentes e dependentes monetários. São baços na variedade, porque nenhum diz o que quer.

Na minha campanha prometia só utopias. Todos se apaixonariam durante o mandato. Todos teriam casos extra e pós-conjugais, os traficantes soçobrariam ao Cesariny, os meliantes cantariam Ronda, haveria no segundo ano um projecto de ateísmo e no quarto uma corrida de colher com ovos e lançamento de necromantes.

A obra do regime seria fugir e a grande aposta na mobilidade uma placa a dizer “saída”.

Mas, não. Todos sérios, como os senhores de gravata e as senhoras que estão convencidas que os saltos altos servem para andar na calçada. Nenhum de nós tem a amabilidade de votar nas Testemunhas de Jeová que, definitivamente, têm as melhores imagens de paraíso para as nossas aldeias. Só caprinos eclesiásticos e relvado a perder de vista, em direcção ao grande cartel da felicidade.

A remoção da felicidade e do sonho das propostas destas coisas eleitorais demonstra bem a modorra e a maçada.

Votarei nos médicos de flores, nos rebobinadores das músicas, no rio Almançor de Grade. Chamem-me à razão depois do meio-dia. Antes, permitam-me, nos, que estejamos como Greta ou de pé do Balcão, ao ouvir o marido da cabeleireira e a agarrar os peitos desnudos de Matilde – que nos abraça forte e de quem temos medo que, um dia, nunca mais queira bailar connosco.

Seria menos coiso, como eles dizem.

Mas tão mais sentido.

Tão mais real e necessário, nestes tempos em que foi-se e não foice.

E Marcelo e nada martelo.

E mais manita que punho.

Visão: Venda uma!

Visão: Venda uma!

Quando começaram a pedir capas de férias e gajas, estrelas de tv e futebolistas, a coisa estava mal parada. Nada valia argumentar contra o patrão, que exigia, aliás, uma página tipo Playboy, disfarçada de entrevista, com as modelos e as actrizes de novela, ao alto, todas despidas. A revista era a Focus, eu estava como chefe-de-redacção, as reuniões com a gestão eram um presságio disto tudo – sendo tudo o fim anunciado da Visão.

Não chovo no molhado, por isso recordo apenas, para quem não é do meio, o essencial. As revistas e jornais nunca se pagaram com o que se paga em banca por eles. O negócio da imprensa é vender páginas de publicidade. A publicidade, nos últimos anos, migrou para o online, onde estão todos os consumidores que interessam. As marcas escolhem os públicos-alvo e sai-lhes mais barato e eficaz.

A imprensa não percebeu que não podia ser gratuita, por isso tornou-se um produto à borla na Internet em 2000, mais coisa menos coisa. Há 17 anos que tudo definha: gráficas, redacções, editoras e distribuidores.

O que vai acontecer à Visão – herdeira legítima  de O Jornal – é infelizmente natural. As capas com que se ilustra este texto mostram o desespero de uma direcção e redacção submetidos ao “interesse percebido do público”. Não há notícias, não há jornalismo de investigação, não há entrevistas que mudem o curso do país. Não há porque isso deixou de vender. Não há porque não há dinheiro para defender jornalistas em processos. Quando me vi processado por Pinto Balsemão, José Sócrates, Santana Lopes, Narciso Miranda, entre outros, por ter escrito peças jornalísticas, a editora torceu o nariz à minha defesa e à dos camaradas também envolvidos. Absolvido em todos, percebi claramente que os editores estavam a mudar de opinião sobre o jornalismo.

O encerramento de 13 títulos, à bruta, deita mais gente no desemprego mas, acima de tudo, empobrece o país, que perde textos com qualidade, géneros literários, autores e material formador de cultura e opinião.

Não nos queixemos muito: o país adora o Love on Top (?) e debates de 50 horas sobre jogos de 90 minutos. O país ainda debate temas como a homossexualidade. O país adora notícias de professoras de 25 anos que violam alunos de 16 mas escandaliza-se com professores de 25 que violam meninas de 16. Ou crimes à facada. Ou livros para a menina e para o menino, se forem dois.

Escrevi na Visão, onde aliás conheci e suguei o Afonso Praça, tanto quanto podia. Estava o Cáceres Monteiro em amena cavaqueira com a Maria Elisa e eu na “internet” com o Praça, a dizer-lhe o que era aquilo, ele cheio de curiosidade desconfiada.

Os velhos foram varridos: da Focus, que fechou pouco depois da minha equipa ter sido dizimada; da Visão, porque eram caros. De todo o lado, enfim.

O papel é um negócio muito ingrato. Os gestores do jornalismo falharam redondamente, em todo o mundo, inebriados pela Net, quando decidiram nunca pensar num modelo de negócio para as notícias online.

Agora, estamos nisto. Entregues ao “jornalismo cidadão”, que é uma expressão que me causa arrepios. É como se num restaurante houvesse o “cozinheiro cidadão”, onde cada dia uma pessoa qualquer vai cozinhar, saiba ou não. Ou um “comandante cidadão” em cada avião da TAP e, se deus quiser, lá levantaremos do chão.

É por isso que as vítimas primeiras de tudo isto são os leitores. Depois as redacções. E os responsáveis os jornalistas que alinharam na loucura e os gestores que pensaram, sabe-se lá porquê, que dar em vez de vender era a mesma coisa.

Há tempos houve um congresso de jornalistas. Não fui e disse a quem devia que o modelo do congresso não ia servir para nada. No último dia convidaram os patrões e fizeram louvas.

Deu no que deu. E vai continuar.

 

 

Tancos: ninguém se salva

Tancos: ninguém se salva

Os militares portugueses que o são devem andar cheios de vergonha dos outros que tal se dizem e só rebaixam a classe. Marcelo devia ter deixado acontecer a manif das espadas, recolhê-las e mandar exonerar todos os que ali aparecessem. Os militares indignados com o poder político deviam vir mostrar todos, mas todos, os relatórios onde escreveram que havia um buraco na rede e que a video vigilância estava avariada.

Contas por alto, se algum sargento cumpriu a sua função, haverá pelo menos 1400 relatórios onde está isto escrito: dois por dia, assinados por militares responsáveis, que não se compadecem com a falta de meios e a forma como as Forças Armadas são tratadas.

Mas, ao que parece, parte dos nossos militares são, afinal, e passe o estereótipo que aqui vai só para moer, da Companhia de Bailado das Guerras. Sentem-se “ofendidos” quando alguém lhes diz que a responsabilidade de guardar o que é deles, é deles.

Cabe na cabeça de alguém que o ministro da Saúde tenha de saber se há gaze no Hospital de Portalegre? Ou que o ministro da Cultura saiba que há erros de português no programa do S. Carlos? Só sabem se alguém lhes disser. São ministros, não são inspectores gerais. Cabe-lhes a política, não o economato nem a logística.

Ao que querem fazer crer gamaram armas de um paiol que só com camião se transportavam. A Procuradoria, alarmista e tablóide, aponta pistas para todos os gostos: tráfico, terrorismo, tensões territoriais, tudo o que comece por Tê. Acusa-se em público os tipos de Engenharia que têm a caserna em frente ao paiol, porque foram para a Líbia umas vezes e podem lá ter feito “contactos”. Então a dignidade dos nossos militares é assim tão baixa que, mal põem os pés no estrangeiro, desatam a vender gás pimenta e pistolins?

De cabeça perdida, o Presidente da República foi a Tancos mandar calar toda a gente, mas tenho que soube de coisas que preferia não saber. Especulo, sem prova, que não houve gamanço nenhum com camiões e homens a caminhar quilómetros, 500 metros de cada vez, com C4 nos braços. Se fossem ladrões, não eram loucos. Se fossem loucos, não tinham gamado nada, porque é tudo mais barato no Quirguistão ou no sul dessas Líbias perdidas.

Sorumbático, lá penso que nunca houve roubo. Ou foi havendo, durante meses, ou aquilo eram armas no papel que ajudaram a sobre-dimensionar um orçamento qualquer.

A tristeza enorme ao ver alguns dos nossos militares e alguns dos nossos políticos a fazer disto uma patranha securitária até dá arrepios. Ao menos, sabemos que podemos confiar no jornal online do Pedro Jota para nos contar tudo o que a PGR e a PJ militar portuguesa quer. Não podem ser sempre os mesmos a dar notícias.

Agora, ide para dentro e contai a verdade.