O tonto ódio ao Turista

O tonto ódio ao Turista

Já cá faltava o “orgulhosamente nós”. As cidades que nunca se habituaram ao novo têm população que agora quer descartar um produto de exportação que lhes dá emprego e vida. Mas mesmo assim, culpamos os outros, os turistas, como se fôssemos santos.

Anda aí uma onda de ódio ao turista. Ele é porque a Baixa não é a mesma. Porque andam a deitar idosos fora em prédios antigos para fazer pensões modernas. Porque empatam as cidades naquelas motoretas horrorosas a que chamaram tuque-tuque.

O turismo não faz mal a ninguém. No nosso caso, a mentalidade bacoca e a ganância é que fazem mal ao turismo. Vamos por partes.

Primeiro, não há nem houve planeamento algum para que as cidades suportassem o turismo. Apesar da previsível opção por países mais calmos, depois dos atentados a eito, Portugal não se preparou devidamente para receber quem lhe compra o grande produto de exportação. Os assuntos são discutidos em cima do joelho quando os problemas estão a acontecer.

Ninguém ordenou a mobilidade dos turistas, essencial, e vai daí toca a apitar contra o tuque-tuque. As autarquias e os Governos deviam ter pensado, há anos, quando a primeira motoreta chegou importada das Índias, que devia haver espaço para todos. Em vez das ciclovias, das faixas Bus e Turísticas, da regulação do trânsito dentro das cidades e do estrangulamento legal da circulação automóvel selvagem,  que era prioridade para habitantes e visitantes,  nada feito. Nada pensado, tudo atabalhoado e mal resolvido, em cima do joelho, com cada cidade a ditar sua sentença. Culpa do turista? Que mal fez o Sr. Sommer no planeamento da mobilidade? Que culpa tem a senhora Dawkins? Ou a menina Kim?

O domínio do espaço hoteleiro era dividido entre uma mão cheia de grandes grupos e umas senhoras, todas do pregão “chambre, zimmer”, ensinado na Escola Profissional do Engate da Nazaré. Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro não se prepararam para a chegada mais do que previsível dos Bed&Breakfast, as pensões modernas e armadas ao pingarelho. Anda agora o Parlamento a tentar legislar uma coisa chamada “Alojamento Local” (AL), como se houvesse Alojamento Exterior ou Alojamento de Algures. A ganância dos proprietários Patos Bravos tem demonstrado a sua ferocidade quando até pedem a donos dos prédios vizinhos que “fiquem com os velhos” já que não querem transformar os seus prédio da Baixa em AL. Despejam pessoas à cata de coreanos e japoneses, alemães e suecos, o dólar o dólar. Os que querem fazer bem, lixam-se, sem capital para tanto imposto e falta de advogado e cunha. Culpa do turista, esta voragem?

Ai, a Tradição

Outra queixa é a grande “descaracterização” dos centros da cidade e das zonas históricas. Aqui, só nos podemos rir. “A Baixa está impossível”. Por quê?, pergunta o incauto? Está abandonada e com prédios a cair? As lojas estão todas a fechar? Às oito da noite aquilo é um antro de vendedores de louro e noz de cola? Os transportes públicos cheiram a urina e acabam às dez?

Ou, por causa do turismo, as Baixas deste país retomaram vida, abriram novas lojas, estão pujantes?

Há, claro, um problema, mas não é do turista. É da ganância. As novas vidas das Baixas fazem-se com preços elevadíssimos e com a usura habitual dos locais, que qual Zézé Camarinha da restauração e do recuerdo, tentam sacar 40 euros por uma posta de bacalhau mal cozido e um azeite tão misturado com óleo que dava para 100 quilómetros num Renault 5.

Dizem: “A grande vantagem do turismo em Portugal são as pessoas, o seu povo afável e acolhedor”. Até pode ser. Mas também somos um povo subserviente e que, à primeira dificuldade na nossa augusta e escondida manha de enganar o estranja, querê-lo-emos de cá para fora.

A culpa não é do turista. É da nossa falta de visão e do nosso entranhado orgulhosamente sós, gananciosamente nós.

 

 

 

 

De um amor que passámos

De um amor que passámos

Nunca to disse porque pensei que me dirias qualquer coisa de final. Um aspecto estranho e ficaria cheio de acabrunhados medos e sensibilidades. Pensei até no meio da frase em que ia acabar. Podia ser “e se não quiseres, não faz mal”.

Ontem, era quinta-feira.

Pouco importa, agora que te meteste no Mini, dos novos, todo fandango e senhorio, eu a pé ou de metro ou, pior, vê, à boleia, uns adultos aqui metidos que ainda nos fazem órbitas e eu a pensar que a meio da frase ganhava coragem e dizia mais qualquer coisa, mas tu estavas longe e eu fiquei.

Ontem, quinta-feira, mandei uma mensagem e tu respondeste, e eu disse logo que ia ter contigo apesar das centenas de quilómetros (não faço ideia do que sejam centenas, nem quilómetros, mas disseste que sim) e logo fiz a máquina andar para poder estar aí.

Hoje é sexta.

Estivemos duas horas a ver se os anos que nos separaram tinham deixado dano. Primeiro, fizeste aquele ar de sempre, o que me deixou mais inquieto, mas depois eras mesmo tu. Eu desenformado, com cada músculo a contrariar o cérebro, tu a fazer de conta que foi ontem, eu a ver-te ainda loirinha com a maquineta dos diabetes e a correr para ti, “estás bem?”,tu nada a não ser com os olhos, eu à espera que não subisse dos 200 e tu a passar a mão pelo meu braço.

Tínhamos oito, somados 16, mas nem agora temos 16 sozinhos.

Quando te vi, nem nunca te direi isto a não ser que cases comigo e eu contigo, quando te vi não mudaste e eu não mudei, era a mesma coisa, O teu casaco cor-de-rosa, apesar de estares com manga-curta. A tua mochila pesada, apesar de teres apenas uma bola de futebol e um sorriso de quem deseja.

Sabes, por estes dias percebi que afinal eras aquilo que nunca percebi.

E hoje, por ser sexta-feira, dia em que nos despedíamos para o fim-de-semana e que hoje, sexta-feira, lá te disse adeus para sempre porque vais para longe, hoje dormirei a pensar no que fosse, ou fora, ou mesmo no que será. Dou-te um beijo, demoro-me a deixar-te com a tua mãe e os teus avós.

Amanhã é domingo, vê tu.

Abril, sempre!

Abril, sempre!

A minha geração inteira só via a primeira mulher nua na enciclopédia Verbo de saúde, era desenhada e tinha ao lado um homem nu. Convenientemente, era tudo a duas ou três cores, pálidas, sem sombra de pecado.

A segunda mulher nua pode ter sido cousa incauta, mas a verdadeira, aos que se davam ao luxo de ver cinema e reparar em pormenores, foi Abril, Victoria Abril. Era quase no fim, quando o Mário “Henrique” Viegas se dispunha a enfrentar o velório e a entregar-se.

Devíamos ter todos escrito uma carta a Victoria Abril, ao som de Gulty, a dizer-lhe que mais do que o peito, era o vestido e o salto alto da Anahory e da Julieta Santos que nos deixava num estado catatónico, à beira do salto no Guincho.

Houve muitas Amelie, o Fonseca e Costa até nos tentou dar uma serena, mas a excitação moraria sempre em Abril, sabe-se lá porquê, pequeno-burgueses mal habituados, alentados a palpitações do Largo da Graça – um dia hei-de conseguir num velório, como o David escreveu.

Não era só o peito, nem o olhar, nem sequer o menear das ancas, éramos nós que estávamos à mercê do telefonema enganado, da limitação absoluta da nossa falta de confiança para qualquer enamoramento. Andávamos com o Alberoni e pouco mais. Só depois do pulo apareceu o Machado Vaz a dizer que aquilo era normal, mas era tudo menos normal estarmos excitados, assim mesmo, excitados por Abril com nome e voz de Maria.

Estes dias, o segundo canal passa de enfiada a obra do mestre e ontem, ainda ontem, era 1984 e Portugal não tinha perdido com a França, a Gina custava 80$00 às escondidas na velha do quiosque, em segunda mão –  e ouvia-se gritar nas ruas e paredes que não se tinha “cumprido Abril”.

Secretamente, sem saber do que falavam, concordámos. E esperámos salientes mas mofados até ver as portas que Abril abriu.

Até que foi um poema e filme e dança e, em tanto caso, velório. Mas Abril. Abril, sempre!

Já não se pode com tanta virgem, cigana, ano(r)mal

Já não se pode com tanta virgem, cigana, ano(r)mal

Um gajo é um gajo, uma gaja é uma gaja, uma mata suja tem palha, um cigano é um cigano, um porco com um buraquinho em cima é um mealheiro.

Um alentejano é um alentejano, um candidato do PSD a Loures é uma besta mas um cigano é um cigano e não há cigano que não tenha orgulho em sê-lo. O Gentil Martins é um médico e não é por isso que não pode ser uma besta, ninguém lhe pediu comentários sobre os costumes ou que legislasse sobre os valores. Separava pessoas que não queriam estar juntas e mudava peças de forma brilhante.

O Ronaldo é uma estrela e o que as estrelas fazem serve de modelo a muita gente que não pensa pela própria cabeça. A Georgina está grávida e isso é bom para ela. As marchas de orgulho gay são tão estúpidas como as marchas de Lisboa, mas nem os gays nem os lisboetas são obrigados, por lei, a gostar de ambas e a identificarem-se com tal.

Um gajo pode querer ser gaja e uma gaja pode querer ser gajo. Eu defendo há muito que o casamento não devia ser regulado pelo Estado, que nada tem com os sentimentos das pessoas. O Estado também não deve ignorar a base biológica dos cromossomas embutidos. Homem que é homem tem o Y e contra isso, batatas, talvez um dia possa mudar a estrutura toda, deixe a genética.

O preconceito e as visões de costume serôdias precisam sempre de combates desequilibrados. Os movimentos sindicais e sufragistas, os republicanos e os anti-esclavagistas tiveram de, por décadas, gritar mais alto do que era preciso, para que vencessem os seus bons valores. Recorrer à bomba e ao tiro foi preciso. A sociedade move-se, assim mesmo, por causa dos botas de elástico. É a consequência de quem tem medo que as coisas mudem.

O candidato Ventura é um populista demagogo, à caça do voto fácil, que diz coisas aparentemente populares. O médico Martins não gosta de pessoas do mesmo sexo que gostam umas das outras. Estão no seu direito e podem dizer o que querem. O problema é haver ainda tanto tonto a dar-lhes de comer.

Repito: um gajo é um gajo, um cigano é um cigano, um cachimbo porém nem sempre é um cachimbo, e é a arte de não se ser cachimbo sendo-se cachimbo que nos transporta ao polegar oponível e à pequena glória que fez o cérebro sapien sapiens.

Eu quero que o politicamente correcto morra, que me maça depois ouvir o outro lado dizer que Ricardo Quaresma é um exemplo de um cigano de sucesso. Ou que os gays “também amam”. Arre gaita para a sociedade que ainda tem de dizer o óbvio.

Um mês depois de arder Pedrógão as matas continuam cheia de palha e pasto seco e a arder com alegria. Uma incúria é uma incúria. Cinco militares demitidos regressam do degredo. Uma palermice é uma palermice. A Vodafone e a Nos já usam a frase de Costa no telemarketing.

Está calor.

Os amigos que não dizem que fazem anos!

Os amigos que não dizem que fazem anos!

Calha a ter dois amigos muito chegados, provavelmente os muito chegados, que não abrem a boca para anunciar que se aproxima a data de aniversário deles. Calam-se bem calados e põem à prova a memória, a agenda e até a fraternidade. Eu, que nem do meu me chego a lembrar e me esqueço, durante o próprio dia que raio de data é, fico sempre entalado e em falta. Tal como no ano passado, também este anos me esqueci. A um ainda lhe liguei três dias depois. Ao outro, ainda não, porque vai, decerto, dizer-me das boas. Valente cobardolas, ando aqui a ver se lhe passa e depois ligo-lhe já com voz de tenor.

Os amigos, estes dois, muito chegados, provavelmente os muito chegados, têm toda a liberdade para exigir que eu me lembre em que dia nasceram, uma vez que se não tivessem nascido a minha vida seria bem mais pobre. Mas uma pessoa habituou-se a que o Facebook nos lembre estas coisas.

E vejam bem. Um, decide todos os anos mudar a data de aniversário: ou calha a 1 de Janeiro, ou na revolução de Outubro, ou no dia do festival do porco… Eu tenho mais ou menos a noção de quando é, mas o engodo é inadmissível.

O outro, para glória do mundo que gira, limpou a data de nascimento lá do Facebook, porque está a caminhar para Júlio Isidro – ainda sequinho de carnes e rijo de cabeça, mas já com as manias das tias da aldeia: “Já nã me vêns vêr, caspinhe, já nâ gostas da prima…”.

Eu, que os tenho por dois amigos muito chegados, provavelmente os muito chegados, sinto aquela culpa cristã de não dar nem uma nem a outra face. Nem lhes dou os parabéns a tempo e horas mas também não quero levar um chorrilho (diferenciado) de desdém e desprezo, muito notável na voz de ambos, embora de diferente forma.

Assim sendo, fica o aviso a estes dois amigos muito chegados, provavelmente os muito chegados, e aos outros que chegados são: sem aviso prévio não consigo coordenar nada. A idade não perdoa e nunca bebi Piz Buin, que dá umas capacidades fabulosas para que as pessoas se lembrem dos aniversários dos outros.

O único calendário que tenho é na redacção, custou um euro, tem uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e ainda repousa na página que diz “Feliz 2017”, em letras garrafais. Nem a Janeiro/Fevereiro chegou. No telemóvel faz-me aquilo confusão: no meu alarme para acordar aparecem as palavras “pão, tabaco e feijão verde”, coisa que lá mora há mais de dois anos.

Por isso, fiquem sabendo que por muito que vos queira, não me importa em que dia nasceram mas sim que o fizeram. Porque sem vós seria muito mais pobre.

E já agora não se esqueçam.

Enquanto estavas deitado

Enquanto estavas deitado

Vieram umas espirais e detestaram isto: outra vez a união nacionalizada e todo o povo privatizado. A graça de deus retomou o seu lugar político e a hegemonia sonsa fecha as portas que um mês de Abril.

Há solidariedade vocabular, o que não é mau. Temos pena. isto é: temos mesmo pena, o sentimento. Gostamos disso, dá-nos superioridade moral para albergar o outro sem nunca ser solidário, senão na palavra. Por isso se reage com grande fantasia ao concurso de canções com a pena de ver a tragédia do homem antecipadamente morto a ter uma glória perante todos. Em suma, servimos um mártir e ganhámos – e temos pena.

Não há culpa. Nunca há culpa. Há circunstâncias que nos levaram a isto. Os adágios são paternalistas e insulta-se Jocasta por causa do filho que estaciona em segunda fila – até a própria ignorância é justificada porque nunca se deu tal coisa na escola…

Ninguém se zanga – amuam. É melhor amuar, nesta concórdia semelhante ao barco que ficou de lado. Melhor assim, adernar  e ficar com quilha ao sol.

Não é nosso. Pode ser universal.

Tengo miedo del encuentro 
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida.

Tengo miedo de las noches
que pobladas de recuerdos
encadenen mi soñar”.

De acordo com o que sabemos, enquanto estavas a dormir o canal 200 continuou a transmitir o altar do mundo, para grande indiferença de todos. Informações gerais sobre o trigo ou a preia-mar estavam disponíveis mas senão os ébrios e optimistas olharam para tal coisa – os optimistas esperavam ver o milagre.

Nas escolas e nas catequeses (que são a mesma coisa) ensina-se todos os dias a pequena traição e o grande poder do mestre. A liberdade de ser quem queres, fá-la perante os moinhos, antes que puxem Sancho ao teambuilding e transformem a parelha e o par em sãos consultores da tragédia.

Está um domingo de sol, mas Grade sabe que a minha pátria é o Sábado.

E era o sábado e já passou – antes de dormir.

Um fascista morto desenha faróis. Um.

Em defesa da Tolerância de Fátima

Em defesa da Tolerância de Fátima

Há um ar mal agradecido no ar no que toca à doação de balda para ir ver o padre Bergoglio ajoelhar-se perante uma action figure. Soez a maledicência dos trabalhadores do privado que estão mais preocupados em não ter dia de férias ou ter que aturar os filhos que não suportam.

Os comentadores andam a poluir os jornais e as hertzianas conta o Governo, quando se deviam era virar para a Sonae ou para a Jerónimo Martins, acusando-os de não respeitarem a fé de muitos dos seus funcionários que, decerto, desejam ir a Ourém arrastar-se pelos artelhos e pagar promessas.

Uma sociedade laica e, acima de tudo, pós-teísta, pode determinar tolerância de ponto quando lhe apetecer: quando se ganha no futebol, quando o Papa vem cá, quando o Bob Dylan der um concerto à borla.

Estas reacções idiotas surgem porque há pseudo-democratas laicos em Portugal que convivem mal com a liberdade religiosa e estão muito arrenpendidos de não serem católicos praticantes. Parece que não sabem o que dizem quando se afirmam agnósticos (que recusam reconhecer e conhecer) ou ateus (que estão vãos de teísmos).

No Carnaval ninguém se vem queixar de cirurgias adiadas e dias com putos às costas. A hipocrisia é gigantesca, numa nação que ainda se declara, através do povo, católico na maioria.

Os críticos têm é dor de cotovelo. Costa fez bem. Não é Rosseau nem Montesquieu que estão em causa. É esta militância burguesa de caviarzito de viveiro que não percebe a dimensão espiritual e que só olha para o seu umbigo e a falta de tolerância do ponto do mesmo.

Este vosso, que sobre Fátima tem a mesma ideia que o Tomás, quer que os privados se sindicalizem e que não sejam tão egoístas e invejosos. Assina quem nunca trabalhou para o Estado.

Abraço!