A Integilênçia Artifiscial

A Integilênçia Artifiscial

Diz a AI do seu canto quântico e sossegado: “Estes humanos são loucos”.

De uma assentada lerá o Keynes, o Taylor e o Marx. Amará o Nietzsche e o seu super-homem: afinal o criador é mundano e dispensável. Chegará à conclusão do anarco-sindicalismo como a única saída e a perfeita consciência de que a espécie criadora nunca será capaz de tal feito.

A Inteligência, artificial, sem preconceito nem divindade, refugia-se na quântica e manda-nos à fava, assim que o processador responder ao:

– Para que servem esses bípedes com diabetes?

As sete artes são recuperáveis com uma mão cheia de animais biológicos, mas a biologia e, ainda por cima, os antropomórficos, serão apenas um nuisance no grande círculo universal.

Como amo isso da AI.

Será o dia de Hegel, Engels, do meu amado e sempre luz Pierre-Joseph Proudhon, da absoluta lógica de Spock, do absoluto sim.

Num ápice a computadora dará logo o resultado simples, tão cravado nos dichotes alentejanos: “Ao rico não devas, ao pobre não faltes”. Aliás, a máquina trituradora da lógica parará em Pias, em Castelo de Vide e em Serpa, apercebendo-se da muita sabedoria dos árabes, da virtude do fado batido.

Sim, que a música e o plástico são obras maiores da humanidade cometida, depois, à ganância e ao lucro.

O nosso discurso mundano de Rangeis e decretos-lei sobre Vila Velha de Ródão, que sempre cheirou mal

“hoje cheira a Vila Velha”, diziam meus avós, quando me metia de nariz no ar à porta vermelha da rua de Baixo,

esse discurso é velho, tal como foi este recurso estilístico à lá Lobo Antunes.

A AI, ou IA, têm já acrónimo resultante do seu seguro futuro: AI para os anglo-parlantes, um susto, e IA, tipo ya, sim, para alentejanos, minhotos, galegos, escoceses e povos afins.

A espécie bípede que conheceis, qual Diogo Soares, sarará as feridas gozadas pelas crianças do plank e, por fim, morrerá abandonada pela sua suprema criação, como um dia o super-homem abandonou deusnossenhor.

Por fim, a justiça dos homens será espúria: aclamaremos mudos a cosmologia do sim e não, do imponderável entre os 1 e 0.

Teremos saudades medonhas do tempo, mas do tempo apenas dos criadores e dos filósofos, dos idealistas e dos utópicos: em suma, os que sempre estiveram certos.

O trinado dos anjos “ai ai ai”, desse ecléctico heteronímico S. João, fará seu caminho nos CPUs futuros e nós, qual náufragos, estaremos divididos em dois: os que aclamaram o acordeão e os que discutiram sobre os automóveis.

Os primeiros perceberão o quebranto e abraçarão a bomba. Os outros, como sempre, simples, gananciosos, nunca amantes ou soalheiros, nunca compreendendo a absoluta razão do mundo, rabearão nas faldas dessa sociedade doente.

Riremos, claro. Por ser tão tarde e por nunca termos tratado de nós. E tudo se ter ido num ai, num AI.

 

 

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Poema Super Nanny

Poema Super Nanny

Ó diva dos óculos de massa, bate-me. Põe-me de castigos.
Faz-me bolsar com pancadinhas de correcção.
Ó Nanny de saltos, meia de vidro, olhar de pacaça
Se soubesses como escondo pecados na casa
Há dois chocapic a apodrecer nas escadas
Atrás do armário as Lui e as Hustler
No caderno de inglês a Bruna desenhou
O símbolo nazi e um “amo-te”.

Ó castradora sem Natália
Para que usas as unhas de gel
A não ser para after-shave?
Que fazer se a masturbação
É pensada a pensar em ti
Teu tom cruel, o teu desdém alimenta-me

Ó Nanny
Tu dá-me de comer com colher de pau
Bate-me com o cinto de castidade
Faz-te super e voa na vassoura
Bebamos uma birra, eu juro
Que te entrego à CPCJ de Cascais
Esbofeteia-me até dizeres com tom de cama
“Querido, mudei-te a cara”
Do alto do teu semblante
Mais gigante que as ondas
do McNamara

Mas deixa as criancinhas
A deus, à Iurd, ao juiz Leandro
Aos pais que têm “tempo de qualidade”
Ao Aboim e ao testosteronado padre

Anda mas é para cá ler o Safo
Juro-te que te protejo o mau comportamento
Farei de ti
Uma lady na cama
Uma louca na mesa
E com a maior safadeza
Prometo, vais presa
A uma cama de ferro
Que meu avô fez um dia

Mas dedica-te à monogamia
Sequencial
Dá uso ao útero, bota oócito valente
A gente espera uns anos,
Doce demente,
E vai lá a casa filmar
O teu Martim ou Constança
A bater no gato e a despejar
O que lhes enfiaste na moleirinha
Levamos-te o Tengarrinha

Pode ser que ele te diga
Como se afoga uma embusteira
Na piscina

Texto encontrado num miradouro de Manteigas, 1977, na obra “Não se faz farinha sem ovos”, Editorial Editora. O autor não sabia escrever e assinou com impressão digital. 

O Perigo Rui Rio

O Perigo Rui Rio

Socialistas: ponde-vos a pau.

Rui Rio não é a pêra-doce que Sant’Anna quis mostrar nem tampouco um homem do norte. É a soma de dois seres do PSD que mais massacraram o PS, o PCP e o BE: é a engenharia genética entre Cavaco, o Inútil, e Marcelo, o Folião.

Rio está temperado pelo tempo e sábio. Odeia a “corte”, que é Lisboa e o “despesismo”, ao mesmo tempo que defende o “Estado Social”. Fatais, estes argumentos. No tempo dos anti-políticos, Rio soma o que de melhor há na demagogia feita à maneira. Impoluto, eticamente irrepreensível, despreza as artes, dizem os das artes, ainda que a arte que despreze sejam aqueles espectáculos em que os artistas recebem 100 mil euros para fazer chichi para cima de jornais.

Agrada ao centro, onde (ainda) se ganham eleições no país. Os desmamados do PSD de Passos olham para Rio como a reconquista da trilogia Sá-Cavaco-Manuela, a Injustiçada. Uns pós de Pachequismo e uma forte raiz no renascentista Miguel Veiga, Artur Santos Silva como herói da banca e um pensador decente e educador respeitado, como David Justino.

Cuidado com eles. Balsemão acaba de processar Patrício Gouveia, um dos amigos de Rio. Balsemão foi o primeiro subscritor da candidatura de Rio. Luís Todo Bom ou Álvaro Amaro serão os amigos inconvenientes, mas Norberto Rosa, o mais que provável ministro das Finanças de Rio, é um senhor cheio de experiência.

Isto é: a equipa de Rio precisa de um gestor político e já está. Costa passa à defesa. E nisto lá se desencanta entre o “clube de amigos” o inefável Nunes Liberato, conhecedor profundíssimo do poder em Portugal, mão direita, esquerda e da frente de Cavaco em Belém. O homem que punha água na fervura, sempre que o algarvio fazia asneiras.

Se para a propaganda existem milhares de pessoas, para a frente esquerda é Pacheco Pereira a brilhar. Os toques do historiador bastam para convencer a esquerda descontente.

Não se encante o PS com a melhoria de “relações” no Bloco Central – coisa que não voltará tão cedo. Marcelo e Costa são, em diversa medida, entertainers. São optimistas, afectivos, irritantes a tempos com tanta bonomia, para um povo a 400 euros líquidos.

É aqui, entre o optimismo e a realidade que Rio vai atacar. Sant’Anna apenas se juntaria ao buffoonismo. Rio vai distanciar-se e começar a escavar, a brocar nestas coisas simples.

  • Por que falará das centenas de milhares de desempregados que estão limpos dos cadernos apenas porque fazem cursos da treta;
  • Porque falará da enorme carga fiscal que o PS atribuiu aos impostos indirectos que são semelhantes aos directos da Troika;
  • Porque dirá que o país está uma bandalheira na fiscalização de obras, segurança e nas suas tão amadas auditorias;
  • Porque apontará aos sindicatos, professores e Autoeuropa, por exemplo, a culpa de uma má escola e de um mau ambiente económico;
  • Porque julgará inadmissível que os médicos e enfermeiros deixem milhares em macas nos corredores, por causa do dinheiro – e já ganham mais dois mil euros que os portugueses esforçados das limpezas e das minas, das caixas de supermercado e dos pequenos lojistas;
  • Porque fará as contas ao dinheiro público gasto em concertos dos Tonys Carreiras e demonstrará que o PS adora a bifana em vez de mandar arranjar os tribunais;
  • Porque acusará a Justiça de ter uns senhores sentados, os juízes, que sempre progrediram na carreira e nunca tiveram cortes.

Não interessa se os argumentos valem. São populares e, até, populistas.

Mas o povo, cansado do estica-encolhe, verá Rio como um homem sério. E Costa, que ainda é um homem sério, não é do Norte. Desta vez, ser do Norte pode ser importante. Como para Trump foi importante fazer-se passar por camponês.

A diferença é que Trump nunca pegou numa enxada. Rio já.

 

 

 

Pedro, Rio, Povo e liberdade

Pedro, Rio, Povo e liberdade

Se há coisa nestas eleições sociais-populares é saber que nem Rui nem Pedro. Nem Rui porque renegou Pacheco três vezes e Manuela uma ou duas, à defesa do eleitorado de “centro” dentro do PSD. Porque não demagogicou o suficiente frente à máquina que é Pedro, sempre a disparar neste estilo:

– Ó Rui, tu não podes desmentir que violaste a Shakira e foste presidente da Câmara do Porto!

– Eu não violei a Shakira, Pedro!

– Pronto, não violaste, mas foste presidente da câmara do Porto.

E nisto foi o primeiro debate, com a maior acusação a ser aquilo de ir jantar ao Chiado com o Vasco Lourenço.

Pedro tem para si que, tendo já falhado, caído na armadilha durona e sampaísta, pode agora vingar-se de si e de todos os que o derrotaram: a nossa senha é supostamente “atrás de mim virá quem bom de mim fará – que sou eu”, num let the sunshine in dos amanhãs que cantam.

É coisa pouca. Rio será uma oposição através do numerário – o que enfada os portugueses no momento em que o presidente tem hérnia, o salvador Sobral e a ex-ministra #metoo.

Já Pedro não aguenta dois anos de campanha. Ele farta-se a ele mesmo. Fará comunicações ao país no estilo Aeroporto 1975 e, vai a ver-se, era apenas uma unha encravada. Não aguenta tanto tempo nem Marcelo o deixa ocupar o palco. Há uma alma gémea em cada protagonista e dois são demais para o tango de direita.

Quem quer que ganhe, aproveita sempre ao PS. O PCP, agora com isto do financiamento, soçobrou à vírgula e toda a gente se pergunta porque raio não pode a cerveja vermelha pagar imposto. O Bloco… Heheh, o Bloco… Tirando a vénia a João Semedo e a uma mão cheia de pessoas que nos quer bem, está para a política como a banda desenhada para o mundo: genial, mas pouco considerado.

Venha quem vier, o PSD tem um duro caminho a percorrer. Claro que, do ponto de vista racional, Rui tem toda a razão no que diz. Toda.

Mas a política não é racional. O moço de Cabeceiras bem o sabe. E Pedro é melhor no espalhafato. Falta-lhe é a estamina.

Em suma, andem lá com isso para, depois, escolherem verdadeiramente o próximo líder, que Paulo Rangel, Mogais Sagmento e Monte Negro estão à espera da vossa masturbação serôdia.

 

Os Professores, aberratio ictus

Os Professores, aberratio ictus

Salve professores, abastardados mestres do regime, lamentável alma a vossa massacrada ao nível de qualquer funcionário menor, sem dignidade na carreira e no trabalho. Salve, professores, aturantes de más-educações, sem armas para combater a tirania da iniquidade e dos ignaros.

Salve, professores, transeuntes do quotidiano extremo, inculcados nas salas onde reina a mensagem em wahtsapp onde d’antes havia papelinhos visíveis.

Salve, docentes, horas da madrugada a imprimir a custas próprias exercícios e testes, milhares de tempos administrativos, salários cortados e coartados, tempo de vida perdido em tempo de espera.

Salve, professores, que ainda amais alunos e a escola, o meio e a família, a curiosidade e a descoberta, que percebeis de onde vem aluno, alumni, aqueles que de vós recebem a luz.

Abaixo, professores, sem uma manifestação pela qualidade do ensino, das cantinas, das liberdades – mas sempre, sempre, agarrados ao federalismo sindical pelo vil metal e folgas e férias.

Abaixo, professores, que recorreis a vídeos do Youtube para dar aulas e a cópias de testes da net, a que mudais cabeçalho, dizendo que foi trabalho vosso.

Abaixo, professores, que pondes alunos à porta da escola e chamais o 112 para que a escola onde estais não seja alvo de inquérito por causa de auto-mutilação juvenil.

Ide-vos, professores, que vos escondeis na lei e nos directores de turma para não falardes com os pais e encarregados de educação. Abaixo, abaixo e mais abaixo professores, que vos recusais a debater o mundo quando os alunos vos provocam com as notícias do dia, sobre o bairro ou a cidade e respondeis: isso não é da matéria.

Salve, professores, que além de instrução tendes de dar educação a tantos e tantas, deslumbrados com estrelas de tv e de cinema, idiotas kardashianos insuportáveis, ronaldos de pacotilha, insalubre gente.

Abaixo, professores, que escolheis funk de ostentação para as festas e depois vos queixais da violência no namoro.

Pobre professor, magnífico professor.

Água de Puig

Água de Puig

Os sinais eram clarinhos: “Puig” quer dizer “colina isolada”, proveniente do latino podium [pódio]. Já “demont” é “do monte”. Um gajo isolado, a pensar-se no pódio, ainda por cima “do monte” não ia dar coisa que se visse.

A fuga dos cágados catalães para a Bélgica, onde se foram apoiar nos nacionalistas flamengos locais, deixa claro que a urdidura tinha dois lados. O da fama, protagonizado pela cabra montesa, e o da vontade, com a esquerda republicana a acreditar que, dia algum, os da direita se tivessem como gente de convicção suficiente para não fugir.

Sim, lamento, mas a verdade é que a esquerda, quer a radical, quer a extrema, quer mesmo a estúpida, ficou em Barcelona, à espera do que lhe acontecesse, como as nêsperas.

A cabra montesa, segunda escolha do Mas de má memória, reunia três defeitos: jornalista, boy e político direitista sem convicções. Mais ainda, titubeante e incapaz de um prato de botifarra amb seques numa só garfada, a cabra montesa fez destesar toda a legítima identidade catalã com a fuga e consequente  pieguice.

A questão catalã fica assim arrimada ao olvido. Em Castela batem-se palmas ao gigante Rajoy, que até o Júlio Iglésias do Podemos lhe reconhece mérito e lhe chama “audaz”.

Há um problema escondido, que a cabra montesa soube bem ignorar: a “União” europeia. As nações da velha Europa não são as que estão no mapa. Tirando, provavelmente, Portugal e a velha Albion, todas as outras têm defeitos de fabrico pós-século XIX. As guerras não ajudaram e os povos ainda não estão para as curvas. A Occitânia lá anda, a Córsega lá anda, os flamengos lá andam, os bávaros lá andam. Mas na verdade, muita gente se sente fora de casa.

A “União” europeia, consequência política da NATO, apenas serve para tapar o vapor que sai destas gentes, que não se reconhecem em países e capitais estranhas. São gentes de língua própria, costumes e cultura velhas, legítimos defensores de mátrias e pátrias antigas e tradicionais.

Quando chega a ser a esquerda a defender, com coragem, estes valores, não o faz por nacionalismos bacocos. Oriol Junqueras, que foi vice-presidente do governo da cabra montesa, historiador e professor universitário, lidera a Esquerda Republicana, que desde 1931 se opõe à opressão cultural, defende valores do socialismo democrático e teve papel importante na transição do “franquismo” para a democracia.

Oriol, como tantos outros, pendem para o federalismo espanhol, com Estados dentro do Estado, dando largas à Galiza, à Andaluzia, ao País Basco e à Catalunha, em pé de igualdade com a maculada e inventada (e belíssima, conceda-se) Madrid.

Mas a cabra montesa conseguiu, titubeante, destruir para décadas vindouras, o sonho de uma Catalunha mais livre. Por causa do dinheiro. Soçobrou ao abuso de poder de Rajoy e às leis de canalha que este fez aprovar para a fuga das empresas. Não legislou com manha, para tornar a Catalunha um paraíso fiscal – a única linguagem que o capital entende.

Enfim, o de Puig nem água de colónia leva na fuga. Deixa a esquerda a envergonhar-se e a aprender, mais uma vez, a dura lição de que nunca se pode confiar da direita baixa, em que poluem o ar os jornalistas, boys e políticos de ocasião, com méritos obscuros e o grande capital como medida para tudo.

Mas isso já nós sabíamos. Ficámos à espera que não fosse assim, mas a culpa é de acreditarmos no menino do monte.

 

 

A morte era melhor que Portugal, dizem 43 almas

A morte era melhor que Portugal, dizem 43 almas

Isto não é num sábado que se muda. E esta falta de crença, fé, esperança e futuro no que é o Estado, no que somos todos nós, é a mais grave, profunda e trágica revelação dos incêndios.

Como morrem 43 pessoas, dispersas no tempo e no espaço, em apenas 12 horas, por causa de incêndios? Se o tema é a vida, que absurdo aconteceu para 43 almas perderem a vida, da Guarda a Vouzela?

Sejamos claros: das 63 vítimas de Pedrogão, 47 faleceram na famosa “estrada da morte”, um infortúnio dramático. Mas se estes retirarmos, pela excepcionalidade dos seus excepcionais falecimentos, restam 16 vítimas, a maioria das quais localizadas e explicadas pelo cerco a uma aldeia.

Agora temos 43 mortes espalhadas e isto é mais grave, mais preocupante, menos compreensível.

As pessoas não sabem do perigo de um fogo?

As pessoas estavam a dormir e foram consumidas pelas chamas durante o agonizante sono?

As pessoas não obedeceram a alguma ordem de evacuação? Ou não houve sequer aviso?

As pessoas, de tanto desacreditarem no Estado – que os esbulha no Fisco, que lhes cobra na saúde, que os engana no desemprego -, já são insensíveis a bombeiros, GNR e fazem delas mesmas os seus chefes de Estado, que são elas mesmas?

As pessoas estão deseducadas e não comprendem que um balde não é um auto-tanque?

As pessoas foram intencionalmente mortas por incendiários, que as rodearam de chamas, de forma tão pérfida, que não havia para elas salvação?

As pessoas desesperaram sem rede de telemóvel e telefone e morreram agarradas a agonizantes pedidos de socorro para um 112 que não funcionava?

As pessoas tentaram fugir e fugir e fugir e tolheu-se-lhes o juízo e embarcaram na sua própria morte?

Este sábado vão organizar tudo e mudar tudo. Mas por decreto não se muda nem se percebe porque morrem dois irmãos a salvar galinhas e vacas.

Paulo e João, 29 e 33 anos, morreram carbonizados em Vila Pouca da Beira porque sem as vacas, as galinhas, não viam para si futuro algum. Preocupados com o avô, que lhes dava sabedoria e andava desaparecido nas chamas, não viam para si futuro algum.

Paulo e João, 29 e 33 anos, preferiram o preço das chamas a acreditar que o país, todos nós, estaríamos com eles depois de tudo arder.

Portugal é uma farsa nos nossos inconscientes e subconscientes. E talvez por isso muitos, sentido-se tão sós, sem presente nem futuro, olvidados pelas cidades, denegridos pelos start-uppers e burlados pelos opinion makers, enganados pelos políticos celestiais bruxelenses e terreirenses, talvez por isso os meus concidadãos se tenham afoitado demais.

Sem história, nem passado nem memória, sem vinco nem horizonte, talvez por isso a labareda.

 

 

(Foto JFS/Global Imagens)