Rio, Bruno e a facilidade

Rio, Bruno e a facilidade

O presidente do PPD, intelectual fácil, anunciou que vai privatizar a Saúde, cortar direitos, especialmente os laborais, fazer regressar os copagamentos até na Educação e, cereja, enviar a Provedoria de Justiça para Coimbra (ou outra cidade qualquer), sem plano algum – cheio de sex-apeal e lições de Nirvana para os “sociais-democratas”. O Helmut citado na FIL devia retorcer-se na campa, ao ouvir tamanhos disparates e, se pudesse, tinha vindo votar Santana.

A diferença de Rio para Pedro (SL) e Pedro (PC) é simples: Rio esconde. Numa semântica que até parece linda, discorre sobre os horrores: a “saúde deve ser lucrativa”, diz ele, com aquela cara de doce. Então não deve? Como se criará mercado para a saúde, Rui, quando o negócio estiver mal porque os portugueses andam saudáveis? Uns pós na água? Um festival da feijoada com grelo?

Para quem queria ouvir Cavaco (pessoas que ainda existem, contrariando todo o darwinismo), ei-lo em metamorfose, larva e cigarra ao mesmo tempo.

Entretanto, polémica sobre as declarações do presidente do clube do bairro, que pede aos sócios que não vejam TV nem leiam jornais. Salva-se a rádio, o que não é mau. O jovem, incomodado com qualquer coisa, bateu no peito à lá “votem-me senão eu baldo-me” e conseguiu que a turba inane aplaudisse, galhofeira, disparates atrás de disparates.

No meio do fim-de-semana a RTP rebaptizou Jota Pê Simões de “Gê Pê” Simões, porque a gente agora é bué anglófila e “J” em amaricano lê-se “Jai” o que, em camões, dá “jê”… Ou, Jê ne sais pá ler ou escrever.

Há um festival de cinema em Lisboa para bebés a partir dos nove meses, segundo uma senhora na Rádio Renascença – espero que os filmes sejam projectados no tecto, sem som nem imagem, para que os putos durmam à vontade. Foi uma ideia de três “mães”, na grande linha de raciocínio de uma senhora que foi ao congresso do PSD e perguntou: “Mas há alguém mais competente que as mães?”.

Há.

Para dar cabo disto, o Bruno e o Rui. Só para começar. E o ministro Cabrita, que sugere às autarquias que vendam lenha para não se queimarem.

Boa semana!

 

 

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“A Forma da Água”, ou a falha em saber dos preconceitos

“A Forma da Água”, ou a falha em saber dos preconceitos

Que preconceitos estão à nossa frente e não vemos? O racismo, vemos. O sexismo, vemos. A ganância, vemos. A intolerância, vemos. A iniquidade, vemos.

Mas Guillermo del Toro e a belíssima Forma da Água, aparentemente sobre uma coisa, é sobre outra, tanta camada tem em cada cena, em cada diálogo.

Disfarçado de filme de ficção, a história só nos inquieta. Há preconceitos que não vemos porque estamos enfiados neles. É tão natural como angustiante. Se o fim do filme parece o fim do filme, o ligeiro herdeiro de Jodorowsky provoca apenas a migração das nossas simples cabeças para a líquida sensação de que estamos agarrados a tanta ideia preconcebida que, provavelmente, a nossa vida assenta em ideias tolas, estúpidas, que impedem uma vida com liberdade.

Falhamos em ver os preconceitos contemporâneos. Nos anos ’80 dizia-se que o último tabu era o incesto. Mas não era, uma vez que o incesto nem sequer entrou na agenda, não é criminalizado, apenas impedido, e apenas aqui – que o mundo é grande e há lugares em que nada significa.

A coisa barata que compramos em plástico e usamos cinco minutos para deitar fora e que durará mil anos, dizia esta terça o Muñoz Molina, pode levar a uma falta de preconceito: o de embarcar na alegria do suporte do trabalho escravo, do Sudão à Malásia, da China à Mongólia.

Mas isto não é preconceito, é ainda falta dele.

O casamento? Talvez ainda haja, mais uma vez a falta dele.

Então, que preconceito ainda não se está a ver? Que ideia está tão entranhada nas nossas mentes que nem damos por falta de vergonha? Que diabo não nos atormenta e devia atormentar? Estamos em falta com que luta? Com que causa?

Neste tempo em que tudo é insípido e rápido, em que a nossa obrigação é ser generalistas de pacote, obrigados a integrar a massa acéfala, a brutalização da mensagem e a sua generalização modal cega-nos de alguma forma. Não o sei, ao certo. Mas é palpável que nos falta uma causa ou duas, advindas da nossa falha em ver o futuro óbvio.

Que maçada.

 

 

MACHISMO Progressista!! Já!

MACHISMO Progressista!! Já!

Chega! Anos e anos de exploração, de benefícios sem sentido, os abaixo assinados submetem à população o manifesto que ora se torna público:

  1. Queremos a igualdade absoluta entre homens e mulheres.
  2. Queremos que nos deixem em paz cinco dias por mês, porque é normal um gajo ter dias sem pachorra;
  3. Queremos que a sociedade não nos goze com um “fostes, fostes”, quando José Cid ou Lobo Antunes revelam que foram assediados;
  4. Queremos que nos apanhem as coisas do chão, mesmo que sejamos mais baixos que a pessoa que vai apanhar – diremos obrigado.
    Queremos usar maquilhagem, saltos como dantes e sentirmo-nos sexys antes de sair de casa;
  5. Queremos ser considerados “sensíveis” e poder comer castanhas sentados num banco de jardim com os nossos filhos, sem ser olhados de lado pelos pérfidos que julgam estarmos a raptar uma criança para a sodomizar;
  6. Queremos fazer a cama e que nos digam: “Está tão boa, amor”.
  7. Queremos que a engenharia genética nos permita fingir orgasmos e nunca, mas nunca, nos sentirmos culpados se não chegarmos lá…
  8. E queremos que nos perguntem se foi bom.
  9. Queremos que nos separem dos gajos que fazem “huuuuu” quando marcam golos e percebam que esses não são os nossos exemplares mais capazes;
  10. Queremos que aceitem que quando olhamos para o peito delas é a mesma coisa que quando elas nos olham para o rabo.
  11. Queremos elogios à nossa culinária que vá além do “jeitinho para os grelhados”;
  12. Queremos deixar os cargos de responsabilidade e viver mais felizes sem elas;
  13. Exigimos escolher o detergente da loiça, da roupa, comprá-los e nunca, mas nunca, ouvir “compraste esse, mas esse a frio tira poucas nódoas de tomate”.
  14. Queremos que nos peçam namoro e nos mandem postais com corações e poemas surrealistas e nos encham a casa de pétalas ou livros espalhados, ou cascatas de cromos;
  15. Queremos estar “tocados” e “alegres” em vez de “podres de bêbados” ou “uma vergonha”.
  16. Queremos que nos deixem à vontade ao olhar para senhoras desnudas, ou senhor desnudos, sem que a mente ímpia da populaça nos julgue predadores: somos apenas animais simples;
  17. Queremos chumbar ao tirar a carta sem ser gozados e gozar da grande primazia de não conduzir;
  18. Queremos que nos façam uma quota de 47% enquanto isto não for ao sítio, uma vez que é essa a percentagem de gajos vs. gajas.
  19. Queremos insultos próprios, como “Filho de Gigolô”, “Volta para o escroto” ou “Se apanho o teu pai f***-* todo”.
  20. Em suma, queremos que o Machismo Progressista veja homens nus a passear-se nos desfiles de carnaval sem o povo bichanar: olha a ala gay.
  21. Queremos andar de mão dada com os amigos e beijá-los como as senhoras o fazem.
  22. Queremos uma Mary Quant só nossa, um Versace só nosso, queremos poder dizer às senhoras “tu não tens mão para isso, sai lá daí” sem provocar uma torrente de lágrimas…

…mas queremos poder chorar se nos dizem a mesma coisa, porque também nos apetece, de vez em quando.

O MACHISMO PROGRESSISTA deplora os feminismos e machismos retrógrados. Queremos salários iguais para, com legitimidade, estar fartos da mesma forma.

Fartos da desigualdade e do preconceito. Da estupidez. Da paróquia.

Filhos da IURD

Filhos da IURD

Um bicheiro que mandou capar os empregados, a que chama bispos, deu-lhes ordem, arrependido dos trazer ainda mais lascivos e livres, para adoptarem criancinhas. Os ditos, vazos de futuro, acorreram à Amadora, a tragar o sangue dos infantes e a enganar famílias crentes. No meio, alega-se, a Segurança Social, que é uma casa de tias bem, dizia ao Juiz que pusesse os órfãos ao cuidado da roda ilegal e, nisto, o tribunal que é burro, punha.

A mãe dos órfãos declara-se vítima de uma mentira: disseram-lhe, que ela não sabia, que era sidónea – uma pessoa idónea com SIDA, e andou a crer em tal espanto mais do que permitia a doença humana. Era, diz, o que lhe impedia a feliz vida com os pequenos.

Roubados por incúria a sua casa, os pobres catraios vão dar de costas, por indicação de alguém que ainda não se percebeu bem quem, à tal casa dos bispos capados, decerto mais segura que muitos seminários. Sublinhe-se, oh tormenta, que tu, notícia, és apenas e só esse mistério de quem diacho autorizou putos em casas de passe ilegais. Mas tu, oh notícia, teimas em ficar para o último episódio.

A arte pode ser a de inverter a pirâmide invertida: só no fim é que te conto tudo. Até lá vendo champôs e perfumes com anúncios de modelitos escaldantes. Estarás cada dia más caliente, caliente. No último episódio saberás quem foi a assistente social paga pelos maléficos redentores que andava a enganar os juizes locais. Mas até lá, e só por respeito, notícia, terás de te contentar com esse lugar de espectadora.

Reabre o pano. Os bispos tentam, à boca de cena, n’outro tribunal, reunir a coragem retirada a químicos para processar o louco emir do reino de capadócio. A secretária reage com raiva nos dentes ao saber que as criancinhas que raptara ilegalmente da família da Amadora afinal, note-se, estão tristes. A filha do bispo era mámãe. Buuu.

A especialidade do louco bichano fora a lobotomia em massa, a vasectomia selectiva e, afinal, o rapto qualificado de adopção, quando se arrependeu de ver tanto órgão de igreja sem função.

Mas espera, notícia, espera.

Ainda se há-de saber quem indicou a porta metálica para destino pútrido de tanta gente. A gente espera. “A gente não lê”.

100 anos de comunismo e não

100 anos de comunismo e não

Um sogro inteligente disse-me: “Se o comunismo fosse mau para os trabalhadores, os patrões eram todos comunistas”. Este sogro, que não é comunista, resumiu numa frase a importância do comunismo, a sua força e a sua ideia.

O planeta tem a mania de confundir o Comunismo com os partidos comunistas. Percebe-se. Mas falha-se. Marx nunca conheceu Lenine, Estaline ou Trotski. Engels nunca andou no Outubro a desfilar.

A diferença entre a ideia e a organização partidária tem muito da diferença entre religião e igreja. Acima de ambas está a crença, ou a ideologia.

É a ideologia, que começa antes de Marx mas que este sabe fixar, nascida na soturna Manchester, que se deve comemorar. A ideia de liberdade e igualdade. A ideia da coisa comum.

Não há regime sem senão. Os que hoje apontam ao comunismo como tendo matado milhões são os mesmos que batem no peito com a desgraça dos “descobrimentos”. Putin, o czar da coisa nova que é a Rússia oligárquica, faz o que Estaline fez: aproveita-se dos mecanismos de controlo que qualquer poder dá e aplica-os de forma desumana.

O catecismo partidário-comunista é igualmente aterrador. Qualquer catecismo o é. Impedir o livre pensamento e a pergunta quando se tenta passar uma ideia que se baseava, ainda, em Hegel, é a mesma coisa que ensinar a desfazer bolos de arroz ou bacalhau à Gomes de Sá: é fazer ao contrário.

O comunismo não é o que dele fizeram os partidos que se disseram comunistas. É uma teoria geral progressista, atenta à exploração do homem pelo homem, a caminho de uma liberdade individual que se exprime, depois, no mérito de cada um perante e entre o colectivo. É uma teoria da esperança para os que pouco ou nada têm. É a resposta capaz no tempo em que se dormia nas fábricas, se faziam filhos nas fábricas e para as fábricas. Onde o “personalismo”, essa coisa mal interpretada, era respeitado na condição comum do que cada um pode e deve ser perante o meio, a sociedade, o outro.

Hoje, 100 anos e um dia depois, não se comemora 1867, data de edição d’”O Capital”. Nem tampouco Sartre, a Simone ou Dawkins, já para esquecer Feuerbach. Mas devia. O pensamento destes e de tantos outros, os romances de Manuel da Fonseca ou de Manuel Tiago [Álvaro Cunhal], o que nos deixou Soeiro, devia ter um lugar central na sociedade que se diz agarrada ao progresso.

As máquinas que substituem as pessoas no trabalho não pagam segurança social.

A segurança social é um peso na cabeça da maioria – mal, mas é.

O povo não é quem mais ordena, é quem mais definha – mas agora, nesta “terra de maravilha e aguarelas”, definha feliz, consumista e deprimido. Parece contraditório, mas não é. É apenas a base da gratificação imediata, a tal que o comunismo sempre execrou, que está em Pavlov e em Maslow.

Sempre me pensei comunista, sempre  me pensei longe dos partidos ditos comunistas. E mais ainda dos que brincam ao comunismo e fazem de Ché e Trotski uns santos de capela. A boina do Ché, então, é uma das mais mercantis manobras atrevidas.

Mas comove-me este Outubro, a esperança nos olhos e nos braços dos russos coevos e dos europeus que olhavam com o coração à espera de uma terra sem amos.

Quando sanarmos a questão da organização, num partido que não precisa de paredes de vidro porque nunca ninguém desconfia de ninguém, quando a civilização lá chegar, ficarei ainda mais feliz.

Dirão: isso é Kropotkin. Se calhar, é.

Viva a liberdade.

Mulher adúltera a mim não me convém…

Mulher adúltera a mim não me convém…

Homem que é homem não aceita que Marlene ou Soraia, com quem casou depois de namorar dez anos, desde o 9º ano, e a quem tratou como serviço de limpezas, catering e limpa vómito se desdenhe dele e vá à procura de romance. Homem que é homem, para o neto de moura, se dá tabefe, canelada e com uma porra no lombo da Andreia, sua escrava, tem desculpa.

Aquilo era demais para o homem que é homem: que importa se ele não lhe deu um beijo nos últimos seis anos e se conhecia melhor os dramas da musa da casa de strip do que da Floribela com que casou. Mal por mal, ela foi ao altar de grinalda e vestidinho branco, jurar fidelidade para todo o sempre.

Ele, coitadinho, tanto trabalho, ele, suspirava ela às poucas amigas – que homem que é homem anda sempre com radar a ver se há amigos e logo os proíbe – nem um olá, um obrigado Cátia Sofia, nada. Mas a mãe bem lhe disse

os homens são assim, filha.

E os homens como são “assim”, não topam que elas como eles, e vai daí quando lhes entra um Adónis de Cedofeita na vida, a desfolhar-lhe a trigueirinha que se tinha por certa, salta-lhes a tampa. “Mas tua mãe não te disse que os homens são ‘assim’, Sãozinha?”. E vai de desenhar-lhes na cara o arquipélago dos Açores a costas de mão cheia.

Mas a culpa é delas, assegura o neto da moura, que assevera que essa balzaquiana que despreza o senhor padre e nosso senhor é ” falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral. Enfim, carece de probidade moral“.

Não nos incomodemos nem espantemos.

O neto da moura é a voz popular do que somos.

Desconheço se nos passeios pelo largo de S. Paulo alguma vez o magistrado subiu ao segundo andar de um prédio que lá havia e a seguir se confessou, mãozinhas postas e escroto cansado. Provavelmente nunca pensou na net para a masturbação e anda a ajudar o Carlinhos Alexandre à missa.

Ou nada disto.

Mas para citar livros de ficção nas sentenças, que escolhesse o Al Berto ou o Eugénio de Andrade, só para confundir. A ser-se versado em cornadura, valia-lhe mais Bocage ou mesmo o velho e bom cancioneiro.

A sociedade ri-se quando elas lhes batem e demora-se em gravidade quando eles lhes dão. Há um duplo critério, uma discriminação positiva que ainda faz sentido enquanto houver:

  1. netos de moura;
  2. piadolas sobre quando o Benfica perde.

Mas espero que o namorado do neto da andaluz nunca lhe pise o ventre com tacão de flamenco, ou pelo menos que nunca o faça para que ele goste.

Juiz católico a mim não me convém, como não me convém a enorme palhaçada da maioria dos casamentos “pela igreja” em que ambos nubentes nem sabem quem é deusnossenhor. A hipocrisia, que Descartes nunca percebeu estar acima do bom senso no negócio da distribuição e partilha, leva-os de fato e a elas de branco. A hipocrisia está, ainda mais, em existir essa coisa chamada

casamento

que é uma espécie de invasão da privacidade por parte do Estado – que apenas herda, nos netos de moura polvilhados pelo planeta, a estúpida ideia de que a sociedade deve sancionar quem se ama.

Eram coisas que já acabavam: a pancadaria, os netos de moura e o casamento. E, citar a bíblia, devia estar reservado a teólogos e ateus. São dos poucos que a entenderam.

Porque o mourisco descendente podia ter ido mais longe: é que as mulheres que lavavam o cabelo para ficarem mais belas acabavam invariavelmente no inferno, penduradas pelas melenas. Mas como isto está no apocalipse de S. Pedro, livro rejeitado, o neto não conhece.

Nem Pilatos Rebelo de Sousa nem Trapalhada Costa. Assim, não.

Nem Pilatos Rebelo de Sousa nem Trapalhada Costa. Assim, não.

Assim não.  Nem a mata da chamusca nem a faca nas costas espetada por Constança Urbano de Sousa nem, sequer, o miserável discurso de Marcelo Pilatos de Sousa, a meter-se na vida dos partidos e do Governo. Nenhum sai bem, todos mostram a falta de sentido de Estado, de oportunidade, de civismo político e de humanismo.

Vamos por partes, que não é simples.

A crer que Constança Urbano de Sousa pediu demissão e que Costa não aceitou, o primeiro-ministro, sem querer, tem de explicar porque aceita agora a demissão desta forma, 12 horas depois de um puxão de orelhas inaceitável do Chefe de Estado. Costa soçobra, com ele a ministra e o secretário de Estado, a um dos mais manhosos e diletantes golpes que um Presidente já fez.

O que Costa tem de fazer, imediatamente, é convencer o Bloco e o PCP a absterem-se na Moção Cristas e cair, enquanto é tempo – para ir às urnas limpar o ar. Mas ao aceitar o tau-tau infantil de Marcelo, fica provado uma coisa: Costa é esperto e manhoso, mas Marcelo é esperto, manhoso e inteligente – por isso vencedor popular da contenda, ad eternum. Só com pensamento político sólido e estratégia clara é que o PS pode safar-se desta fase com a dignidade que tinha em Maio deste ano.

O PS deve forçar eleições. O momento é o ideal: o Orçamento pendurado prejudica os trabalhadores todos, Marcelo fica responsável pela queda e PCP e Bloco estarão em campanha sem ter tido tempo de se afastar do Governo que apoiaram.

Mas, temo, não há no PS esta densidade política.

Depois, Marcelo.

O discurso populista e demagogo do Chefe de Estado é indigno. O que faz Marcelo indignar-se aos 100 mortos que não o fez indignar-se aos 63? Ou aos 30? Ou aos 10? Há um número na cabeça de Marcelo a partir do qual é inadmissível o que quer que seja?

Na sua inteligência e genialidade literária, Marcelo condicionou o Governo, mas preferiu ir a Oliveira do Hospital do que usar as armas presidenciais. Foi ao velório da vítima apelar à turba que linchassem o homicida. Errado, quer do ponto de vista ético, quer do ponto de vista da correcção política.

Marcelo podia e devia ter enviado mensagem à Assembleia da República, podia e devia ter estado no Conselho de Ministros de Sábado, podia e devia ter reunido o Conselho de Estado – que ele banalizou como sala de visitas de dignitários estrangeiros e não como órgão de consulta do Presidente.

Isto é: Marcelo puxou à lágrima mas depois espetou a faca no cadáver. O professor de direito e constitucionalista eminente virou as costas à lei fundamental e fez o que quis do cargo que a população lhe deu, dado o seu estrelato televisivo. E fê-lo bem, do ponto de vista cénico.

Uma indignidade política, porém.

Por fim, as armas de Tancos. É tão inverosímil a historieta de que a GNR de Loulé (!) e a PJ Militar tenha encontrado 44 G3 na mata da Chamusca, logo esta quarta-feira, que o Governo tem de pintar-se com tintas de camuflados para fugir à galhofa geral.

A necessidade de se proteger de Marcelo, evitando segundo ataque do PR ao melhor estilo Teresa Guilherme, sobre Tancos, terá aconselhado os spin doctors do Governo a lançar a notícia meia hora depois da demissão de Constança Urbano de Sousa.

Uma trapalhada tão estúpida, quer política quer de comunicação, que volta a cair em cima de Costa o gume da falta de estratégia inteligente.

A esta hora nenhum português acredita que havia armas na mata da Chamusca. Nenhum português valida positivamente a demissão da ministra que, de saída, dispara contra Costa. E poucos portugueses perceberam que Marcelo se meteu onde não era chamado, pisando até os riscos vermelhos da CRP, muito mais suave mas grave que a inutilidade Silva, o anterior ocupante do palácio.

O trabalho deste governo e desta maioria parlamentar é bom. É sólido. É conseguido.

Será pena, por ingenuidade política, teimosia pessoal e falta de densidade estratégica que vá tudo para o lixo, na mata da Chamusca.

 

(imagem: Lusa)