Perdão, mas já chega de fogo.

FeaturedPerdão, mas já chega de fogo.

Entendamo-nos: nenhum governo pode estar descansado e falar de Economia quando o país arde como arde. Basta olhar para o mapa, para a televisão, para os sites oficiais para perceber um gravíssimo problema em Portugal.

Um problema que se chama desordenamento do território. Por cima deste, milhões de outros, mas que derivam apenas de um só: Portugal não é pensado, provavelmente nunca o foi e, infelizmente, a ver pelos exemplos dos políticos que nos prometem, nunca será.

Incêndios activos Ibéria - 30 dias
Incêndios activos Ibéria – 30 dias

Não é normal termos mais área ardida do que os países do sul da Europa que, como nós, têm floresta e culturas semelhantes. Não é normal suspirar quando chegam os bombeiros espanhóis, que fazem contra-fogo sem olhar à lei portuguesa. E ainda bem.

A lei, de 2009, é tão estúpida, hierárquica e burocrática que é preciso um papel e carimbo de uma repartição e duas autoridades para se poder fazer algo que salva vidas, floresta e casas.

Não acredita? Excerto do Diário de Notícias: “O documento define que a utilização do fogo em acções de combate tem de ser autorizada pela estrutura de comando da ANPC. E que tem de ser feita sob orientação e responsabilidade de um técnico credenciado pela AFN.” (clique no texto para ver original)

O ordenamento do território é uma falácia, uma palhaça, uma piadola. As leis e portarias e demandas legais, mais nacionais ou menos municipais, são pintadas da cor do vento. Ora subsídio para avestruzes na Serra da Estrela (procurem, é verdade) ou um Alqueva que é para o windsurf e casas de turismo rural. Regadio, viste-o.

Um território com uma faixa atlântica carregada de gente e um interior sem uma auto-estrada da raia ou linhas de comboio que funcionem. A Europa avançava na mobilidade ferroviária clássica, a gente sonhava com TGVs entre a OTA e a base lunar.

Área ardida e severidade do Fogo
Área ardida e severidade do Fogo – COPERNICUS
Emergency Management Service

Um território onde em ano de autárquicas nenhum presidente de Câmara vai multar um voto (i.E., uma pessoa) se não limpar a mata, o terreno, o pasto. Deus dá a manta conforme o frio e o fogo não há-de chegar. E quando chegar, dirá o cacique mal formado, deus queira que a TV cá venha, que lhes faço já o ponto de situação e ganho aqui tempo de antena que nunca mais se acaba.

Claro, nem todos os autarcas são assim. Não será a maioria, sequer.

Mas um território desordenado é o que deixa e se deixa arder. Os bombeiros do Cacém sabem lá por onde começar o combate quando estão nas Fontes e olham para o mato cerrado e nem uma estrada de acesso àquela salada russa de pinheiros, carvalhos, mimosas, eucaliptos, aloendros e duas casas de pedra com colmo e barro em cima. Coitados dos bombeiros do Cacém e de Matosinhos, do Beato e de Cedofeita. Uns heróis, é o que são, sapadores e, acima de tudo, voluntários, que nas televisões atiram água para cima das chamas em vez de atacar as bases porque os fundos para a formação sabe nosso senhor onde andarão…

Território em risco de Incêndio 15/Ago
Território em risco de Incêndio 15/Ago

Não, não é normal esta quantidade de pirómanos, num país que gosta de peixe e adora praia. Não, não é normal o risco de incêndio em Castela, Leão, Extremadura, na Mancha ser maior do que nas Beiras e arderem as nossas como se fossem um parque de diversões dos meliantes.

Não, não é normal ainda andarmos a falar de um sistema de comunicações que se chama RAISPARTA e que o homem que o encomendou agora diga que usa Vodafone ou Nos  e, em vez de resolver o problema porque os incêndios são hoje, adie para as calendas parlamentares a solução que pode salvar vidas.

Não, não é normal que não se corte imediatamente a entrada aos madeireiros aos terrenos ardidos e que não se trave o comércio do aglomerado e da usura, quando os homens de gravata ou camisa aberta – já os vi, uma vez negociei com eles e subia-me à boca o azedume do mau azeite -, esses “amigos” da hora certa a dar dez tostões por mel coado.

Não, não é normal que se contabilizem as vítimas mortais apenas naquelas que perderam a vida, porque os campos alimentam as pessoas e o dinheiro não chega. Os campos têm alhos e batatas, cebolas e gado, pasto para este e é a carteira viva, a pensão complementar para quem, já avós, ajudam filhos a criar netos – apesar do milagre do emprego que apareceu na azinheira do INE. É a velha expressão de que alguns acabaram “ainda mais deitados / o coveiro que o diga”.

Tal como não é normal que se atirem pedras aos jornalistas que mostram o que está a acontecer, a aflição real dos seus concidadãos, a destruição verdadeira. Se os moradores das avenidas das cidades se incomodam são eles, também, a mecha que faz deste tempo um triste tempo.

E não, não é normal que não haja um ponto final nesta desgraça, como não haverá nas cheias das águas invernais, na erosão da costa e das arribas que matam, no crescimento pomposo e confuso das cidades.

Um dia, talvez um dia, os romanos queiram voltar. Temo que apenas confirmem o que uma vez disseram.

 

Líderes de balneário dominam planeta

Líderes de balneário dominam planeta

Faltava-nos viver este período em que os presidentes dos países mais poderosos estão no balneário a tirar a toalha e a comparar os tamanhos. Chegou-nos a uberdade da juventude palerma dos homens adultos armados em adolescentes, conforme a origem, para nos deixar inquietos. Dantes, compravam carros de elevada potência. Ou montavam cavalos. Ou dedicavam-se a torneios militares. Hoje, brincam ás imagens de poder.

Maduro decidiu mentir, tal como o ocidente decidiu mentir sobre Maduro. Inventou uma eleição fantasma para mudar a Constituição que lhe dará como destino a inglória passagem medíocre para a História. Morta a democracia uma centena de venezuelanos, o homem que ouviu Chávez num “pajarito” não tem a noção de que são os militares a dominá-lo, não Bolivar ou a Esquerda. Aliás, a Esquerda nada tem com Maduro nem com os seus opositores. A Goldman Sachs tanto gosta de uns como de outros, desde que deite mão ao petróleo.

Mais acima o Trump prossegue, mostrando-se rapaz dos seus 12 anos, mal educado e mimado, contra um sistema que ainda vai travando a sua lei mas não o seu desconchavo. Irritado por ter mãos pequenas, decidiu irritar os moderados da sua equipa e tirar a toalha da cintura para mostrar as armas aos russos, chineses e, enfim, à mascote da equipa adversária, a Coreia do Norte.

Putin, o capitão russo, não tira a toalha, monta búfalo dentro do ginásio e promete arrasar o terreno de jogo quando lhe apetecer, só porque sim. Uma amiga alemã tem deitado água nesta fervura, com medo de perder a banquinha onde vende automóveis e baterias, ferros e medicamentos, sangue humano e computadores.

Os chineses, liderados pelo urso Pooh, já censurado, fazem demonstrações militares e um aviãozinho deita uma bomba ao ar, sem terra onde ir parar, ao lado dos amigos Russos. Uma manobra de balneário durante o duche que decidem tomar a dois, para que o resto dos rapazes vejam bem quão fortes são.

Nas Filipinas o violador-mor desculpa a morte dos seus cidadãos, até aos eleitos, uma vez que o seu combate moral, contra as drogas, tudo justifica.

Em Espanha o presidente do governo e o melhor marcador vão a tribunal; em França a Juventude Gaulesa quer ficar de bem com todos; na velha Albion ninguém sabe se sai ou fica; no Brasil joga-se às escondidas com Moro e outros justiceiros; no Paquistão muda-se de líder e no Afeganistão dá-se cada vez mais liberdade aos que querem matá-la. Em Angola ninguém sabe onde pára o poder nem o que vai acontecer dentro de meses. Em Cuba espera-se que o americano não prevarique.

Tudo isto se resolve com a saída destes rapazes do balneário. Há que telefonar aos pais para os virem buscar, que o planeta precisa de ir trabalhar.

Tancos: ninguém se salva

Tancos: ninguém se salva

Os militares portugueses que o são devem andar cheios de vergonha dos outros que tal se dizem e só rebaixam a classe. Marcelo devia ter deixado acontecer a manif das espadas, recolhê-las e mandar exonerar todos os que ali aparecessem. Os militares indignados com o poder político deviam vir mostrar todos, mas todos, os relatórios onde escreveram que havia um buraco na rede e que a video vigilância estava avariada.

Contas por alto, se algum sargento cumpriu a sua função, haverá pelo menos 1400 relatórios onde está isto escrito: dois por dia, assinados por militares responsáveis, que não se compadecem com a falta de meios e a forma como as Forças Armadas são tratadas.

Mas, ao que parece, parte dos nossos militares são, afinal, e passe o estereótipo que aqui vai só para moer, da Companhia de Bailado das Guerras. Sentem-se “ofendidos” quando alguém lhes diz que a responsabilidade de guardar o que é deles, é deles.

Cabe na cabeça de alguém que o ministro da Saúde tenha de saber se há gaze no Hospital de Portalegre? Ou que o ministro da Cultura saiba que há erros de português no programa do S. Carlos? Só sabem se alguém lhes disser. São ministros, não são inspectores gerais. Cabe-lhes a política, não o economato nem a logística.

Ao que querem fazer crer gamaram armas de um paiol que só com camião se transportavam. A Procuradoria, alarmista e tablóide, aponta pistas para todos os gostos: tráfico, terrorismo, tensões territoriais, tudo o que comece por Tê. Acusa-se em público os tipos de Engenharia que têm a caserna em frente ao paiol, porque foram para a Líbia umas vezes e podem lá ter feito “contactos”. Então a dignidade dos nossos militares é assim tão baixa que, mal põem os pés no estrangeiro, desatam a vender gás pimenta e pistolins?

De cabeça perdida, o Presidente da República foi a Tancos mandar calar toda a gente, mas tenho que soube de coisas que preferia não saber. Especulo, sem prova, que não houve gamanço nenhum com camiões e homens a caminhar quilómetros, 500 metros de cada vez, com C4 nos braços. Se fossem ladrões, não eram loucos. Se fossem loucos, não tinham gamado nada, porque é tudo mais barato no Quirguistão ou no sul dessas Líbias perdidas.

Sorumbático, lá penso que nunca houve roubo. Ou foi havendo, durante meses, ou aquilo eram armas no papel que ajudaram a sobre-dimensionar um orçamento qualquer.

A tristeza enorme ao ver alguns dos nossos militares e alguns dos nossos políticos a fazer disto uma patranha securitária até dá arrepios. Ao menos, sabemos que podemos confiar no jornal online do Pedro Jota para nos contar tudo o que a PGR e a PJ militar portuguesa quer. Não podem ser sempre os mesmos a dar notícias.

Agora, ide para dentro e contai a verdade.

SOS Pedro Passos

SOS Pedro Passos

Ligue 112 em caso de Passos Coelho. Ligue 707 para o ajudar. Participe no concerto em memória de sua memória. Envie bolachas em fila indiana para a São Caetano.

A coragem de Pedro Passos em manter-se à frente do partido depois de ganhar eleições e perder maioria e Governo não se lhe venera: podia ter corrido bem. Há dignidade na insistência. Daqui não sai porque ganhou a maioria dos votos – o que é verdade.

Pero, hay sempre um ‘pero’, triturado pelo partido, qué voraz nas ambições de poder, educado por Cavaco e consignado a Durão, por uns anos, o PSD não perdoa. Quem se mete com o PS, leva. Quem falha ao PSD, morre. Santana, Menezes, Salgueiro, Mota Pinto, Marcelo, Mendes, Ferreira Leite. Tudo deitado fora pelo aparelho que deseja o hedonismo poderácio e que se encontra deprimido quando longe da palhota onde se assinam coisas poderosas.

Pedro Passos, com quem almocei umas vezes e entrevistei outras tantas, apesar de ter sido um condicionado mau primeiro-ministro, era boa pessoa há 20 anos. O pai escreve bem, o que só indica uma educação interessante. Mas castrado pelo partido, onde lhe dão maiorias à Coreia do Norte, mas depois o mordem na mão e nas pernas e nas costas, foi enganado pelo candidato interesseiro a Pedrógão. Não teve culpa, acreditou no seu “companheiro” e fez asneira.

Nas autárquicas ser-lhe-à pedida a cabeça, depois de os que lhe vão dar a faca terem dito que não se candidatavam a lado nenhum. Os que o traíram agora são os que o matarão. Mas votaram nele, na cobardia habitual das grandes massas, porque faltavam anos e anos para voltar ao poder e, ainda assim, ironia das ironias, ele, Pedro, que se “queimasse”. Esquizo, o PSD parece estar e não estar de acordo com o governo do PSD.

Lá vai ele embora, o sol põe-se, a 1 de Outubro a última vítima da Troika será Pedro Passos, ele mesmo, como nos filmes onde o assassino é morto pelo mandante por outro assassino, uma vez que sabia demais.

Acordará com a cabeça do cavalo na cama e dirá, em Massamá, que o mundo é injusto e ingrato. É. A gente sabe porque levou com o mundo em cima.

Mas sabemos bem que Pedro Passos não será piegas, sairá da zona de conforto e passará a produto de exportação.

 

Judite e o Cadáver

Judite e o Cadáver

Não matemos, com raiva nos dentes, a Judite. Expliquemos por que a reportagem é má e nada tem de jornalismo. Vejamos os princípios violados.

Primeiro princípio: O jornalista e o cadáver, na mesma imagem. Imaginemos que a reportagem era da imprensa (escrita). Que sentido faria, ao abrir a página de um jornal, ver o autor do texto numa foto ao lado do cadáver? Nenhum. Ou na rádio ouvirmos a repórter dizer “Estou aqui ao lado de um cadáver”? Nenhum. O problema da imagem da jornalista ao lado do cadáver não está, apenas, no morto. Mas na ideia de que ver a jornalista ao lado do cadáver acrescenta alguma coisa – falso, não acrescenta. É soberba pura. O jornalista, aprende-se no 10º ano, “não é notícia” nem se deve misturar com a notícia. A imagem do cadáver, apenas, pode ser defensável se tal demonstrar incúria das autoridades. Não foi isto que aconteceu.

Segundo princípio: É impossível determinar se a falecida teria ou não desejo de ser registada publicamente, em imagens, depois de morta. Todos os cidadãos têm direito à sua imagem, mesmo que falecidos. O registo da imagem de cadáveres por recolher faria sentido se o trabalho de recolha e identificação não estivesse a ser feito. Mas está, com esforço e devoção. Por isso, a imagem de um cadáver, avulsa, não é notícia nem se submete ao interesse público, porque o contexto tem sido explicado pelas autoridades.

Terceiro princípio: O texto da reportagem mostra, claramente, um descontrolo da repórter, quando diz que os bombeiros estão “ali à frente” e o cadáver continua no terreno, sem ser recolhido. De facto, miram-se ao longe uns pirilampos típicos dos bombeiros, mas pode ser um auto-tanque ou um carro de combate. Deseja a repórter que o cadáver seja atado a uma escada magirus? Mostra a peça a natureza da viatura? Sabe a reportagem que os bombeiros a metros são de uma ambulância ou do IML? Recorda ainda Ricardo Gonçalves, depois de leitura deste texto: “A área [estava] selada pelas autoridades, o que isso significa que: primeiro, já lá estiveram autoridades; segundo, os bombeiros não podem mover o cadáver visto que se aguarda a chegada do médico legista”.

Quarto principio: A ausência de contraditório. A reportagem não confronta nem os tais bombeiros da imagem nem as autoridades sobre a lentidão da recolha de cadáveres, proposta pela jornalista. Não foi falar com a Protecção Civil, com o IML, com ninguém. Não cumpre o que é básico no jornalismo – ouvir todas as partes.

Quinto princípio:  “O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas”, diz o código deontológico. Se a nora da senhora falecida está desesperada e lhe aparece uma estrela de tv a falar com ela, a nora pouca serenidade tem, no seu desespero, para decidir com serenidade, liberdade e responsabilidade se fala ou não, o que diz ou não. Está vulnerável, responde por impulso e, provavelmente, perdeu a casa, perdeu decerto familiares, não é testemunha a não ser de um desespero pessoal que, por causa do mau jornalismo, não se entende se ilustra uma falha das autoridades ou, apenas, uma peça sensacionalista. Isto é: não sabemos se o interesse público está presente.

Sexto princípio: A reacção da Direcção de Informação da TVI à abertura de inquérito defende-se com um falso argumento. Diz: ““A informação da TVI faz jornalismo. Apura factos, vai para o terreno, procura proximidade com os portugueses – e tem-no feito com sucesso, porque recolhe há anos consecutivos, mês após mês, a preferência da maioria dos cidadãos”. Ora, a “preferência da maioria dos cidadãos” não legitima o que quer que seja. A credibilidade da informação não está na maioria, mas no rigor. A TVI prossegue, dizendo que a maior audiência é “um indicador objectivo que valida a sintonia com a sociedade portuguesa que, sabe-se lá como e porquê, a ERC reivindica para si”. A direcção da informação não terá percebido que o mais forte nem sempre tem razão – nem que a ERC não é um órgão de comunicação social jornalístico, mas o regulador destes. Além disso, o director de informação acrescenta que a estação “não recebe lições de ninguém sobre sensibilidades profissionais”. Fica bem a qualquer director defender a sua equipa. Espero que o profissionalismo deste, indiscutível, lhe permita também dizer à repórter que o que fez não é jornalismo. Porque só assim terá razão quanto à sensibilidade.

Judite de Sousa é jornalista e tem carteira profissional. Todos fizemos já trabalhos maus, com falhas, com erros. Muitos tivemos trabalhos processados. Não devemos, por isso, pessoalizar. Há uma esfera da vida privada da jornalista que tem sido aproveitada, mal, para a atacar, nos últimos dias. Rejeitemos essa facilidade. Embora a repórter deva assumir a responsabilidade de um plano e um texto mal esgalhado, uma carreira de 40 anos não deve ser destruída por causa de uma peça – embora isso tenha acontecido a muito boa gente, de Peter Arnett a Brian Williams.

Judite de Sousa pode, e deve, porque o sabe, converter a sua energia em empatia e vir a público, se desejar, explicar o por quê do seu impulso – provavelmente com razões atendíveis: há muito que não ia para o terreno, sensibilidade pessoal que dominou a sensibilidade jornalística, contaminação do entorno perante o desespero das famílias e do cenário… Há muito que se poderá esperar e compreender, até. A arrogância, porém, não é desculpa, porque descredibiliza quer a jornalista quer o jornalismo. Nesta profissão, já tão desgastada, seria bom reconquistar o tal público com um gesto de humildade. Toda a gente falha.

[foto: Carlos Ramos, revista Sábado/dr]

 

Angola

Angola

Angola é um país soberano há 40 anos. Angola tem problemas, entre os problemas estão alguns angolanos e alguns portugueses, alguns russos e alguns chineses, alguns americanos e alguns brasileiros, alguns militares e alguns civis.

Não pesco nada de Angola a não ser o que os amigos que foram para Angola dizem, o que os jornais dizem, o que o PCP diz e o que se diz por aí.

Angola, asseguram-me, é linda, e eu acredito. Angola tem pessoas boas, isso eu sei que conheço algumas.

Mas Angola é uma verdadeira chatice. É uma maçada enorme porque há um ditador doente que até se diz que morreu ou não está em Angola. Angola é uma espécie de bacoquice vista de Lisboa e um país falhado porque tem milhões de pessoas à fome e à escravatura, à ignorância e ao analfabetismo, embora se receba bem e se ponha a toalha aos representantes de um Estado falhado, como se põe ao senhor prior.

Angola é um tema desinteressante porque a oposição pop, não a séria e resistente, se concentra num monte de ego que é aquele rapaz das greves de fome incompletas, que hoje diz que devia haver um Mandela em Angola, descrevendo-se a ele mesmo nesta enormidade auto-elogiosa.

Angola sem petróleo não era interessante nem para ditadores nem para pedintes, como somos nós portugueses, sempre prontos a ter numa mão os direitos humanos e na outra um NIB para dar a quem queira “colaborar” no investimento doméstico.

Angola tem militares a mais para uma guerra contra civis. Angola tem oligarquia, falta-lhe liberdade, não é uma sociedade aberta e nada, mas nada, tem sequer traços de socialismo ou social-democracia.

Angola é um aborrecimento, porque quando Pacheco Pereira fala o Jornal de Angola responde, o que é apenas ridículo.

Nunca fui a Angola. Não desejo visitar ditaduras e julgo que os portugueses devem ter muita vergonha sobre o que andaram a fazer naquele território. Muita vergonha sobre as fronteiras, a exploração sob escravatura dos magníficos campos, muita vergonha de ter hipotecado a vida de portugueses e angolanos numa guerra estúpida, feita a pedido dos fazendeiros tugas e paga pelas corporações proto-fascistas do Estado Novo.

Angola podia ser um paraíso em África, podia ser uma Nação fabulosa. Tem artes de ficar pasmado, tem pensamento, tem raízes e cultura ancestrais que resistiram à ocupação colonialista – desde a nossa, miserável, até às outras, moscovitas e habaneras.

Mas chateia, o tema de Angola. O candidato da UNITA esteve em Lisboa com ar honesto (desconheço se é, nada percebo de Angola) e, sentado nas televisões portuguesas, dizia coisas a medo, a olhar para a sombra – porque tem de voltar para Angola.

Prometeram-me que Benguela, daqui a uns anos, depois da queda dos déspotas, será a melhor cidade do mundo. Nesse dia abraçarei Angola, os meus amigos angolanos, os futuros amigos dessa terra que não tem culpa de ter sido e estar ainda ocupada por quem pouco a ama.

A ética não vende jornais

A ética não vende jornais

“Não tenhas nojo”, dizia-me um sábio jornalista há 20 anos. “Se tens nojo não vendes nada”. Ele, que tinha nojo, sabia o que dizia. Eu, que tenho nojo, sei bem que não se vende papel sem apelar à coisa mesquinha e rosqueira. Mas não importa, diremos. O que interessa é a ética e a deontologia.

O Correio da Manhã, que é uma marca de jornalismo tablóide mal assumida, fez ontem a Internet revoltar-se contra si mesmo, ao mostrar um vídeo caseiro de uma moça embriagada a ser apalpada por um grunho igualmente ébrio, tudo filmado a preceito por uma terceira pessoa, dentro de um autocarro. Há 30 anos lembro-me de que ia toda a gente para as traseiras dos autocarros nas “curtes” e nos “melos” e, se as cenas eram semelhantes, não havia quem fosse nem filmar nem fotografar. Era lá com eles e, de vez em quando, um gajo apanhava um estalo se enfiasse a mão em território proibido. “Curtir” não era um trabalho de grupo.

Se o CM é líder de audiências, de vendas e de cliques é porque o público gosta do que o CM faz. O modo não é de interesse público e o jornalismo, nestas notícias, rebola sangrando, exangue mesmo. Só que a luta pela publicidade e pelo lucro passa pela audiência e, assim, o CM que entende isto, não se importa de pagar 50 mil euros de multa se conseguir depois mostrar às centrais de publicidade que atinge dois milhões de pessoas por dia – o que lhe garante cem mil euros em publicidade.

A pasta de dentes ou a marca de carros está-se marimbado no “como” aparecem os dois milhões – não tem “nojo”. This is not America, onde os anunciantes fizeram cair o Bill O’Reilly. Isto é Portugal, onde a ética vende entre 600 e seis mil exemplares e a publicidade é pouca. Mais ainda, o CM garante três plataformas de distribuição: TV, jornal, Net.

Esta história do vídeo do autocarro tem uma dúzia de problemas. Eis alguns:

  • A publicação do vídeo
  • O tratamento jornalístico em formato clickbait
  • O alcoolismo que se instala no putos, até à inconsciência
  • O vouyerismo banalizado de toda a gente
  • A repugnante ideia de que tudo é “filmável”
  • O movimento estudantil que se tornou numa palhaçada trajada
  • A aceitação social do regresso das praxes e das queimas como acto normalizador…
  • …e a exclusão social e grupal dos que não alinham
  • A mentalidade de carneirada
  • A banalidade do machismo na sociedade, através de letras e músicas que estão no top
  • O afastamento da Academia e, até, o apoio tácito desta, nas festarolas….
  • …o que provoca aquelas cenas das TVs na banheira

Enfim, são tantas que seria necessário um batalhão de sociólogos, psicólogos, psiquiatras, antropólogos, dentistas e ensaiadores de ballet para discutir o que se passa. Mas uma coisa é certa: o CM é apenas o espelho da sociedade.

Ao lado da notícia das moças filmadas está o anúncio da oferta de posters da pin-up do momento, a N. Senhora de Fátima. Tudo isto em harmonia com o nosso costume tribal de sermos moralistas para fora e filhos-da-puta para dentro e para os outros.

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Truques do CM nas eleições, apelando ao voto na AD (PSD/CDS/PPM)

O CM bem pode agora arcar com as culpas todas, mas devia apenas arcar com as que tem e não com as outras.

Estamos numa sociedade de banalidade autorizada e do nojo instituído. Hipócrita em vez de cínica. O problema não é português, apenas. É transversal e não basta pedir ao Dr. Carlos Magno que nos salve da pepineira, às quartas, para depois haver grunhos a fazê-la, às quintas e sextas, com temas diferentes.