O Peido Salvador

O Peido Salvador

Ah! Hipocrisia, vergonha e moral. Ah, Salvador, grande peido que não deste e devias ter dado. Ah Bocage, Ah Cesariny, Ah Henrique Leiria, Ah Abel Raposo e tua “Sinfonia de Flatos”.

O que não arde cura, Salvador. Bela ameaça. Morra o Dantas, pum!, ao sabor do metano, que o país é mesmo assim como pensas: amam-te porque vais morrer – o peido mestre. Adoram-te porque ao te peidares a massa imensa diz logo “coitadinho, está doente, já lhe chegou aos intestinos”. Mas ao anunciar o peido, ao não-peidar mas ameaçar, vão as vaporosas damas sucumbir e os senhores doutores, que gamam fortunas e exploram mais-valias, ficar assoberbados da moral beata dos salões das bolsas e das alas dos crismas.

Essa plateia que se estende agora moral não tem peida nem bufa. Bufos outrora e ainda, serpeiteiam o metano nas reuniões e fazem ranger as cadeiras no chão para disfarçar quando se largam. À beirinha. Mantendo-se oblíquos com sorriso de santo e maneiras de bode.

Em vez de dizerem “aplaudam peido a vir”, circundam-se a si mesmos nos elevadores para, abre a porta do terceiro andar, se bufarem para as escadas, pensado que não levam calças nem saias.

Salvador, eles não sabem, porque não o fazem, o que é o prazer do pum quando finalmente fazes traque com o namorado  na cama. Eles nunca se riram do peido vaginal, do peido com  a peida para fora da cama, com o peido sacana no carro de janelas fechadas. Sabem lá eles o que é arte. Usam portugal na lapela mas esqueceram-se da Banda do Casaco

Natação obrigatória
na introdução à instrução primária
natação obrigatória
para a salvação é condição necessária
não há cu que não dê traque

D. Sebastião nunca se peidou! Muito menos D. João II. O mostrengo só se peidava sem barcos à vista e quando Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut escreveu “A Arte do Peido” inda Bocage era, e esse setubalense sonetava

“Vae cagar o mestiço e não vae só;
Convida a algum, que esteja no Gará,
E com as longas calças na mão ja
Pede ao cafre canudo e tambió:

Destapa o banco, atira o seu fuscó,
Depois que ao liso cu assento dá,
Diz ao outro: “Ó amigo, como está
A Rittinha? O que é feito da Nhonhó?”

“Vieste do Palmar? Foste a Pangin?
Não me darás noticias da Russu,
Que desde o outro dia inda a não vi?”

Assim prosegue, e farto ja de gu,
O branco, e respeitavel canarim
Deita fora o cachimbo, e lava o cu”.

E tu não foste tão longe, ó Sobral, apenas lhes disseste que tinham o mau gosto das carneiradas, que há um ano fazias com a boca e ninguém te ligava e agora se o fizeres com o traseiro, no Meo Arena, até palmas te batem. Mas eles não perceberam, porque o peido,

o peido, Salvador,

o peido que tu não deste, não deste tu, foram eles,

Pum! Traque!

Viva o Mário-Henrique, que os topou:

A MINHA QUERIDA PÁTRIA

os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos

a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal

a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas tradições
de mau latim
da Eneida

enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida

 

SOS Pedro Passos

SOS Pedro Passos

Ligue 112 em caso de Passos Coelho. Ligue 707 para o ajudar. Participe no concerto em memória de sua memória. Envie bolachas em fila indiana para a São Caetano.

A coragem de Pedro Passos em manter-se à frente do partido depois de ganhar eleições e perder maioria e Governo não se lhe venera: podia ter corrido bem. Há dignidade na insistência. Daqui não sai porque ganhou a maioria dos votos – o que é verdade.

Pero, hay sempre um ‘pero’, triturado pelo partido, qué voraz nas ambições de poder, educado por Cavaco e consignado a Durão, por uns anos, o PSD não perdoa. Quem se mete com o PS, leva. Quem falha ao PSD, morre. Santana, Menezes, Salgueiro, Mota Pinto, Marcelo, Mendes, Ferreira Leite. Tudo deitado fora pelo aparelho que deseja o hedonismo poderácio e que se encontra deprimido quando longe da palhota onde se assinam coisas poderosas.

Pedro Passos, com quem almocei umas vezes e entrevistei outras tantas, apesar de ter sido um condicionado mau primeiro-ministro, era boa pessoa há 20 anos. O pai escreve bem, o que só indica uma educação interessante. Mas castrado pelo partido, onde lhe dão maiorias à Coreia do Norte, mas depois o mordem na mão e nas pernas e nas costas, foi enganado pelo candidato interesseiro a Pedrógão. Não teve culpa, acreditou no seu “companheiro” e fez asneira.

Nas autárquicas ser-lhe-à pedida a cabeça, depois de os que lhe vão dar a faca terem dito que não se candidatavam a lado nenhum. Os que o traíram agora são os que o matarão. Mas votaram nele, na cobardia habitual das grandes massas, porque faltavam anos e anos para voltar ao poder e, ainda assim, ironia das ironias, ele, Pedro, que se “queimasse”. Esquizo, o PSD parece estar e não estar de acordo com o governo do PSD.

Lá vai ele embora, o sol põe-se, a 1 de Outubro a última vítima da Troika será Pedro Passos, ele mesmo, como nos filmes onde o assassino é morto pelo mandante por outro assassino, uma vez que sabia demais.

Acordará com a cabeça do cavalo na cama e dirá, em Massamá, que o mundo é injusto e ingrato. É. A gente sabe porque levou com o mundo em cima.

Mas sabemos bem que Pedro Passos não será piegas, sairá da zona de conforto e passará a produto de exportação.

 

Judite e o Cadáver

Judite e o Cadáver

Não matemos, com raiva nos dentes, a Judite. Expliquemos por que a reportagem é má e nada tem de jornalismo. Vejamos os princípios violados.

Primeiro princípio: O jornalista e o cadáver, na mesma imagem. Imaginemos que a reportagem era da imprensa (escrita). Que sentido faria, ao abrir a página de um jornal, ver o autor do texto numa foto ao lado do cadáver? Nenhum. Ou na rádio ouvirmos a repórter dizer “Estou aqui ao lado de um cadáver”? Nenhum. O problema da imagem da jornalista ao lado do cadáver não está, apenas, no morto. Mas na ideia de que ver a jornalista ao lado do cadáver acrescenta alguma coisa – falso, não acrescenta. É soberba pura. O jornalista, aprende-se no 10º ano, “não é notícia” nem se deve misturar com a notícia. A imagem do cadáver, apenas, pode ser defensável se tal demonstrar incúria das autoridades. Não foi isto que aconteceu.

Segundo princípio: É impossível determinar se a falecida teria ou não desejo de ser registada publicamente, em imagens, depois de morta. Todos os cidadãos têm direito à sua imagem, mesmo que falecidos. O registo da imagem de cadáveres por recolher faria sentido se o trabalho de recolha e identificação não estivesse a ser feito. Mas está, com esforço e devoção. Por isso, a imagem de um cadáver, avulsa, não é notícia nem se submete ao interesse público, porque o contexto tem sido explicado pelas autoridades.

Terceiro princípio: O texto da reportagem mostra, claramente, um descontrolo da repórter, quando diz que os bombeiros estão “ali à frente” e o cadáver continua no terreno, sem ser recolhido. De facto, miram-se ao longe uns pirilampos típicos dos bombeiros, mas pode ser um auto-tanque ou um carro de combate. Deseja a repórter que o cadáver seja atado a uma escada magirus? Mostra a peça a natureza da viatura? Sabe a reportagem que os bombeiros a metros são de uma ambulância ou do IML? Recorda ainda Ricardo Gonçalves, depois de leitura deste texto: “A área [estava] selada pelas autoridades, o que isso significa que: primeiro, já lá estiveram autoridades; segundo, os bombeiros não podem mover o cadáver visto que se aguarda a chegada do médico legista”.

Quarto principio: A ausência de contraditório. A reportagem não confronta nem os tais bombeiros da imagem nem as autoridades sobre a lentidão da recolha de cadáveres, proposta pela jornalista. Não foi falar com a Protecção Civil, com o IML, com ninguém. Não cumpre o que é básico no jornalismo – ouvir todas as partes.

Quinto princípio:  “O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas”, diz o código deontológico. Se a nora da senhora falecida está desesperada e lhe aparece uma estrela de tv a falar com ela, a nora pouca serenidade tem, no seu desespero, para decidir com serenidade, liberdade e responsabilidade se fala ou não, o que diz ou não. Está vulnerável, responde por impulso e, provavelmente, perdeu a casa, perdeu decerto familiares, não é testemunha a não ser de um desespero pessoal que, por causa do mau jornalismo, não se entende se ilustra uma falha das autoridades ou, apenas, uma peça sensacionalista. Isto é: não sabemos se o interesse público está presente.

Sexto princípio: A reacção da Direcção de Informação da TVI à abertura de inquérito defende-se com um falso argumento. Diz: ““A informação da TVI faz jornalismo. Apura factos, vai para o terreno, procura proximidade com os portugueses – e tem-no feito com sucesso, porque recolhe há anos consecutivos, mês após mês, a preferência da maioria dos cidadãos”. Ora, a “preferência da maioria dos cidadãos” não legitima o que quer que seja. A credibilidade da informação não está na maioria, mas no rigor. A TVI prossegue, dizendo que a maior audiência é “um indicador objectivo que valida a sintonia com a sociedade portuguesa que, sabe-se lá como e porquê, a ERC reivindica para si”. A direcção da informação não terá percebido que o mais forte nem sempre tem razão – nem que a ERC não é um órgão de comunicação social jornalístico, mas o regulador destes. Além disso, o director de informação acrescenta que a estação “não recebe lições de ninguém sobre sensibilidades profissionais”. Fica bem a qualquer director defender a sua equipa. Espero que o profissionalismo deste, indiscutível, lhe permita também dizer à repórter que o que fez não é jornalismo. Porque só assim terá razão quanto à sensibilidade.

Judite de Sousa é jornalista e tem carteira profissional. Todos fizemos já trabalhos maus, com falhas, com erros. Muitos tivemos trabalhos processados. Não devemos, por isso, pessoalizar. Há uma esfera da vida privada da jornalista que tem sido aproveitada, mal, para a atacar, nos últimos dias. Rejeitemos essa facilidade. Embora a repórter deva assumir a responsabilidade de um plano e um texto mal esgalhado, uma carreira de 40 anos não deve ser destruída por causa de uma peça – embora isso tenha acontecido a muito boa gente, de Peter Arnett a Brian Williams.

Judite de Sousa pode, e deve, porque o sabe, converter a sua energia em empatia e vir a público, se desejar, explicar o por quê do seu impulso – provavelmente com razões atendíveis: há muito que não ia para o terreno, sensibilidade pessoal que dominou a sensibilidade jornalística, contaminação do entorno perante o desespero das famílias e do cenário… Há muito que se poderá esperar e compreender, até. A arrogância, porém, não é desculpa, porque descredibiliza quer a jornalista quer o jornalismo. Nesta profissão, já tão desgastada, seria bom reconquistar o tal público com um gesto de humildade. Toda a gente falha.

[foto: Carlos Ramos, revista Sábado/dr]

 

Angola

Angola

Angola é um país soberano há 40 anos. Angola tem problemas, entre os problemas estão alguns angolanos e alguns portugueses, alguns russos e alguns chineses, alguns americanos e alguns brasileiros, alguns militares e alguns civis.

Não pesco nada de Angola a não ser o que os amigos que foram para Angola dizem, o que os jornais dizem, o que o PCP diz e o que se diz por aí.

Angola, asseguram-me, é linda, e eu acredito. Angola tem pessoas boas, isso eu sei que conheço algumas.

Mas Angola é uma verdadeira chatice. É uma maçada enorme porque há um ditador doente que até se diz que morreu ou não está em Angola. Angola é uma espécie de bacoquice vista de Lisboa e um país falhado porque tem milhões de pessoas à fome e à escravatura, à ignorância e ao analfabetismo, embora se receba bem e se ponha a toalha aos representantes de um Estado falhado, como se põe ao senhor prior.

Angola é um tema desinteressante porque a oposição pop, não a séria e resistente, se concentra num monte de ego que é aquele rapaz das greves de fome incompletas, que hoje diz que devia haver um Mandela em Angola, descrevendo-se a ele mesmo nesta enormidade auto-elogiosa.

Angola sem petróleo não era interessante nem para ditadores nem para pedintes, como somos nós portugueses, sempre prontos a ter numa mão os direitos humanos e na outra um NIB para dar a quem queira “colaborar” no investimento doméstico.

Angola tem militares a mais para uma guerra contra civis. Angola tem oligarquia, falta-lhe liberdade, não é uma sociedade aberta e nada, mas nada, tem sequer traços de socialismo ou social-democracia.

Angola é um aborrecimento, porque quando Pacheco Pereira fala o Jornal de Angola responde, o que é apenas ridículo.

Nunca fui a Angola. Não desejo visitar ditaduras e julgo que os portugueses devem ter muita vergonha sobre o que andaram a fazer naquele território. Muita vergonha sobre as fronteiras, a exploração sob escravatura dos magníficos campos, muita vergonha de ter hipotecado a vida de portugueses e angolanos numa guerra estúpida, feita a pedido dos fazendeiros tugas e paga pelas corporações proto-fascistas do Estado Novo.

Angola podia ser um paraíso em África, podia ser uma Nação fabulosa. Tem artes de ficar pasmado, tem pensamento, tem raízes e cultura ancestrais que resistiram à ocupação colonialista – desde a nossa, miserável, até às outras, moscovitas e habaneras.

Mas chateia, o tema de Angola. O candidato da UNITA esteve em Lisboa com ar honesto (desconheço se é, nada percebo de Angola) e, sentado nas televisões portuguesas, dizia coisas a medo, a olhar para a sombra – porque tem de voltar para Angola.

Prometeram-me que Benguela, daqui a uns anos, depois da queda dos déspotas, será a melhor cidade do mundo. Nesse dia abraçarei Angola, os meus amigos angolanos, os futuros amigos dessa terra que não tem culpa de ter sido e estar ainda ocupada por quem pouco a ama.

Os amigos que não dizem que fazem anos!

Os amigos que não dizem que fazem anos!

Calha a ter dois amigos muito chegados, provavelmente os muito chegados, que não abrem a boca para anunciar que se aproxima a data de aniversário deles. Calam-se bem calados e põem à prova a memória, a agenda e até a fraternidade. Eu, que nem do meu me chego a lembrar e me esqueço, durante o próprio dia que raio de data é, fico sempre entalado e em falta. Tal como no ano passado, também este anos me esqueci. A um ainda lhe liguei três dias depois. Ao outro, ainda não, porque vai, decerto, dizer-me das boas. Valente cobardolas, ando aqui a ver se lhe passa e depois ligo-lhe já com voz de tenor.

Os amigos, estes dois, muito chegados, provavelmente os muito chegados, têm toda a liberdade para exigir que eu me lembre em que dia nasceram, uma vez que se não tivessem nascido a minha vida seria bem mais pobre. Mas uma pessoa habituou-se a que o Facebook nos lembre estas coisas.

E vejam bem. Um, decide todos os anos mudar a data de aniversário: ou calha a 1 de Janeiro, ou na revolução de Outubro, ou no dia do festival do porco… Eu tenho mais ou menos a noção de quando é, mas o engodo é inadmissível.

O outro, para glória do mundo que gira, limpou a data de nascimento lá do Facebook, porque está a caminhar para Júlio Isidro – ainda sequinho de carnes e rijo de cabeça, mas já com as manias das tias da aldeia: “Já nã me vêns vêr, caspinhe, já nâ gostas da prima…”.

Eu, que os tenho por dois amigos muito chegados, provavelmente os muito chegados, sinto aquela culpa cristã de não dar nem uma nem a outra face. Nem lhes dou os parabéns a tempo e horas mas também não quero levar um chorrilho (diferenciado) de desdém e desprezo, muito notável na voz de ambos, embora de diferente forma.

Assim sendo, fica o aviso a estes dois amigos muito chegados, provavelmente os muito chegados, e aos outros que chegados são: sem aviso prévio não consigo coordenar nada. A idade não perdoa e nunca bebi Piz Buin, que dá umas capacidades fabulosas para que as pessoas se lembrem dos aniversários dos outros.

O único calendário que tenho é na redacção, custou um euro, tem uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e ainda repousa na página que diz “Feliz 2017”, em letras garrafais. Nem a Janeiro/Fevereiro chegou. No telemóvel faz-me aquilo confusão: no meu alarme para acordar aparecem as palavras “pão, tabaco e feijão verde”, coisa que lá mora há mais de dois anos.

Por isso, fiquem sabendo que por muito que vos queira, não me importa em que dia nasceram mas sim que o fizeram. Porque sem vós seria muito mais pobre.

E já agora não se esqueçam.

Enquanto estavas deitado

Enquanto estavas deitado

Vieram umas espirais e detestaram isto: outra vez a união nacionalizada e todo o povo privatizado. A graça de deus retomou o seu lugar político e a hegemonia sonsa fecha as portas que um mês de Abril.

Há solidariedade vocabular, o que não é mau. Temos pena. isto é: temos mesmo pena, o sentimento. Gostamos disso, dá-nos superioridade moral para albergar o outro sem nunca ser solidário, senão na palavra. Por isso se reage com grande fantasia ao concurso de canções com a pena de ver a tragédia do homem antecipadamente morto a ter uma glória perante todos. Em suma, servimos um mártir e ganhámos – e temos pena.

Não há culpa. Nunca há culpa. Há circunstâncias que nos levaram a isto. Os adágios são paternalistas e insulta-se Jocasta por causa do filho que estaciona em segunda fila – até a própria ignorância é justificada porque nunca se deu tal coisa na escola…

Ninguém se zanga – amuam. É melhor amuar, nesta concórdia semelhante ao barco que ficou de lado. Melhor assim, adernar  e ficar com quilha ao sol.

Não é nosso. Pode ser universal.

Tengo miedo del encuentro 
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida.

Tengo miedo de las noches
que pobladas de recuerdos
encadenen mi soñar”.

De acordo com o que sabemos, enquanto estavas a dormir o canal 200 continuou a transmitir o altar do mundo, para grande indiferença de todos. Informações gerais sobre o trigo ou a preia-mar estavam disponíveis mas senão os ébrios e optimistas olharam para tal coisa – os optimistas esperavam ver o milagre.

Nas escolas e nas catequeses (que são a mesma coisa) ensina-se todos os dias a pequena traição e o grande poder do mestre. A liberdade de ser quem queres, fá-la perante os moinhos, antes que puxem Sancho ao teambuilding e transformem a parelha e o par em sãos consultores da tragédia.

Está um domingo de sol, mas Grade sabe que a minha pátria é o Sábado.

E era o sábado e já passou – antes de dormir.

Um fascista morto desenha faróis. Um.

A ética não vende jornais

A ética não vende jornais

“Não tenhas nojo”, dizia-me um sábio jornalista há 20 anos. “Se tens nojo não vendes nada”. Ele, que tinha nojo, sabia o que dizia. Eu, que tenho nojo, sei bem que não se vende papel sem apelar à coisa mesquinha e rosqueira. Mas não importa, diremos. O que interessa é a ética e a deontologia.

O Correio da Manhã, que é uma marca de jornalismo tablóide mal assumida, fez ontem a Internet revoltar-se contra si mesmo, ao mostrar um vídeo caseiro de uma moça embriagada a ser apalpada por um grunho igualmente ébrio, tudo filmado a preceito por uma terceira pessoa, dentro de um autocarro. Há 30 anos lembro-me de que ia toda a gente para as traseiras dos autocarros nas “curtes” e nos “melos” e, se as cenas eram semelhantes, não havia quem fosse nem filmar nem fotografar. Era lá com eles e, de vez em quando, um gajo apanhava um estalo se enfiasse a mão em território proibido. “Curtir” não era um trabalho de grupo.

Se o CM é líder de audiências, de vendas e de cliques é porque o público gosta do que o CM faz. O modo não é de interesse público e o jornalismo, nestas notícias, rebola sangrando, exangue mesmo. Só que a luta pela publicidade e pelo lucro passa pela audiência e, assim, o CM que entende isto, não se importa de pagar 50 mil euros de multa se conseguir depois mostrar às centrais de publicidade que atinge dois milhões de pessoas por dia – o que lhe garante cem mil euros em publicidade.

A pasta de dentes ou a marca de carros está-se marimbado no “como” aparecem os dois milhões – não tem “nojo”. This is not America, onde os anunciantes fizeram cair o Bill O’Reilly. Isto é Portugal, onde a ética vende entre 600 e seis mil exemplares e a publicidade é pouca. Mais ainda, o CM garante três plataformas de distribuição: TV, jornal, Net.

Esta história do vídeo do autocarro tem uma dúzia de problemas. Eis alguns:

  • A publicação do vídeo
  • O tratamento jornalístico em formato clickbait
  • O alcoolismo que se instala no putos, até à inconsciência
  • O vouyerismo banalizado de toda a gente
  • A repugnante ideia de que tudo é “filmável”
  • O movimento estudantil que se tornou numa palhaçada trajada
  • A aceitação social do regresso das praxes e das queimas como acto normalizador…
  • …e a exclusão social e grupal dos que não alinham
  • A mentalidade de carneirada
  • A banalidade do machismo na sociedade, através de letras e músicas que estão no top
  • O afastamento da Academia e, até, o apoio tácito desta, nas festarolas….
  • …o que provoca aquelas cenas das TVs na banheira

Enfim, são tantas que seria necessário um batalhão de sociólogos, psicólogos, psiquiatras, antropólogos, dentistas e ensaiadores de ballet para discutir o que se passa. Mas uma coisa é certa: o CM é apenas o espelho da sociedade.

Ao lado da notícia das moças filmadas está o anúncio da oferta de posters da pin-up do momento, a N. Senhora de Fátima. Tudo isto em harmonia com o nosso costume tribal de sermos moralistas para fora e filhos-da-puta para dentro e para os outros.

Nova imagem (2)
Truques do CM nas eleições, apelando ao voto na AD (PSD/CDS/PPM)

O CM bem pode agora arcar com as culpas todas, mas devia apenas arcar com as que tem e não com as outras.

Estamos numa sociedade de banalidade autorizada e do nojo instituído. Hipócrita em vez de cínica. O problema não é português, apenas. É transversal e não basta pedir ao Dr. Carlos Magno que nos salve da pepineira, às quartas, para depois haver grunhos a fazê-la, às quintas e sextas, com temas diferentes.