Razões simples para votar PS no Beato

Razões simples para votar PS no Beato

Em tempo de eleições é fácil que nós, eleitores, decidamos descarregar em cima dos que estão no “poder” ou dos que querem para lá ir, as nossas justificadas queixas.

A democracia é isto mesmo. O voto é uma arma poderosa e todas as opções são legítimas. Até não ir votar, porque o voto não é obrigatório e podemos ser tentados a deixar que o nosso vizinho de baixo ou do lado decida por nós.

No Beato, em 2017, há muitas opções para governar a Junta de Freguesia nos próximos anos. Apenas uma, olhando bem para as pessoas, me deixa confortável.

Entendamo-nos. Nenhum candidato vem fazer mal, quer mal às pessoas. Todos, sem excepção, dariam o seu melhor.

Mas o melhor de Silvino Correia, acredito, é um bocadinho mais e um pedaço melhor para todos nós.

Silvino não chega. Já cá está. Não vai aprender como funciona a Junta, já o sabe. Não precisa de se apresentar a ninguém – já o conhecemos.

Poupa-se imenso tempo com isto. Tempo que fica para trabalhar.

Silvino Correia nasceu aqui, cresceu aqui, casou aqui, trabalhou também aqui. Isto é outra vantagem.

Não anda à procura das ruas. Se lhe disserem um nome de um morador, ele pergunta: “Aquela senhora da rua tal?” ou “Aquele moço do 4º esquerdo?”.

São mais dois anos poupados, de vantagem.

Depois, a equipa da Junta não mexe – não haverá tentação de contratar assessores novos só porque andamos a mudar de partido ou de conhecimentos. Não há mal, nisto, mas poupa tempo saber com quem se conta, em vez de andar a mudar de trabalhadores ou a acrescentar avençados técnicos.

Por fim, o PS escolheu Silvino Correia porque ele é um belo exemplo de vida. Quando nasceu ainda havia barracas na Freguesia. Ele viveu esses tempos. E, durante décadas, calcorreou toda a freguesia conhecendo os mais pobres, os mais ricos, os que se iam safando e, até, aqueles que não conseguiram. O Silvino, e perdoai o artigo antes do nome, é aquilo a que chamamos um homem que agarrou o destino pelos cornos e fez dele aquilo que desejou. Dos tempos de infância resta a memória de um bairro que tinha muito mais de Fernando Namora do que de poética futurista.

Hoje, Silvino candidata-se a uma freguesia que junta mais projectos de futuro e de melhoria para todas as pessoas do que a maioria, em Lisboa.

E só quem tem memória do que era o Beato pode levar a freguesia para longe das coisas más e rumá-lo a um futuro melhor.

Bem sei das críticas: Silvino Correia pode ter um ar apolítico, não anda sempre a sorrir, tem uma fala assertiva, um olhar duro, a tempos.

Mas não somos nós, eleitores, que andamos sempre a dizer que nos fartam as doces falas dos políticos?

Eu, podendo, estando de saúde, irei votar PS para que o Silvino, o Victor e a Lucília, o Bruno e o Luís possam trabalhar para todos nós. Sei-lhes da sinceridade e da luta enorme que já tiveram. Sei como o Hugo Xambre Pereira contou com eles para deixar um trabalho louvável. Sei que não podíamos estar melhor entregues – gente modesta, que sempre evitou exibir-se e prefere antes que o trabalho fale por eles.

Nota pessoal: sou candidato na lista do PS ao Beato. Nos últimos seis anos presidi à mesa da Assembleia de Freguesia, apoiado pelos votos do PS e a abstenção dos restantes partidos. Só tenho a agradecer a experiência, que finda agora. 

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A Geringonça será eterna

A Geringonça será eterna

Costa percebeu o que danou os PêÉsses europeus: a negação da esquerda. Numa manobra de circunstância, abraçou Bloco e PCP, onde os gajos da ala esquerda do PS iam votar quando estavam zangados. Com isto, acantonou toda a gente e o suicidiocídio do PSD veio a calhar. Nascido com o derradeiro virado para Selene, Costa navega agora o sonho acordado de ser secretário-geral de três partidos: o dele e os que impedem o PS de desaparecer.

Medina, candidato a Lisboa, sabe que será presidente da Câmara mesmo que perca a maioria: ai dos parceiros da trotinete  que lhe recusem governança. Pode o PCP fazer birra? Pode. Mas haverá Bloco. Ou vice-versa, pouco importa.

Caso o PS de Costa quisesse governar com maioria absoluta já tinha mandado o Governo abaixo, numa crise inventada, e punha-se no poder a solo. Mas Costa é bom, é político, e isso deixaria a ferida aberta à esquerda e à direita.

Já repararam no falecimento de Rui Rio? Obra do amigo Costa.

Já viram Rangel e (espante-se) o chusmarista Ventura a perfilarem-se como pessoas que se ouvem em público? Já toparam o apagamento paulatino de Morais Sarmento, ainda que a fazer de guerrilheiro?

Costa, sábio, tem a estratégia que não falha: é uma menina queque que nunca assume responsabilidade das consequências dos actos dos outros. Ao contrário de Passos, que dava o peito às balas, fosse por Relvas, fosse pelo seu amigo Dias Loureiro, Costa sabe melhor que era mais prudente não ir ver Sócrates a Elvas ou à Alameda.

E, por falar no antigo primeiro-ministro, agora agarrado ao Youtube com crónicas de escárnio, mal aconselhado, tem o toque de Midas, mas ao contrário. Esta segunda-feira veio colocar-se ao lado de Medina. Foge! Coitado de Fernando Medina que, sabemos nós, a única coisa que lhe faltou fazer foi um papel – que nem sequer é obrigatório – e até pagou a mais pela casa.

Mas aqueles segundos socráticos a defendê-lo é uma das piores coisas que lhe pode acontecer – qual Vasco Lourenço e Mário no último dia de campanha de João Soares.

Até aqui, sem querer, Costa tem sorte. No melhor do Príncipe, o potencial sucessor foi ferido pela “besta”.

Há azares.

 

Visão: Venda uma!

Visão: Venda uma!

Quando começaram a pedir capas de férias e gajas, estrelas de tv e futebolistas, a coisa estava mal parada. Nada valia argumentar contra o patrão, que exigia, aliás, uma página tipo Playboy, disfarçada de entrevista, com as modelos e as actrizes de novela, ao alto, todas despidas. A revista era a Focus, eu estava como chefe-de-redacção, as reuniões com a gestão eram um presságio disto tudo – sendo tudo o fim anunciado da Visão.

Não chovo no molhado, por isso recordo apenas, para quem não é do meio, o essencial. As revistas e jornais nunca se pagaram com o que se paga em banca por eles. O negócio da imprensa é vender páginas de publicidade. A publicidade, nos últimos anos, migrou para o online, onde estão todos os consumidores que interessam. As marcas escolhem os públicos-alvo e sai-lhes mais barato e eficaz.

A imprensa não percebeu que não podia ser gratuita, por isso tornou-se um produto à borla na Internet em 2000, mais coisa menos coisa. Há 17 anos que tudo definha: gráficas, redacções, editoras e distribuidores.

O que vai acontecer à Visão – herdeira legítima  de O Jornal – é infelizmente natural. As capas com que se ilustra este texto mostram o desespero de uma direcção e redacção submetidos ao “interesse percebido do público”. Não há notícias, não há jornalismo de investigação, não há entrevistas que mudem o curso do país. Não há porque isso deixou de vender. Não há porque não há dinheiro para defender jornalistas em processos. Quando me vi processado por Pinto Balsemão, José Sócrates, Santana Lopes, Narciso Miranda, entre outros, por ter escrito peças jornalísticas, a editora torceu o nariz à minha defesa e à dos camaradas também envolvidos. Absolvido em todos, percebi claramente que os editores estavam a mudar de opinião sobre o jornalismo.

O encerramento de 13 títulos, à bruta, deita mais gente no desemprego mas, acima de tudo, empobrece o país, que perde textos com qualidade, géneros literários, autores e material formador de cultura e opinião.

Não nos queixemos muito: o país adora o Love on Top (?) e debates de 50 horas sobre jogos de 90 minutos. O país ainda debate temas como a homossexualidade. O país adora notícias de professoras de 25 anos que violam alunos de 16 mas escandaliza-se com professores de 25 que violam meninas de 16. Ou crimes à facada. Ou livros para a menina e para o menino, se forem dois.

Escrevi na Visão, onde aliás conheci e suguei o Afonso Praça, tanto quanto podia. Estava o Cáceres Monteiro em amena cavaqueira com a Maria Elisa e eu na “internet” com o Praça, a dizer-lhe o que era aquilo, ele cheio de curiosidade desconfiada.

Os velhos foram varridos: da Focus, que fechou pouco depois da minha equipa ter sido dizimada; da Visão, porque eram caros. De todo o lado, enfim.

O papel é um negócio muito ingrato. Os gestores do jornalismo falharam redondamente, em todo o mundo, inebriados pela Net, quando decidiram nunca pensar num modelo de negócio para as notícias online.

Agora, estamos nisto. Entregues ao “jornalismo cidadão”, que é uma expressão que me causa arrepios. É como se num restaurante houvesse o “cozinheiro cidadão”, onde cada dia uma pessoa qualquer vai cozinhar, saiba ou não. Ou um “comandante cidadão” em cada avião da TAP e, se deus quiser, lá levantaremos do chão.

É por isso que as vítimas primeiras de tudo isto são os leitores. Depois as redacções. E os responsáveis os jornalistas que alinharam na loucura e os gestores que pensaram, sabe-se lá porquê, que dar em vez de vender era a mesma coisa.

Há tempos houve um congresso de jornalistas. Não fui e disse a quem devia que o modelo do congresso não ia servir para nada. No último dia convidaram os patrões e fizeram louvas.

Deu no que deu. E vai continuar.

 

 

Buarque, ou a falta de poesia da massa

Buarque, ou a falta de poesia da massa

Tratemos do problema. Chico Buarque escreveu uma canção sobre a cobardia dos amantes, homens, que presos à noção matriarcal e católica mas sempre protegidos na noção de macho, fazem promessas de casamentos às amantes mulheres. O último verso, depois de tanta promessa, revela que o homem amante, cobarde, pede “lembra de mim, minha nega”, quando ele não estiver “mais aqui”.

Levantou-se um arraial nos últimos dias. Que Chico era machista e que estava a ofender as mulheres, quando ameaça deixar “mulher e filhos” para correr para os braços da outra. Ao que parece, ninguém percebeu, apesar de bem explícito, que a outra também tem outro e que esse outro também é mau e que, por fim, a indignidade absoluta de todos está em não serem livres.

Mais ainda, as imaculadas almas críticas, cá e lá, ainda julgam que a canção é machista quando, precisamente, é o contrário: a quem tenha dois dedos de capacidade interpretativa percebe que a mulher com o casamento infeliz e o amante cobarde é, infelizmente, a mais banal e massacrada. Chico faz a canção para ela, por ela, pela sua condição, mas coloca-se no lugar do aparente salvador, sem coragem para assumir um amor que, provavelmente, não é mais do que adrenalina e sexo.

Pobre gente, os intelectuais dos vários lados do Atlântico, que provavelmente nunca perceberam o Atrás da Porta nem se indignaram com o Feijoada Completa (mulher, não vá se afobar, etc.).

Hipócritas tardios ou imbecis de décadas, o Chico agora é culpado da subversão que reprimiram nas suas pequenas cabeças, durante anos. A Adriana Calcanhoto explica isto bem:

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas ainda outro dia a Mallu Magalhães era racista. O Brasil, e nós com ele, estamos cada vez menos livres, menos amantes, menos sonhadores, menos inteligentes.

É bem feita. Oiçam Kizomba e depois queixem-se do Chico.

Não há pachorra. Mesmo que o Pedro Tadeu lhes tente abrir a tola.

Perdão, mas já chega de fogo.

Perdão, mas já chega de fogo.

Entendamo-nos: nenhum governo pode estar descansado e falar de Economia quando o país arde como arde. Basta olhar para o mapa, para a televisão, para os sites oficiais para perceber um gravíssimo problema em Portugal.

Um problema que se chama desordenamento do território. Por cima deste, milhões de outros, mas que derivam apenas de um só: Portugal não é pensado, provavelmente nunca o foi e, infelizmente, a ver pelos exemplos dos políticos que nos prometem, nunca será.

Incêndios activos Ibéria - 30 dias
Incêndios activos Ibéria – 30 dias

Não é normal termos mais área ardida do que os países do sul da Europa que, como nós, têm floresta e culturas semelhantes. Não é normal suspirar quando chegam os bombeiros espanhóis, que fazem contra-fogo sem olhar à lei portuguesa. E ainda bem.

A lei, de 2009, é tão estúpida, hierárquica e burocrática que é preciso um papel e carimbo de uma repartição e duas autoridades para se poder fazer algo que salva vidas, floresta e casas.

Não acredita? Excerto do Diário de Notícias: “O documento define que a utilização do fogo em acções de combate tem de ser autorizada pela estrutura de comando da ANPC. E que tem de ser feita sob orientação e responsabilidade de um técnico credenciado pela AFN.” (clique no texto para ver original)

O ordenamento do território é uma falácia, uma palhaça, uma piadola. As leis e portarias e demandas legais, mais nacionais ou menos municipais, são pintadas da cor do vento. Ora subsídio para avestruzes na Serra da Estrela (procurem, é verdade) ou um Alqueva que é para o windsurf e casas de turismo rural. Regadio, viste-o.

Um território com uma faixa atlântica carregada de gente e um interior sem uma auto-estrada da raia ou linhas de comboio que funcionem. A Europa avançava na mobilidade ferroviária clássica, a gente sonhava com TGVs entre a OTA e a base lunar.

Área ardida e severidade do Fogo
Área ardida e severidade do Fogo – COPERNICUS
Emergency Management Service

Um território onde em ano de autárquicas nenhum presidente de Câmara vai multar um voto (i.E., uma pessoa) se não limpar a mata, o terreno, o pasto. Deus dá a manta conforme o frio e o fogo não há-de chegar. E quando chegar, dirá o cacique mal formado, deus queira que a TV cá venha, que lhes faço já o ponto de situação e ganho aqui tempo de antena que nunca mais se acaba.

Claro, nem todos os autarcas são assim. Não será a maioria, sequer.

Mas um território desordenado é o que deixa e se deixa arder. Os bombeiros do Cacém sabem lá por onde começar o combate quando estão nas Fontes e olham para o mato cerrado e nem uma estrada de acesso àquela salada russa de pinheiros, carvalhos, mimosas, eucaliptos, aloendros e duas casas de pedra com colmo e barro em cima. Coitados dos bombeiros do Cacém e de Matosinhos, do Beato e de Cedofeita. Uns heróis, é o que são, sapadores e, acima de tudo, voluntários, que nas televisões atiram água para cima das chamas em vez de atacar as bases porque os fundos para a formação sabe nosso senhor onde andarão…

Território em risco de Incêndio 15/Ago
Território em risco de Incêndio 15/Ago

Não, não é normal esta quantidade de pirómanos, num país que gosta de peixe e adora praia. Não, não é normal o risco de incêndio em Castela, Leão, Extremadura, na Mancha ser maior do que nas Beiras e arderem as nossas como se fossem um parque de diversões dos meliantes.

Não, não é normal ainda andarmos a falar de um sistema de comunicações que se chama RAISPARTA e que o homem que o encomendou agora diga que usa Vodafone ou Nos  e, em vez de resolver o problema porque os incêndios são hoje, adie para as calendas parlamentares a solução que pode salvar vidas.

Não, não é normal que não se corte imediatamente a entrada aos madeireiros aos terrenos ardidos e que não se trave o comércio do aglomerado e da usura, quando os homens de gravata ou camisa aberta – já os vi, uma vez negociei com eles e subia-me à boca o azedume do mau azeite -, esses “amigos” da hora certa a dar dez tostões por mel coado.

Não, não é normal que se contabilizem as vítimas mortais apenas naquelas que perderam a vida, porque os campos alimentam as pessoas e o dinheiro não chega. Os campos têm alhos e batatas, cebolas e gado, pasto para este e é a carteira viva, a pensão complementar para quem, já avós, ajudam filhos a criar netos – apesar do milagre do emprego que apareceu na azinheira do INE. É a velha expressão de que alguns acabaram “ainda mais deitados / o coveiro que o diga”.

Tal como não é normal que se atirem pedras aos jornalistas que mostram o que está a acontecer, a aflição real dos seus concidadãos, a destruição verdadeira. Se os moradores das avenidas das cidades se incomodam são eles, também, a mecha que faz deste tempo um triste tempo.

E não, não é normal que não haja um ponto final nesta desgraça, como não haverá nas cheias das águas invernais, na erosão da costa e das arribas que matam, no crescimento pomposo e confuso das cidades.

Um dia, talvez um dia, os romanos queiram voltar. Temo que apenas confirmem o que uma vez disseram.

 

O tonto ódio ao Turista

O tonto ódio ao Turista

Já cá faltava o “orgulhosamente nós”. As cidades que nunca se habituaram ao novo têm população que agora quer descartar um produto de exportação que lhes dá emprego e vida. Mas mesmo assim, culpamos os outros, os turistas, como se fôssemos santos.

Anda aí uma onda de ódio ao turista. Ele é porque a Baixa não é a mesma. Porque andam a deitar idosos fora em prédios antigos para fazer pensões modernas. Porque empatam as cidades naquelas motoretas horrorosas a que chamaram tuque-tuque.

O turismo não faz mal a ninguém. No nosso caso, a mentalidade bacoca e a ganância é que fazem mal ao turismo. Vamos por partes.

Primeiro, não há nem houve planeamento algum para que as cidades suportassem o turismo. Apesar da previsível opção por países mais calmos, depois dos atentados a eito, Portugal não se preparou devidamente para receber quem lhe compra o grande produto de exportação. Os assuntos são discutidos em cima do joelho quando os problemas estão a acontecer.

Ninguém ordenou a mobilidade dos turistas, essencial, e vai daí toca a apitar contra o tuque-tuque. As autarquias e os Governos deviam ter pensado, há anos, quando a primeira motoreta chegou importada das Índias, que devia haver espaço para todos. Em vez das ciclovias, das faixas Bus e Turísticas, da regulação do trânsito dentro das cidades e do estrangulamento legal da circulação automóvel selvagem,  que era prioridade para habitantes e visitantes,  nada feito. Nada pensado, tudo atabalhoado e mal resolvido, em cima do joelho, com cada cidade a ditar sua sentença. Culpa do turista? Que mal fez o Sr. Sommer no planeamento da mobilidade? Que culpa tem a senhora Dawkins? Ou a menina Kim?

O domínio do espaço hoteleiro era dividido entre uma mão cheia de grandes grupos e umas senhoras, todas do pregão “chambre, zimmer”, ensinado na Escola Profissional do Engate da Nazaré. Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro não se prepararam para a chegada mais do que previsível dos Bed&Breakfast, as pensões modernas e armadas ao pingarelho. Anda agora o Parlamento a tentar legislar uma coisa chamada “Alojamento Local” (AL), como se houvesse Alojamento Exterior ou Alojamento de Algures. A ganância dos proprietários Patos Bravos tem demonstrado a sua ferocidade quando até pedem a donos dos prédios vizinhos que “fiquem com os velhos” já que não querem transformar os seus prédio da Baixa em AL. Despejam pessoas à cata de coreanos e japoneses, alemães e suecos, o dólar o dólar. Os que querem fazer bem, lixam-se, sem capital para tanto imposto e falta de advogado e cunha. Culpa do turista, esta voragem?

Ai, a Tradição

Outra queixa é a grande “descaracterização” dos centros da cidade e das zonas históricas. Aqui, só nos podemos rir. “A Baixa está impossível”. Por quê?, pergunta o incauto? Está abandonada e com prédios a cair? As lojas estão todas a fechar? Às oito da noite aquilo é um antro de vendedores de louro e noz de cola? Os transportes públicos cheiram a urina e acabam às dez?

Ou, por causa do turismo, as Baixas deste país retomaram vida, abriram novas lojas, estão pujantes?

Há, claro, um problema, mas não é do turista. É da ganância. As novas vidas das Baixas fazem-se com preços elevadíssimos e com a usura habitual dos locais, que qual Zézé Camarinha da restauração e do recuerdo, tentam sacar 40 euros por uma posta de bacalhau mal cozido e um azeite tão misturado com óleo que dava para 100 quilómetros num Renault 5.

Dizem: “A grande vantagem do turismo em Portugal são as pessoas, o seu povo afável e acolhedor”. Até pode ser. Mas também somos um povo subserviente e que, à primeira dificuldade na nossa augusta e escondida manha de enganar o estranja, querê-lo-emos de cá para fora.

A culpa não é do turista. É da nossa falta de visão e do nosso entranhado orgulhosamente sós, gananciosamente nós.

 

 

 

 

De um amor que passámos

De um amor que passámos

Nunca to disse porque pensei que me dirias qualquer coisa de final. Um aspecto estranho e ficaria cheio de acabrunhados medos e sensibilidades. Pensei até no meio da frase em que ia acabar. Podia ser “e se não quiseres, não faz mal”.

Ontem, era quinta-feira.

Pouco importa, agora que te meteste no Mini, dos novos, todo fandango e senhorio, eu a pé ou de metro ou, pior, vê, à boleia, uns adultos aqui metidos que ainda nos fazem órbitas e eu a pensar que a meio da frase ganhava coragem e dizia mais qualquer coisa, mas tu estavas longe e eu fiquei.

Ontem, quinta-feira, mandei uma mensagem e tu respondeste, e eu disse logo que ia ter contigo apesar das centenas de quilómetros (não faço ideia do que sejam centenas, nem quilómetros, mas disseste que sim) e logo fiz a máquina andar para poder estar aí.

Hoje é sexta.

Estivemos duas horas a ver se os anos que nos separaram tinham deixado dano. Primeiro, fizeste aquele ar de sempre, o que me deixou mais inquieto, mas depois eras mesmo tu. Eu desenformado, com cada músculo a contrariar o cérebro, tu a fazer de conta que foi ontem, eu a ver-te ainda loirinha com a maquineta dos diabetes e a correr para ti, “estás bem?”,tu nada a não ser com os olhos, eu à espera que não subisse dos 200 e tu a passar a mão pelo meu braço.

Tínhamos oito, somados 16, mas nem agora temos 16 sozinhos.

Quando te vi, nem nunca te direi isto a não ser que cases comigo e eu contigo, quando te vi não mudaste e eu não mudei, era a mesma coisa, O teu casaco cor-de-rosa, apesar de estares com manga-curta. A tua mochila pesada, apesar de teres apenas uma bola de futebol e um sorriso de quem deseja.

Sabes, por estes dias percebi que afinal eras aquilo que nunca percebi.

E hoje, por ser sexta-feira, dia em que nos despedíamos para o fim-de-semana e que hoje, sexta-feira, lá te disse adeus para sempre porque vais para longe, hoje dormirei a pensar no que fosse, ou fora, ou mesmo no que será. Dou-te um beijo, demoro-me a deixar-te com a tua mãe e os teus avós.

Amanhã é domingo, vê tu.