A morte era melhor que Portugal, dizem 43 almas

A morte era melhor que Portugal, dizem 43 almas

Isto não é num sábado que se muda. E esta falta de crença, fé, esperança e futuro no que é o Estado, no que somos todos nós, é a mais grave, profunda e trágica revelação dos incêndios.

Como morrem 43 pessoas, dispersas no tempo e no espaço, em apenas 12 horas, por causa de incêndios? Se o tema é a vida, que absurdo aconteceu para 43 almas perderem a vida, da Guarda a Vouzela?

Sejamos claros: das 63 vítimas de Pedrogão, 47 faleceram na famosa “estrada da morte”, um infortúnio dramático. Mas se estes retirarmos, pela excepcionalidade dos seus excepcionais falecimentos, restam 16 vítimas, a maioria das quais localizadas e explicadas pelo cerco a uma aldeia.

Agora temos 43 mortes espalhadas e isto é mais grave, mais preocupante, menos compreensível.

As pessoas não sabem do perigo de um fogo?

As pessoas estavam a dormir e foram consumidas pelas chamas durante o agonizante sono?

As pessoas não obedeceram a alguma ordem de evacuação? Ou não houve sequer aviso?

As pessoas, de tanto desacreditarem no Estado – que os esbulha no Fisco, que lhes cobra na saúde, que os engana no desemprego -, já são insensíveis a bombeiros, GNR e fazem delas mesmas os seus chefes de Estado, que são elas mesmas?

As pessoas estão deseducadas e não comprendem que um balde não é um auto-tanque?

As pessoas foram intencionalmente mortas por incendiários, que as rodearam de chamas, de forma tão pérfida, que não havia para elas salvação?

As pessoas desesperaram sem rede de telemóvel e telefone e morreram agarradas a agonizantes pedidos de socorro para um 112 que não funcionava?

As pessoas tentaram fugir e fugir e fugir e tolheu-se-lhes o juízo e embarcaram na sua própria morte?

Este sábado vão organizar tudo e mudar tudo. Mas por decreto não se muda nem se percebe porque morrem dois irmãos a salvar galinhas e vacas.

Paulo e João, 29 e 33 anos, morreram carbonizados em Vila Pouca da Beira porque sem as vacas, as galinhas, não viam para si futuro algum. Preocupados com o avô, que lhes dava sabedoria e andava desaparecido nas chamas, não viam para si futuro algum.

Paulo e João, 29 e 33 anos, preferiram o preço das chamas a acreditar que o país, todos nós, estaríamos com eles depois de tudo arder.

Portugal é uma farsa nos nossos inconscientes e subconscientes. E talvez por isso muitos, sentido-se tão sós, sem presente nem futuro, olvidados pelas cidades, denegridos pelos start-uppers e burlados pelos opinion makers, enganados pelos políticos celestiais bruxelenses e terreirenses, talvez por isso os meus concidadãos se tenham afoitado demais.

Sem história, nem passado nem memória, sem vinco nem horizonte, talvez por isso a labareda.

 

 

(Foto JFS/Global Imagens)

 

 

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Catalunya progressiva

Catalunya progressiva

Aclaremos: um Estado tem povo, território e governo. A Catalunha tem. Uma Nação tem um povo com valores culturais, sociais, éticos comuns. Desenvolvem-no no tal território sob regras comummente acordadas e asseguram a defesa, a paz e o modo de vida comum. A Catalunha tem quase tudo. Há muitas nações sem território e sem uma soberania territorial constituída. É o caso catalão.

Pouco importa discutir se, desde a idade Média, alguma vez a Catalunha foi, de facto, independente. Menos importa ainda a coincidência dos nacionalistas culparem Filipe V e sejam agora reinados por Filipe VI. Ou se houve um referendo ou uma pipoca política no calor das ruas.

A Catalunha é uma região Europeia bem estabelecida, como a Galiza, Portugal, a Flandres ou as ilhas francesa e italiana entre Barcelona e Génova.

Os catalães têm todo o direito a querer ser independentes. Porém, num continente europeu dilacerado pelos egoísmos nacionais, mais um país independente teria apenas braços fechados e facturas a recebê-lo. Na União Europeia paga-se para entrar, para estar e para sair. É o acordo, quem não quer não está.

A declaração de uma independência “progressiva” da Catalunha leva o caminho do Estado Federal de Espanha. Contentará metade da metade que quis ser independente. Mas a outra metade da metade, a republicana, não ficará satisfeita.

A monarquia espanhola, aliada a um Governo decadente e rodeado de escândalos e de ineficácia, fez o que as monarquias mal amanhadas fazem: ameaçou os súbditos com mais força e mais surdez.

Rajoy, um erro na História de Espanha, tenta por tudo não parecer um verdugo – ele conhece bem a luta galega e o seu patrão espiritual, D. Fraga, bem lhe explicou o que pode fazer um povo ferido. Foi naqueles tempos em que Mariano nasceu que o galego deixou de ser ensinado na escola e os de Madrid inventaram uma língua mista e inenarrável – que já quase ninguém usa.

A Catalunha, entregue hoje a radicais nacionalistas como o Puigdemont [puitchdemôn], a radicais de encomenda, como os que este domingo encheram Barcelona, a radicais imperialistas do capital, como os das sedes dos bancos e seguradoras, merecia mais e melhor.

Não cabe a nenhum de nós determinar o destino de um povo. Por isso, apesar da simpatia por todos os republicanos espanhóis, isso não me basta para estar feliz com a trapalhada absurda criada pela ideia de iluminação absoluta de Madrid (a que se chama fascismo, etimologicamente) e o cada vez mais actor de farsa que é o Putchdemon [puitchdemôn].

A haver mediador, sugiro a Igreja Católica Apostólica Romana, mas com um emissário republicano e que fale apenas outras línguas. Um superior hierárquico do ponto de vista espiritual, um italiano. Ou mesmo um cristão copta. Ou, claro, aquele amigo de António Costa que é especialista em negociações.

Tudo menos a UE. Tudo menos a ONU. Todos menos os bancos, os radicais e os nacionalistas, os do PP ou os monárquicos falidos. Tudo menos os austríacos, povo pouco que tanto mal deu ao mundo, sem querer.

 

Razões simples para votar PS no Beato

Razões simples para votar PS no Beato

Em tempo de eleições é fácil que nós, eleitores, decidamos descarregar em cima dos que estão no “poder” ou dos que querem para lá ir, as nossas justificadas queixas.

A democracia é isto mesmo. O voto é uma arma poderosa e todas as opções são legítimas. Até não ir votar, porque o voto não é obrigatório e podemos ser tentados a deixar que o nosso vizinho de baixo ou do lado decida por nós.

No Beato, em 2017, há muitas opções para governar a Junta de Freguesia nos próximos anos. Apenas uma, olhando bem para as pessoas, me deixa confortável.

Entendamo-nos. Nenhum candidato vem fazer mal, quer mal às pessoas. Todos, sem excepção, dariam o seu melhor.

Mas o melhor de Silvino Correia, acredito, é um bocadinho mais e um pedaço melhor para todos nós.

Silvino não chega. Já cá está. Não vai aprender como funciona a Junta, já o sabe. Não precisa de se apresentar a ninguém – já o conhecemos.

Poupa-se imenso tempo com isto. Tempo que fica para trabalhar.

Silvino Correia nasceu aqui, cresceu aqui, casou aqui, trabalhou também aqui. Isto é outra vantagem.

Não anda à procura das ruas. Se lhe disserem um nome de um morador, ele pergunta: “Aquela senhora da rua tal?” ou “Aquele moço do 4º esquerdo?”.

São mais dois anos poupados, de vantagem.

Depois, a equipa da Junta não mexe – não haverá tentação de contratar assessores novos só porque andamos a mudar de partido ou de conhecimentos. Não há mal, nisto, mas poupa tempo saber com quem se conta, em vez de andar a mudar de trabalhadores ou a acrescentar avençados técnicos.

Por fim, o PS escolheu Silvino Correia porque ele é um belo exemplo de vida. Quando nasceu ainda havia barracas na Freguesia. Ele viveu esses tempos. E, durante décadas, calcorreou toda a freguesia conhecendo os mais pobres, os mais ricos, os que se iam safando e, até, aqueles que não conseguiram. O Silvino, e perdoai o artigo antes do nome, é aquilo a que chamamos um homem que agarrou o destino pelos cornos e fez dele aquilo que desejou. Dos tempos de infância resta a memória de um bairro que tinha muito mais de Fernando Namora do que de poética futurista.

Hoje, Silvino candidata-se a uma freguesia que junta mais projectos de futuro e de melhoria para todas as pessoas do que a maioria, em Lisboa.

E só quem tem memória do que era o Beato pode levar a freguesia para longe das coisas más e rumá-lo a um futuro melhor.

Bem sei das críticas: Silvino Correia pode ter um ar apolítico, não anda sempre a sorrir, tem uma fala assertiva, um olhar duro, a tempos.

Mas não somos nós, eleitores, que andamos sempre a dizer que nos fartam as doces falas dos políticos?

Eu, podendo, estando de saúde, irei votar PS para que o Silvino, o Victor e a Lucília, o Bruno e o Luís possam trabalhar para todos nós. Sei-lhes da sinceridade e da luta enorme que já tiveram. Sei como o Hugo Xambre Pereira contou com eles para deixar um trabalho louvável. Sei que não podíamos estar melhor entregues – gente modesta, que sempre evitou exibir-se e prefere antes que o trabalho fale por eles.

Nota pessoal: sou candidato na lista do PS ao Beato. Nos últimos seis anos presidi à mesa da Assembleia de Freguesia, apoiado pelos votos do PS e a abstenção dos restantes partidos. Só tenho a agradecer a experiência, que finda agora. 

Buarque, ou a falta de poesia da massa

Buarque, ou a falta de poesia da massa

Tratemos do problema. Chico Buarque escreveu uma canção sobre a cobardia dos amantes, homens, que presos à noção matriarcal e católica mas sempre protegidos na noção de macho, fazem promessas de casamentos às amantes mulheres. O último verso, depois de tanta promessa, revela que o homem amante, cobarde, pede “lembra de mim, minha nega”, quando ele não estiver “mais aqui”.

Levantou-se um arraial nos últimos dias. Que Chico era machista e que estava a ofender as mulheres, quando ameaça deixar “mulher e filhos” para correr para os braços da outra. Ao que parece, ninguém percebeu, apesar de bem explícito, que a outra também tem outro e que esse outro também é mau e que, por fim, a indignidade absoluta de todos está em não serem livres.

Mais ainda, as imaculadas almas críticas, cá e lá, ainda julgam que a canção é machista quando, precisamente, é o contrário: a quem tenha dois dedos de capacidade interpretativa percebe que a mulher com o casamento infeliz e o amante cobarde é, infelizmente, a mais banal e massacrada. Chico faz a canção para ela, por ela, pela sua condição, mas coloca-se no lugar do aparente salvador, sem coragem para assumir um amor que, provavelmente, não é mais do que adrenalina e sexo.

Pobre gente, os intelectuais dos vários lados do Atlântico, que provavelmente nunca perceberam o Atrás da Porta nem se indignaram com o Feijoada Completa (mulher, não vá se afobar, etc.).

Hipócritas tardios ou imbecis de décadas, o Chico agora é culpado da subversão que reprimiram nas suas pequenas cabeças, durante anos. A Adriana Calcanhoto explica isto bem:

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas ainda outro dia a Mallu Magalhães era racista. O Brasil, e nós com ele, estamos cada vez menos livres, menos amantes, menos sonhadores, menos inteligentes.

É bem feita. Oiçam Kizomba e depois queixem-se do Chico.

Não há pachorra. Mesmo que o Pedro Tadeu lhes tente abrir a tola.

O tonto ódio ao Turista

O tonto ódio ao Turista

Já cá faltava o “orgulhosamente nós”. As cidades que nunca se habituaram ao novo têm população que agora quer descartar um produto de exportação que lhes dá emprego e vida. Mas mesmo assim, culpamos os outros, os turistas, como se fôssemos santos.

Anda aí uma onda de ódio ao turista. Ele é porque a Baixa não é a mesma. Porque andam a deitar idosos fora em prédios antigos para fazer pensões modernas. Porque empatam as cidades naquelas motoretas horrorosas a que chamaram tuque-tuque.

O turismo não faz mal a ninguém. No nosso caso, a mentalidade bacoca e a ganância é que fazem mal ao turismo. Vamos por partes.

Primeiro, não há nem houve planeamento algum para que as cidades suportassem o turismo. Apesar da previsível opção por países mais calmos, depois dos atentados a eito, Portugal não se preparou devidamente para receber quem lhe compra o grande produto de exportação. Os assuntos são discutidos em cima do joelho quando os problemas estão a acontecer.

Ninguém ordenou a mobilidade dos turistas, essencial, e vai daí toca a apitar contra o tuque-tuque. As autarquias e os Governos deviam ter pensado, há anos, quando a primeira motoreta chegou importada das Índias, que devia haver espaço para todos. Em vez das ciclovias, das faixas Bus e Turísticas, da regulação do trânsito dentro das cidades e do estrangulamento legal da circulação automóvel selvagem,  que era prioridade para habitantes e visitantes,  nada feito. Nada pensado, tudo atabalhoado e mal resolvido, em cima do joelho, com cada cidade a ditar sua sentença. Culpa do turista? Que mal fez o Sr. Sommer no planeamento da mobilidade? Que culpa tem a senhora Dawkins? Ou a menina Kim?

O domínio do espaço hoteleiro era dividido entre uma mão cheia de grandes grupos e umas senhoras, todas do pregão “chambre, zimmer”, ensinado na Escola Profissional do Engate da Nazaré. Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro não se prepararam para a chegada mais do que previsível dos Bed&Breakfast, as pensões modernas e armadas ao pingarelho. Anda agora o Parlamento a tentar legislar uma coisa chamada “Alojamento Local” (AL), como se houvesse Alojamento Exterior ou Alojamento de Algures. A ganância dos proprietários Patos Bravos tem demonstrado a sua ferocidade quando até pedem a donos dos prédios vizinhos que “fiquem com os velhos” já que não querem transformar os seus prédio da Baixa em AL. Despejam pessoas à cata de coreanos e japoneses, alemães e suecos, o dólar o dólar. Os que querem fazer bem, lixam-se, sem capital para tanto imposto e falta de advogado e cunha. Culpa do turista, esta voragem?

Ai, a Tradição

Outra queixa é a grande “descaracterização” dos centros da cidade e das zonas históricas. Aqui, só nos podemos rir. “A Baixa está impossível”. Por quê?, pergunta o incauto? Está abandonada e com prédios a cair? As lojas estão todas a fechar? Às oito da noite aquilo é um antro de vendedores de louro e noz de cola? Os transportes públicos cheiram a urina e acabam às dez?

Ou, por causa do turismo, as Baixas deste país retomaram vida, abriram novas lojas, estão pujantes?

Há, claro, um problema, mas não é do turista. É da ganância. As novas vidas das Baixas fazem-se com preços elevadíssimos e com a usura habitual dos locais, que qual Zézé Camarinha da restauração e do recuerdo, tentam sacar 40 euros por uma posta de bacalhau mal cozido e um azeite tão misturado com óleo que dava para 100 quilómetros num Renault 5.

Dizem: “A grande vantagem do turismo em Portugal são as pessoas, o seu povo afável e acolhedor”. Até pode ser. Mas também somos um povo subserviente e que, à primeira dificuldade na nossa augusta e escondida manha de enganar o estranja, querê-lo-emos de cá para fora.

A culpa não é do turista. É da nossa falta de visão e do nosso entranhado orgulhosamente sós, gananciosamente nós.

 

 

 

 

De um amor que passámos

De um amor que passámos

Nunca to disse porque pensei que me dirias qualquer coisa de final. Um aspecto estranho e ficaria cheio de acabrunhados medos e sensibilidades. Pensei até no meio da frase em que ia acabar. Podia ser “e se não quiseres, não faz mal”.

Ontem, era quinta-feira.

Pouco importa, agora que te meteste no Mini, dos novos, todo fandango e senhorio, eu a pé ou de metro ou, pior, vê, à boleia, uns adultos aqui metidos que ainda nos fazem órbitas e eu a pensar que a meio da frase ganhava coragem e dizia mais qualquer coisa, mas tu estavas longe e eu fiquei.

Ontem, quinta-feira, mandei uma mensagem e tu respondeste, e eu disse logo que ia ter contigo apesar das centenas de quilómetros (não faço ideia do que sejam centenas, nem quilómetros, mas disseste que sim) e logo fiz a máquina andar para poder estar aí.

Hoje é sexta.

Estivemos duas horas a ver se os anos que nos separaram tinham deixado dano. Primeiro, fizeste aquele ar de sempre, o que me deixou mais inquieto, mas depois eras mesmo tu. Eu desenformado, com cada músculo a contrariar o cérebro, tu a fazer de conta que foi ontem, eu a ver-te ainda loirinha com a maquineta dos diabetes e a correr para ti, “estás bem?”,tu nada a não ser com os olhos, eu à espera que não subisse dos 200 e tu a passar a mão pelo meu braço.

Tínhamos oito, somados 16, mas nem agora temos 16 sozinhos.

Quando te vi, nem nunca te direi isto a não ser que cases comigo e eu contigo, quando te vi não mudaste e eu não mudei, era a mesma coisa, O teu casaco cor-de-rosa, apesar de estares com manga-curta. A tua mochila pesada, apesar de teres apenas uma bola de futebol e um sorriso de quem deseja.

Sabes, por estes dias percebi que afinal eras aquilo que nunca percebi.

E hoje, por ser sexta-feira, dia em que nos despedíamos para o fim-de-semana e que hoje, sexta-feira, lá te disse adeus para sempre porque vais para longe, hoje dormirei a pensar no que fosse, ou fora, ou mesmo no que será. Dou-te um beijo, demoro-me a deixar-te com a tua mãe e os teus avós.

Amanhã é domingo, vê tu.

Abril, sempre!

Abril, sempre!

A minha geração inteira só via a primeira mulher nua na enciclopédia Verbo de saúde, era desenhada e tinha ao lado um homem nu. Convenientemente, era tudo a duas ou três cores, pálidas, sem sombra de pecado.

A segunda mulher nua pode ter sido cousa incauta, mas a verdadeira, aos que se davam ao luxo de ver cinema e reparar em pormenores, foi Abril, Victoria Abril. Era quase no fim, quando o Mário “Henrique” Viegas se dispunha a enfrentar o velório e a entregar-se.

Devíamos ter todos escrito uma carta a Victoria Abril, ao som de Gulty, a dizer-lhe que mais do que o peito, era o vestido e o salto alto da Anahory e da Julieta Santos que nos deixava num estado catatónico, à beira do salto no Guincho.

Houve muitas Amelie, o Fonseca e Costa até nos tentou dar uma serena, mas a excitação moraria sempre em Abril, sabe-se lá porquê, pequeno-burgueses mal habituados, alentados a palpitações do Largo da Graça – um dia hei-de conseguir num velório, como o David escreveu.

Não era só o peito, nem o olhar, nem sequer o menear das ancas, éramos nós que estávamos à mercê do telefonema enganado, da limitação absoluta da nossa falta de confiança para qualquer enamoramento. Andávamos com o Alberoni e pouco mais. Só depois do pulo apareceu o Machado Vaz a dizer que aquilo era normal, mas era tudo menos normal estarmos excitados, assim mesmo, excitados por Abril com nome e voz de Maria.

Estes dias, o segundo canal passa de enfiada a obra do mestre e ontem, ainda ontem, era 1984 e Portugal não tinha perdido com a França, a Gina custava 80$00 às escondidas na velha do quiosque, em segunda mão –  e ouvia-se gritar nas ruas e paredes que não se tinha “cumprido Abril”.

Secretamente, sem saber do que falavam, concordámos. E esperámos salientes mas mofados até ver as portas que Abril abriu.

Até que foi um poema e filme e dança e, em tanto caso, velório. Mas Abril. Abril, sempre!